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O Rosto do Medo



Por Sílvia Souto Cunha

Pinturas, desenhos, trabalhos em azulejo, contaminados pela realidade que todos contemplamos diariamente em jornais e televisões, eis a produção recente de Graça Morais, agora apresentada numa galeria cúmplice.

Guerras, refugiados, incerteza, violências várias, uma espécie de realidade expressionista, por assim dizer, são os temas com que a pintora se confrontou, assumindo uma postura cívica de não virar a cara - que, adivinha-se, estende até à folha de papel.

Veja-se o perturbador desenho a tinta da china, datado já deste ano, em que uma mulher tapa um dos olhos mas continua a ver a violência exercida por uma figura masculina, manápula em torno de uma ave indefesa.

A exposição O Rosto do Medo apresenta-se como um quase- manifesto, “um apelo à força e energia do Homem perante todos os desafios”. A mensagem é passada através de sete desenhos de pequena dimensão,11 pinturas (alternando acrílico, pastel, tinta-da-china, e carvão sobre papel) e ainda um conjunto de azulejos.

Em suma, todos os media familiares à artista, que não tem abdicado de uma visão lúcida sobre o mundo, mesmo quando este é observado a partir de geografias domésticas ou desses corpos de mulheres-medeias ou mulheres- -meninas. Entre a identidade mais chã e a desumanização contemporânea, a artista renova, aqui, a sua militância.

in Visão Nº1211 (suplemento), de 19 de Maio a 25 de Maio de 2016 (Edição em papel)

Graça Morais: "Pinto com o coração na mão e na cabeça"


Graça Morais | Jorge Amaral/Global Imagens

Entrevista por Mariana Pereira

"O Rosto do Medo", que inaugura hoje na galeria Ratton, mostra as figuras dos nossos dias a caírem e a levantarem-se. A gente comum, os que a crise abalou, os refugiados, as mulheres maltratadas

Onde começa uma exposição como O Rosto do Medo? Com um desenho, uma ideia, uma fixação?

Comecei a fazer estes desenhos, os mais pequenos, no verão de 2015. Fi-los porque estava a precisar muito de os fazer. Foi uma altura em que eu estava a viver uma situação muito difícil, estava com pessoas muito perto de mim, familiares, muito doentes; e ao mesmo tempo via e lia todos os dias notícias sobre os refugiados. Houve um conjunto de situações que me angustiaram muito. Tive necessidade de as escrever, de as desenhar, e sobretudo de as pintar.

Encontrou uma afinidade maior entre estas situações tão díspares: acompanhar alguém doente, e ter de deixar tudo para trás?

Eu acho que o sofrimento pessoal torna-se num sofrimento universal quando estamos em sintonia com o que se passa à nossa volta. Estes não são desenhos ilustrativos, mas são imagens de rostos em sofrimento, de angústia, e alguns de verdadeiro medo. Quando estamos a viver situações muito dolorosas entendemos melhor a situação de outros seres humanos. Quando as coisas todas correm bem, às vezes tornamo-nos egoístas. Às vezes tendemos a tapar a cara e não ver.

Como naqueles seus dois quadros em que a mulher tapa metade da cara com a mão.

Quando nós temos consciência das situações, ainda só tapamos metade da cara. Quando estou em casa, a ver o telejornal, acontece-me estar a comer, parar e dizer: "Que horror, a que é que estou a assistir?" Mas tornamo-nos insensíveis e continuamos a comer. Essa imagem de tapar só meia cara é a imagem de ver com um olho e com o outro esquecer o que se está a ver.

No momento de pintar não há mãos a tapar?

Não. O momento de pintar é de grande lucidez e de grande relação com o mistério. Isto é o meu testemunho durante os últimos meses do ano passado, e deste ano. O país estava a viver uma austeridade terrível. Todos nós sofremos. O que eu sentia era que à minha volta havia uma tristeza colectiva. Neste momento, felizmente, acho que estamos a viver um período de maior optimismo, maior esperança.

Estes quadros parecem trazer ainda a violência que provoca o sofrimento ou o medo. É assim?

Sobretudo a violência naquelas figuras de mulheres. No ano passado, abríamos os jornais, as televisões, e houve um período trágico, muitas mulheres no nosso país foram maltratadas e assassinadas.

