Encontro com Graça Morais marca regresso de Agustina


Agostinho Santos e Sérgio Almeida

Do "feliz encontro" entre dois dos nomes maiores da cultura portuguesa, nasceu "As metamorfoses", projecto das Publicações Dom Quixote em que o confronto dos universos artísticos de Agustina Bessa-Luís e Graça Morais dá origem a um livro assolado tanto pelo tom confessional como pelo desnudamento do singular processo criativo das duas artistas.

A admiração mútua entre ambas já tornara há muito assente a decisão de um projecto conjunto, mas só à terceira tentativa (ler entrevista a Graça Morais AQUI) o desejo se tornou real. E logo de um modo tão intenso que se torna difícil discernir com exactidão quem influenciou quem se é certo que foi a partir dos esboços de vários desenhos da artista plástica que a romancista lançou o repto, não deixa de ser também verdade que, para Agustina, quaisquer pretextos são válidos para as reflexões agudas sobre a natureza humana que caracterizam a sua escrita.

É o que acontece nesta espécie de 'contaminação' mútua, onde "As metamorfoses" a que o título alude se manifestam sob a forma de um regresso às personagens mais emblemáticas dos romances da autora de "A alma dos ricos". Mas não só. Nas 115 páginas, há também incursões pela obra de Ovídio e evocações frequentes a Musil, Maeterlinck, Emily Brontë e Flaubert, afinal, a própria genealogia literária da escritora que celebrou há pouco mais de um mês o 85.º aniversário."Peregrinação" literária

Na "peregrinação" que faz pelos seus livros, como define logo no prefácio, escrito em Novembro de 2005, Agustina conclui que todos os seres "estão continuamente sujeitos a metamorfoses", as quais mais não são, em última instância, do que "o próprio instrumento da realidade".

Se "as personagens dum livro são como cristais de gelo prontos a assumir diversas formas", apesar da crítica as "fossilizar", há na sua criação, todavia, como afiança Agustina, um esforço grande de síntese e de anulação das contradições, pese embora "o indivíduo não contenha apenas o duplo mas muitos outros que reclamam a sua identidade desde o mais profundo do seu ser".

Os célebres aforismos agustinianos - "Para envelhecer duma maneira feliz é preciso desinibir-se e alhear-se de qualquer actividade", sentencia - não estão ausentes de um livro que contribui para um conhecimento mais profundo do processo de criação literária da autora. "Imagino-me como uma lebre num prado, quando escrevo os meus livros. Deixo um sulco no chão molhado de orvalho e os galgos correm atrás de mim. Forçosamente tive uma experiência dessas. Eu punha os pulmões e o coração ao comando do cérebro e só me interessava sobreviver tendo no meu encalço o ganido surdo dos cães e as vozes dos caçadores", confessa.

Enferma há longos meses, Agustina não irá estar presente hoje, às 19 horas, no Café Guarany (Porto), na sessão de lançamento dirigida por Inês Pedrosa - far-se-á representar pelo marido e pela filha -, mas é a própria autora que expressa no prefácio do livro, escrito em Setembro de 2005, a emoção por ver concretizado o projecto "Este feliz encontro com a Graça Morais merece bem o título de "Maneiras de aer". Somos uma só identidade em múltiplas formas de conhecer o vasto mundo e os seus milagres (...) Somos como irmãs que se desvelam a honrar a mãe Terra, eterna não diremos, mas preparada por nossas mãos a empreender o voo, um dia, para outro lugar no espaço".



A metamorfose criativa das mulheres-gafanhoto

Desta vez, as mulheres, as deusas de Graça Morais, foram metamorfoseadas. Desapareceram aqueles rostos rugosos pelo tempo, as mãos finas e corpos esguios, dando lugar a um universo de personagens inventadas, misto mulheres/gafanhotos.

Um dia, o bicharoco foi morto pelo gato da filha de Graça Morais, que o levou para o interior do ateliê. Aí a pintora reparou na beleza estética do animal e conservou-o num frasco, onde posteriormente se lhe juntaram mais dois ou três. A partir daí, surgiram, então, as pinturas de gafanhotos e logo de seguida a metamorfose com a mulher.


São cerca de 50 pinturas (aguarela, acrílico e carvão) concebidas pela pintora que, uma vez mais, evidencia a firmeza e o rigor do traço, juntando-lhes a força da cor.

Este conjunto de obras permite-nos assistir a uma viagem ao interior de um corpo metamorfoseado onde são facultadas as principais fases da mudança. Ou seja, a pintora começa por nos mostrar a separação antes da união e, depois de consumada, apresenta-nos uma série de trabalhos que consolida a metamorfose entre a mulher e o gafanhoto.


3 comentários:

  1. Sao muito interessantes seus trabalhos, a minha mae possui 2 serigrafias...

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  2. hola
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    perdona por usar comentarios,no vi email

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  3. ola.
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    voltarei em breve para uma visão mais apurada.

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