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·Duas Exposições· Graça Morais & Sophia de Mello Breyner Andresen



Sophia e Graça, Grécia, 1988 © arquivo pessoal de Graça Morais

O Anjo de Timor

Graça é a serra escarpada, Sophia o mar aberto. Sobre as duas brilha o mesmo céu – a mesma indomável coragem de olhar de frente sol, estrelas, chuvas e tempestades. Nada as intimidou, nunca – cada uma pegou no que tinha e não tinha para combater o medo e a morte através da beleza, por definição inexpugnável.

Ambas souberam arrancar às trevas a claridade – Graça através da força do desenho e do escândalo denso da cor, Sophia através de palavras faiscantes como pedras batidas pelas ondas. Vinham de mundos opostos, encontraram-se no relâmpago do olhar que define o infinito da cumplicidade. Desse encontro nasceram dois livros, duas exposições – um encontro íntimo e universal, como tudo aquilo em que elas tocam, para lá do tempo.

Inês Pedrosa

Ler mais aqui Sophia de Mello Breyner Andresen extractos d'O Anjo de Timor


Orpheu e Eurydice

“Tudo aconteceu em 22 de Abril de 1990. Os desenhos que aqui se apresentam foram os primeiros que pintei no ateliê da Costa do Castelo, usando o papel de música em que o Pedro [Caldeira Cabral] trabalha. (...) Um dia, mostrei-os à Sophia. Disse-me logo tê-los achado lindíssimos. E propôs-me fazermos um livro com os desenhos e poemas. 

Conhecemo-nos melhor na viagem à Grécia em que acompanhámos a visita oficial do Presidente da República, Dr. Mário Soares, e ficámos desde então muito amigas. Nessa altura andámos sempre juntas, já que me foi dada a incumbência de acompanhar Sophia num programa cheio de compromissos e horas. A verdade é que me deixei encantar de tal modo, que criámos uma forte amizade, e da minha parte uma verdadeira devoção.”(...)

Graça Morais

Ler/ver mais aqui Orpheu e Eurydice


Da Biografia
2001 – “Orpheu e Eurydice”, Sophia de Mello Breyner Andresen, edição Galeria 111, com pinturas suas.
2003 – “O Anjo de Timor”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, Ed. Ceneteca, com ilustrações suas.


PDFs para imprensa (downlad no scribd)
Graça Morais & Sophia de Mello Breyner Andresen ·Duas Exposições·
Orpheu e Eurydice
O Anjo de Timor

Convite
 Inauguração hoje, dia 29 de Setembro, às 18:00

Casa Fernando Pessoa
Rua Coelho da Rocha, 16 Campo de Ourique
Lisboa,
De Seg. a Sáb. 10h -18h
Tel.: +351 213 913 270
E-mail: cfp@cm-lisboa.pt

Relacionado 

Biblioteca Sophia de Mello Breyner Andresen na cidade de Díli, no bairro de Taibessi, Timor

Algumas imagens da Biblioteca aqui

O Anjo de Timor | Anju Timór nian - Tradusaun ba tetun husi | Tradução para tétum de João Paulo T. Esperança e Emília Almeida de Araújo [versão bilingue] via Instituto Camões [PDF]


Orpheu e Eurydice









Orpheu e Eurydice

Tudo aconteceu em 22 de Abril de 1990. Os desenhos que aqui se apresentam foram os primeiros que pintei no ateliê da Costa do Castelo, usando o papel de música em que o Pedro [Caldeira Cabral] trabalha. (...)
Um dia, mostrei-os à Sophia. Disse-me logo tê-los achado lindíssimos. E propôs-me fazermos um livro com os desenhos e poemas. (...)
Sophia considerou, desde o início, os poemas inspiradores e eu fiquei naturalmente entusiasmada com a ideia. E essa foi a melhor oportunidade para reforçar a nossa amizade. Passamos vários serões, em noites sucessivas, a escolher os poemas e a ligá-los aos desenhos. Sophia aproveitou muitos poemas que já tinha e escreveu outros especialmente, mas nunca estava satisfeita com o resultado, por isso reviu e alterou-os incansavelmente, decerto embalada pela inspiração de Orpheu e Eurydice. (...)
A poesia e a música, que eram tudo para Sophia, estão aqui bem presentes – e eu devo ao Pedro o ter-me feito descobrir esse mundo dos sons e dos
instrumentos, que procurei transpor para os desenhos, simbolicamente feitos em pauta musical. E foi essa familiaridade com a música e a poesia que reforçou a devoção, não é de mais repetir, que tenho por Sophia. Orpheu e Eurydice acompanharam-nos neste nosso encontro inesquecível que se transformou numa grande amizade..."
in catálogo “Orpheu e Eurydice”, Sophia de Mello Breyner Andresen / Graça Morais, excerto de texto de Graça Morais "História de uma devoção", Ed. Centro Nacional de Cultura, Maio 2006


Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei.

Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Pintora Graça Morais ensina arte às crianças na Casa da Cultura da Trofa

Pintora Graça Morais ensina arte às crianças na Casa da Cultura da Trofa. A Casa da Cultura da Trofa, recebe a 22 de Maio um dia dedicado à pintura orientado pela prestigiada pintora portuguesa Graça Morais . Este encontro com a pintora reunirá centenas de crianças das escolas do concelho da Trofa, bem como de outros concelhos que estarão de visita ao município trofense.
Esta iniciativa tem como objectivo sensibilizar as crianças para a arte, desde tenra idade e motivá-las para a criação artística.Os ateliers decorrem das 10h00 às 19h00 e são uma oportunidade única para as crianças entrarem em contacto com uma figura de destaque da pintura portuguesa.
De recordar que esta pintora tem exposta uma mostra de trabalhos seus intitulada "Orpheu e Eurydice", até o dia 31 de Maio na Casa da Cultura, - inserida ainda no programa do 3º Encontro Lusófono de Literatura Infanto-Juvenil, que decorreu de 27 de Abril a 6 de Maio, - onde apresenta uma série de acrílicos e sépia sobre papel de música que ilustram a poesia de Sophia de Mello Breyner. Graça Morais é para muitos críticos de arte, um dos maiores nomes da pintura dos últimos 100 anos em Portugal, e com a sua experiência, sensibilidade e criatividade conta através das suas ilustrações, histórias tão reais e fascinantes quanto a poesia de Sophia de Mello Breyner Andersen. A exposição e o encontro com a autora constituem duas formas únicas do Concelho da Trofa homenagear os maiores nomes da nossa Cultura.
nota: as fotografias são do arquivo de Graça Morais
retirado de O Notícias da Trofa


Escritos de Eva: Sophia de Mello Breyner Andresen # O Anjo de Timor

Sophia de Mello Breyner Andresen # O Anjo de Timor

4 de março de 2007

Há muitos, muitos anos, em Timor, vivia um liurai muito poderoso e muito bom. Na sua juventude resolveu ir correr mundo, para se tornar mais sábio.
Foi viajando de barco, de ilha em ilha, até chegar a uma terra muito distante.
Ali, um dia, conheceu um mercador vindo de muito longe, dos países do lado do Poente e que, também ele, andava há longos anos no caminho.
Esse mercador disse-lhe que, numa das suas viagens, tinha ouvido contar que, ainda muito mais longe, para além de montanhas, oceanos e dos imensos desertos de areia, vivia um povo que adorava um Deus único e todo-poderoso, criador do Universo e de todas as suas criaturas. E esse povo acreditava que o seu Deus, um dia, desceria à terra para salvar todos os homens.
- Quero ir ao país onde mora esse povo, disse o timorense.
Quero ouvir mais notícias do Deus que um dia viverá entre nós.
- Ai, é impossível, respondeu o mercador. Esse país fica tão longe que mesmo se viajasses a tua vida inteira não conseguirias lá chegar.
.................................................
- Já vi tantos lugares e tantos povos, mas não posso encontrar o povo que adora o Deus único, porque mesmo que viajasse a vida inteira não conseguiria lá chegar. Por isso, de que me serve viajar mais?
E voltou para a sua terra.
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E enquanto dormia, ouviu em sonhos uma voz que lhe disse que esperasse, esperasse sempre, pois um dia, a meio da noite, Deus lhe mandaria um sinal.
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Daí em diante, foi sempre assim. ... quando todos tinham adormecido, sentava-se de novo sozinho, à porta da sua casa, à espera de um sinal de Deus. ... ia envelhecendo, mas todas as noites se sentava à entrada da sua casa, à espera do sinal de Deus. Poisava sempre ao seu lado a pequena caixa de sândalo onde estavam guardadas as pedrinhas com as quais na sua infância jogava o hanacaleic.
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E o jovem disse:
- Sou o Anjo de Timor. Alegra-te, liurai, porque o Deus que tanto tens esperado se fez homem e desceu hoje à terra. ... Gaspar traz uma caixa com oiro. Melchior uma caixa com mirra e Baltasar uma caixa com incenso.
- Quero ir com eles, exclamou o chefe timorense.
- É impossível. Belém fica tão longe que nem que caminhasses a tua vida inteira lá chegarias.
- Então, Anjo, tu que és mais rápido que o pensamento, leva o meu presente ao Menino. É uma caixa de sândalo que tem lá dentro as pedras com que eu brincava ao caleic quando era pequeno. O Anjo tomou a caixa nas mãos e disse:
- Ainda bem que te lembraste de Lhe mandar um brinquedo.
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Este Natal, de novo, o Anjo de Timor se ajoelhou e ofereceu uma vez mais a caixa de sândalo e as pedras do caleic:
- Menino Deus, Príncipe da Paz, Deus todo Poderoso, lembra-Te do povo de Timor que por Ti foi confiado à minha guarda. Vê como não cessam de Te invocar, mesmo no meio do massacre. Senhor, libertai-os do seu cativeiro, dai-lhes a paz, a justiça, a liberdade. Dai-lhes a plenitude da Vossa graça.
Glória a Ti, Senhor!




in "O Anjo de Timor"
de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustrações de Graça Morais

retirado de Escritos de Eva