Há ali uma mulher de cabeça baixa, com asas.

Sim, que está a chorar. Os anjos também choram. Nós vivemos rodeados de pessoas que são anjos e outras que são verdadeiros diabos.

As mãos vermelhas num dos quadros são de vítima ou de agressor?

Aquelas mãos são mãos de uma vítima. Nem tudo aparece de forma consciente. Quando desenho ou pinto obedeço a uma necessidade muito forte, mas não sei explicar tudo o que faço.

Estas figuras vêm-lhe do que viu em Trás os Montes, ao crescer?

Estas três figuras que estão ali são mulheres do mundo rural. E são mulheres que, ao longo da minha vida - e agora começo a ter quase a idade delas -, viveram uma vida com uma grande resignação, mas também com um grande sofrimento. O modelo de virtude delas era a figura da Mater Dolorosa, a mãe de Jesus. São mulheres muito pacificadas, não revoltadas.

Via-as na rua e sabia o que se passava nas suas casas?

Vi-as na rua e na luta que elas faziam. A grande concentração dos sentimentos delas é em relação aos filhos, o prolongamento delas próprias, e pelos filhos elas fazem todos os sacrifícios.

Sendo mulher, como se está, por um lado, com um pé na vida e, por outro, na distância suficiente para representar tudo isso?

Acho que nós, as mulheres, porque somos mães, e sabemos gerar um ser humano, conseguimos estar profundamente ligadas ao universo através de um ser humano, que são os nossos filhos, mas também de outras pessoas que sentimos como se nos pertencessem. Nestas situações de grandes dramas, repare que quem vem muitas vezes para a frente revoltada e a falar é a mulher. As mulheres gritam, são corajosas, os homens são corajosos de outra maneira. Mas a mulher tem o coração junto da boca.

Pinta com o coração na boca?

Pinto com o coração na mão e na cabeça.

E então o que tem a dizer fica dito.

Sim. Não sei explicar por que é que chego a uma altura e digo: Não consigo fazer mais e já fiz o melhor que pude. Parece que é um anjo que me pega na mão e diz: Agora já chega, já acabaste. Quando estou a pintar estou sempre a interrogar-me sobre o que estou a fazer. Há um momento em que a interrogação tem respostas certas.

Está em paz com esta mostra?

Estou. Quando nós fazemos, em consciência, as coisas bem feitas, ou somos úteis, ou fazemos o melhor que podemos, isso dá uma paz muito grande. Tento mostrar que não sou cúmplice em relação a certas situações, que estou atenta. Ao mesmo tempo, é uma necessidade profunda.


in Diário de Notícias, 19 de Maio de 2016

Recortes de Imprensa - Os Deasatres da Guerra


Vídeos

Graça Morais entrevistada por Alberta Marques Fernandes
RTP Notícias emitido a 31 de Janeiro 2013
Vídeo indisponível

'Desastres da Guerra' - Graça Morais pinta o sobressalto cívico
LusoPress TV publicado a 1 de Fevereiro 2013


Graça Morais expõe "Os Desastres da Guerra" no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva
SIC Notícias emitido a 1 de Fevereiro 2013


Graça Morais entrevistada por Ana Lourenço sobre a exposição Os Desastres da Guerra
SIC Notícias Edição da Noite emitido a 1 de Fevereiro 2013


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais
Reportagem de Rui Lagartinho na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva
RTP Artes (extracto) emitido a 9 de Fevereiro 2013


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais
Euronews, rendez-vous, emitido a partir de 26 de Março
Vídeo indisponível

Imprensa

Graça Morais mostra “Desastres de Guerra” por Agostinho Santos
Jornal de Notícias publicado a 29 de Janeiro 2013, pág. 42


Homens, bestas e demónios - Crítica de Arte por Miguel Matos
Time Out Lisboa publicado a 14 de Fevereiro 2013


Graça Morais Uma pintura que grita e acusa Entrevista por Maria Leonor Nunes
A Luz das trevas - Crítica de Arte por Maria João Figueiredo

Jornal de Letras, Artes e Ideias publicado a 6 de Março 2013, págs. 16 a 20

PDF 1, PDF 2, PDF 3, PDF 4, PDF 5

Celebrar o Medo - Crítica de Arte por José Luís Porfírio
Revista Actual Expresso publicado a 9 de Março 2013


Graça Morais reúne a sua pintura de guerra por Lina Santos
Diário de Notícias publicado a 9 de Março 2013, pág. 38


Rádio

Crise retratada na exposição da pintora Graça Morais
Graça Morais entrevistada por Helena Esteves

Antena 1 (excerto) emitido 31 de Janeiro 2013


Spot Publicitário - Graça Morais 'Os Desastres da Guerra'
Antena 1/Antena 2 - media partnership com a Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva
em breve



Cartaz das Artes: "2011 - A Caminhada do Medo" - Exposição de Graça Morais


Exposição de Graça Morais na Cooperativa Árvore, no Porto, até 20 Novembro.

"2011 - A Caminhada do Medo", a mais recente exposição de Graça Morais, inaugurou na Cooperativa Árvore, no Porto. A pintora transmontana confessou que quando começou a trabalhar nestes quadros não imaginava a actualidade que viriam a ter. Reportagem de Carla Carvalho.

SIC - Cartaz das Artes, 26.10.201



Artista plástica Graça Morais vence prémio Casino da Póvoa


A artista plástica Graça Morais venceu a edição deste ano do Prémio de Artes Casino da Póvoa com o quadro "Série 2011: A Caminhada do Medo, 2011", informou o casino, através de comunicado.

Além de atribuir um prémio monetário no valor de 30 mil euros, o casino vai adquirir a obra premiada e publicar uma monografia sobre a artista.

Este galardão visa "distinguir e homenagear a obra de uma mulher que, ao longo do tempo, construiu uma carreira que a consagra como uma das maiores pintoras contemporâneas", justificou o casino, no comunicado.

Graça Morais, "cujo universo cruza a herança do mundo rural, assume a condição da mulher e da natureza na intuição ligada aos sentimentos e às emoções", sendo que na obra da artista, "as mulheres são a terra, a razão e a origem do mundo", lê-se ainda no documento.

O júri deste prémio foi constituído por Dionísio Pereira Vinagre, Vasco Esteves Fraga e Amândio Secca, sendo que a distinção vai ser entregue no dia 17 de dezembro, numa cerimónia que terá lugar às 21:00 horas.

A obra adquirida agora a Graça Morais passa a integrar a coleção de arte do Casino da Póvoa.

Graça Morais nasceu em 1948, em Vieiro, Trás-os-Montes.

Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, expôs, pela primeira vez, no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

Em 1975 funda o grupo puzzle e, entre 1976 e 1978, vive em Paris como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

in RTP/Lusa,4 Outubro 2011

Graça Morais, pintora-perdiz



“A Máscara e o Tempo” é a exposição de Graça Morais que a Galeria Ratton inaugura hoje. Miguel Matos teve direito a visita guiada na companhia da pintora.

Por Miguel Matos

Pelas três naves da galeria desfilam pinturas que aludem à vida e ao tempo próprio do quotidiano no campo. Desenhos recentes, feitos a carvão, representam batatas geradoras de vida, transformadas pela acção dos dias passados.

Imagens de aves que se fundem no rosto da pintora dialogam com desabafos do dia-a-dia. A exposição “A Máscara e o Tempo” é uma súmula dos muitos desenhos que Graça Morais traça diariamente, marcando na memória as emoções da vida, a morte e a passagem do tempo nas pessoas que nos são queridas.

A Graça Morais continua a preferir o desenho como sua expressão, mais do que a pintura?

Sim. Gosto imenso de desenhar a carvão e a pastel. Mais depressa atinjo os resultados que quero assim do que com a pintura. A pintura requer uma força mais física e exige muito tempo. Nos últimos dois anos, desde que comecei a ter de ir muito a Bragança [onde está o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais], comecei a ficar com o meu tempo dividido. Então, quando fico no meu ateliê muitos dias agarro-me às telas e pinto.

Nesta exposição podemos observar três núcleos de obras. Pode explicar cada um deles?

Na primeira sala temos o tempo longo dos campos e do ciclo das estações. Há uma pintura com uma cabra que está no campo... isto é um tempo que só o campo tem. Nós na cidade não o temos. É o tempo da contemplação. Quase que se sente o som da bicharada, dos insectos... eu tenho muita sorte pois vou muitas vezes para a montanha e ando por aqueles lugares a sentir os campos. Gosto imenso dos rebanhos de gado, que cada vez existem menos. A nossa primeira infância marca-nos a todos e eu fui muito marcada porque vivi até aos sete anos nesse lugar, que na altura não tinha electricidade, nem estradas nem telefones. O isolamento era tanto que tudo o que eu vivi foi muito intenso. E a relação com o meu pai, com a minha mãe e os meus irmãos, numa família numerosíssima e aquela gente toda na aldeia ficaram marcadas profundamente no meu pensamento e no meu coração. Sinto que hoje sou uma privilegiada porque tenho esse mundo dentro de mim.

Tem necessidade desse acto de contemplação que hoje parece relegado para segundo plano?

Sim, porque isto tem a ver com a minha identidade, com a minha cultura. Há uma pintura que retrata os jovens de Trás-os-Montes. São jovens que eu encontro lá mas que são quase uma raridade. Vestem-se como aqui, têm os mesmos hábitos pois o mundo é cada vez mais pequeno. Têm uma aparência muito citadina, na aparência, nos objectos, na aquisição das tecnologias, mas ao mesmo tempo vão para o campo e vêem as cabras, as ovelhas...

Desenhou batatas velhas e transfiguradas... A observação da transformação da natureza é para si uma metáfora para a passagem do tempo?

Sabemos que quando deixamos as batatas apanhar luz, elas grelam. Lá em casa eu não deixo ninguém deitar fora as batatas greladas. Elas são motivo de interesse porque estão vivas, estão a transformar-se. A metamorfose dos seres vegetais é uma coisa que me toca e que preciso de observar. Então, peguei nessas batatas greladas e levei-as para o ateliê. Fiz uma série de desenhos porque aquelas batatas são uma metáfora sobre a vida e o tempo. Só passado algum tempo é que as batatas ganham esses grelos, que são nova vida e ao mesmo tempo é a velhice entendida como algo de grande beleza e que continua a ser aproveitável. Há pessoas que envelhecem e não são trapos, continuam a ter um papel na sociedade. Mas neste momento, com as pessoas a viverem muito mais, a nossa sociedade tem de criar espaços para elas. O meu pai morreu com 63 anos e eu achava que ele era velho. Hoje eu tenho 61 e não me considero velha. Há muita gente com 80 anos que faz uma vida brilhante e é uma velhice que tem de ser estudada.

Aquelas mulheres com vegetais a crescerem a partir dos seus rostos, como veias ou órgãos, o que simbolizam?

As pessoas, quanto mais envelhecem, mais o tempo lhes parece veloz. E então ficam com medo de morrer. Um destes desenhos é a cabeça da minha mãe, que é uma pessoa que eu adoro (eu desenho muito a minha mãe). Fazer estes desenhos é uma forma de a agarrar, de a prender, de deixar um testemunho de uma pessoa que é natural que vá desaparecer daqui a uns tempos. A transformação daqueles rostos com tubérculos é o tempo que se nota nas marcas que deixa nas suas caras. Quando as pessoas envelhecem numa relação normal com o tempo, as caras das pessoas velhas já não são caras, são vegetais, estão cheias de experiência.

É um discurso sobre o tempo e a vida, mas também sobre o corpo.

Não é só isso. Alguns rostos são fusões entre o rosto da minha mãe e o meu. E quando eu faço uma fusão entre a sua cabeça e a minha é uma maneira de questionar a minha identidade. É uma reflexão sobre a existência. E isso agudiza-se à medida que eu, com 60 anos, me questiono sobre o mundo que me cerca. Aqui não se sente os conflitos terríveis que há no mundo porque este é um mundo de paz. Também tem dramas e tragédias, há o medo da morte, da doença e da transformação, mas é um mundo que tem a ver com a dimensão dos campos. No fundo estou a reflectir sobre Portugal, que é um país que foi agrícola durante muito tempo e continua com uma agricultura cheia de dificuldades. Mas quando se vai à minha região vê-se toda a gente a trabalhar nas oliveiras, nas videiras... Eu tenho a sorte de ter uma mãe que mesmo depois da vindima me guarda umas videiras com uvas para eu ver...

A relação entre filha e uma mãe é incontornável na sua obra e assume uma dimensão quase visceral.

É realmente uma relação de sangue, de mente e de corpo. E nos últimos anos tenho começado a ver o mundo através da cara da minha mãe. E através dela eu começo a entender melhor aquela cultura e a minha.

Que assunto quer abordar nas pinturas das perdizes que se transformam num rosto?

As perdizes aparecem no Inverno, na altura da caça. Tenho uma relação afectiva com a perdiz, é uma ave muito bonita. Eu só consigo pintar a perdiz que os meus irmãos caçadores me oferecem, não consigo desenhar uma perdiz comprada numa loja. A prenda mais bonita que eu me lembro de ter tido quando era menina, tinha eu seis anos, foi o meu pai vir da caça, com o cinturão cheio de perdizes e oferecer-me uma. E aquela perdiz estava lindíssima e morta. Nunca mais a esqueci. Essa perdiz simboliza também uma certa vitimização das mulheres, mas sobretudo uma enorme beleza e os laços afectivos... E no final desta série, já sou eu, fundindo-me com a cabeça da perdiz. É um auto-retrato, que também é um diário. A minha pintura é muito simbólica, está cheia de metáforas.

A Graça Morais continua a fazer aquilo que parece um tabu na arte portuguesa actual: falar sobre si e sobre a vida.

Depende da arte contemporânea. O que acontece com alguns artistas é a não aceitação de uma certa sinceridade com os outros. Para nos aceitarmos como somos e para sermos sinceros com os outros numa relação de uma certa verdade, temos de ter um certo grau de amadurecimento e por vezes confunde-se a arte de vanguarda com esse lado dos fingimentos.



“A Máscara e o Tempo” está patente na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências, 2C) até 31 de Janeiro. Aberta de segunda a sexta das 10.00 às 13.00 e das 15.00 às 19.30. A entrada é gratuita.

in Time Out



Graça Morais expõe inspiradas pinturas "na passagem do tempo"


 II Auto-Retrato?, Aguarela, tinta-da-china e sépia sobre papel , 2009

A pintora Graça Morais vai mostrar 42 obras criadas este ano, inspiradas "na passagem do tempo" e "no isolamento das populações e abandono dos campos", numa exposição a inaugurar quarta-feira, na Galeria Ratton, em Lisboa.

Em declarações à Agência Lusa sobre a revelação de novos trabalhos, a artista plástica explicou que neles fala "da lentidão do tempo nos campos, por oposição à velocidade das telecomunicações e dos transportes nas cidades".

São "pequenas" pinturas a sépia e aguarelas, e também desenhos a carvão e grafite, em grande parte criados no campo, e também um diário desenhado no atelier em Lisboa.

Graça Morais, 61 anos, licenciada em pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, nasceu em Vieiro, Trás-os-Monstes. Divide o seu trabalho entre aquela região e a capital, onde possui outro atelier.

Nesta exposição, intitulada "A Máscara e o Tempo", "há um regresso ao campo, que não é de todo nostálgico, é o contrário. - afirma - É partir desse espaço que faço uma reflexão sobre o mundo que me cerca".

As obras mostram rostos, tubérculos, bichos, nos quais se revela "uma metamorfose do tempo".

Por detrás destas pinturas e desenhos da artista há emoções fortes: "Pintei muito no campo, e apercebi-me do abandono, da desertificação, do envelhecimento das populações. Tudo isso me angustia imenso", confessa.

"Toda a minha pintura tem muito a ver com o lugar", resumiu a pintora e ceramista, que já ilustrou livros de José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga, entre outros escritores.

"O que faço é uma representação figurativa, mas que resulta de emoções e estados de consciência, em relação a um espaço e a pessoas que observo no dia a dia", apontou.

Prefere trabalhar com carvão e pastel "porque há uma relação muito forte e imediata" com estes materiais.

"Consigo exprimir-me com mais rapidez, o que me agrada muito mais", comentou a artista, cuja obra está representada em colecções particulares e museus, entre outros, na Assembleia da República, na Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest, Fundação de Serralves e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Brasil.

A exposição "A Máscara do Tempo" inaugura quarta-feira na Galeria Ratton, em Lisboa, pelas 22:00, onde permanecerá até final de Janeiro de 2010.


in Diário de Notícias/Lusa

Citação: Lei da intermitência é assunto urgente

Se Gabriela Canavilhas "aceitou o cargo [de ministra da Cultura] é porque quer trabalhar, dar uma volta à cultura", defende Graça Morais. O carimbo de urgente coloca-o na lei da intermitência. "Os artistas, quando ficam sem trabalho, passam por situações de grandes dificuldades. É preciso, que tal como acontece com outros profissionais, também tenham direito a subsídio de desemprego", afirma. É com optimismo que refere uma reunião com José Sócrates em que o primeiro-ministro prometeu dar mais apoio à cultura nesta legislatura do que na anterior.

in Diário de Notícias



Graça Morais inaugura hoje 'A Máscara e o Tempo'


Assim que se entra no número 2C da Rua da Academia das Ciências, em Lisboa, é-se transportado para o universo de Graça Morais. Uma cabra no meio do campo, a sépia, "sentada, à espera com todo o tempo do mundo", explica a pintora, dá início à mais recente exposição da pintora, que hoje se inaugura, às 22.00, na Galeria Ratton.

por MARINA MARQUES

A escolha não foi feita ao acaso. "Uma cabra ou um rebanho é uma das imagens mais bonitas que vejo quando ando a passear", revela a artista. E representa ainda outra realidade que a artista coloca em evidência no conjunto dos 42 trabalhos da exposição, todos realizados este ano: "uma grande reflexão sobre o tempo longo e lento do campo", nas palavras da própria Graça Morais, "um universo contrário à cidade, ao tempo da cidade".

Na segunda sala, uma série de desenhos a carvão revela a metamorfose provocada pelo tempo, "tanto nas pessoas como nas batatas". A pintora explica o porquê desta metáfora: "Faço uma grande analogia entre as batatas, quando começam a grelar e as deitam fora, e as pessoas quando começam a envelhecer, e que aparentemente deixam de ser úteis. Mas tal como eu recupero as batatas, enrugadas e greladas - são as minhas naturezas vivas -, também as pessoas têm outra vida, podem ser 'usadas' de outra maneira".

Na terceira sala, destaque para um diário com sete desenhos, feitos no mesmo dia, "onde estão registados as horas e os minutos em que foram feitos", refere. E os textos, alerta, nada têm a ver com os desenhos. "São sentimentos muito rápidos do que sinto naquele momento, por vezes até com raiva", diz.

Apesar do carácter autobiográfico dos diários e de representarem uma grande exposição perante o público, Graça Morais deixa a promessa de um dia fazer uma mostra só com diários. "Acho que o artista tem a sorte de se poder exprimir livremente e ao mesmo tempo comunicar com as outras pessoas. Quando faço estes desenhos não os posso guardar em pastas, preciso de os mostrar, porque tenho imenso prazer em que haja muitas pessoas a vê-los, gostem ou não", afirma.

Enquanto a prometida exposição não chega, alguns desses diários podem ser vistos no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, de onde é natural. Esta ligação ao centro não a deixou pintar tanto como gostaria durante o último ano, mas a artista considera que "está a ser muito compensadora". "É a grande oportunidade que me deram de ser útil à sociedade e de dar àquela região aquilo que dela recebi em termos de valores, como pessoa", diz.

A exposição pode ser visitada até 31 de Janeiro, de segunda a sexta, das 10.00 às 13.00 e das 15.00 às 19.30.

in Diário de Notícias


Nome de Graça Morais atribuído a centro de arte

por Ana Marques Gastão

Património. O edifício foi desenhado por Souto Moura e albergará, durante dez anos, a colecção de Graça Morais. Dois núcleos contemporâneos serão dedicados a exposições temporárias, programadas por Serralves. Com este Centro, a pintora quer renovar a auto-estima dos transmontanos

A iniciativa é da Câmara Municipal de Bragança

Chama-se Centro de Arte Contemporânea Graça Morais e inaugura-se, na Rua Abílio Bessa, lá para a Praça da Sé, em Bragança, no fim de Junho, princípio de Julho. O projecto arquitectónico é de Souto Moura que a pintora considera de "grande qualidade" e liga três corpos no lugar onde se alojava o Banco de Portugal.

A Câmara Municipal de Bragança, dirigida por Jorge Nunes - de quem partiu a ideia do Centro de Arte Contemporânea -, decidiu, por unanimidade, já o projecto ia na fase final, em Fevereiro de 2007, atribuir à casa o nome da pintora que, nesta cidade, fez o liceu, entre os 13 e os 15 anos.

O primeiro corpo, constituído pelo antigo Solar dos Sá Vargas recuperado - construção de tipo setecentista -, destina-se à colecção permanente; o segundo e o terceiro serão integrados por mostras temporárias programadas pelo Museu de Serralves.

Propósito: fomentar o pólo de intercâmbio cultural entre Portugal e Espanha, já que Bragança e Zamora são cidades geminadas. Fica, portanto, enquadrada a ligação entre o Museu Baltasar Lobo, na cidade espanhola, cuja reformulação arquitectónica está a ser levada a cabo por Rafael Moneo - autor do projecto do Museu do Prado - e o Centro de Arte.

Segundo o protocolo, a colecção de Graça Morais (1982-2005) ficará em exposição durante dez anos e irá sendo renovada parcialmente de tempos a tempos. Nem tudo o que se expõe foi doado pela artista (ler caixa): há quadros em comodato que pertencem às séries Mapas e o Espírito de Oliveira, O Sagrado e o Profano, As Metamorfoses e ao núcleo de Sines.

Delmina e Maria são as guardiãs do Centro e ficarão expostas em permanência na primeira sala junto ao retrato da pintora, de Eduardo Gageiro. São anjos da terra que falam do diálogo entre as terras de Trás-os-Montes e as gentes de sombras e de água que contam histórias dos buracos da dor e da cor do júbilo. Retratos de mulheres de violências, mel e frutos que abraçam o mistério do tempo.

Colecção em sete salas

Sete salas acolherão a colecção de Graça Morais - a montagem dos quadros, bem como o texto do livro sobre a obra são de João Fernandes -, sendo que os núcleos mais contemporâneos contarão com a programação de Serralves. À abertura do Centro de Arte Graça Morais, inaugurar-se-á uma instalação de Gerardo Burmester que integrou o Grupo Puzzle de que a pintora foi uma das fundadoras.

Diz a artista que gostaria de fazer participar no projecto comunidades de artistas (ficcionistas, poetas, músicos, arquitectos, homens da ciência) que não só têm a ver com o seu trabalho, mas que admira. Para isso, esporadicamente, retirará o seu trabalho de duas salas para as abrir a um criador, jovem ou consagrado: "Creio que esta será uma forma de ganhar públicos e de atrair os mais novos da região que fica agora mais enriquecida."

Comunidade de artistas

"Tive o privilégio de trabalhar com autores que admiro muito, José Saramago, Sophia, Agustina, Pedro Tamen, Nuno Júdice...Tenciono, por isso, realizar pequenas exposições em que valorizarei a faceta da co-autoria na minha obra ou no domínio do teatro", salienta, acrescentando que criou "cenários para Os Biombos, de Genet (Teatro Experimental de Cascais), Ricardo II , de Shakespeare (Teatro D. Maria II). Ambas as peças foram encenadas por Carlos Avilez."

Conta Graça Morais que não lhe custou organizar esta colecção porque, ao longo do tempo, foi guardando quadros, ou porque não foram comprados ou porque se tratava de séries que só permitiu que fossem vendidas em bloco: "Não as quis vender a retalho. Não são objectos comerciais, têm uma unidade interior e uma pesquisa profunda que não podiam ser fragmentadas. Então pedi ao Manuel de Brito para vender ou todas as telas do conjunto ou nenhuma."

A colecção de Graça Morais nasceu nas terras de Trás-os-Montes e para lá voltará. Partiu de uma realidade de gente de sentir e pensamento na pedra que transfigurou na sua relação com o sagrado, a morte e a natureza: "Vou disponibilizar-me para fazer visitas guiadas a jovens que precisam de apoio. Gostava que este Centro servisse para melhorar a auto-estima dos transmontanos!", concluiu.

Diário de Notícias 09.06.08
Imagens Arquivo Pintora Graça Morais