Mostrar mensagens com a etiqueta Livro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livro. Mostrar todas as mensagens

Diário com Perdiz no Colóquio de Letras


Colóquio de Letras, número 172 Setembro/Dezembro 2009,
Revista quadrimensal
Edição Fundação Calouste Gulbenkian
Direcção Nuno Júdice
Capa e Imagens de Graça Morais


Algumas imagens do Diário com Perdiz, 2006
Desenhos a tinta-da-china e sépia
Colecção António Tabucchi e Maria José de Lancastre






Encontro com Graça Morais marca regresso de Agustina


Agostinho Santos e Sérgio Almeida

Do "feliz encontro" entre dois dos nomes maiores da cultura portuguesa, nasceu "As metamorfoses", projecto das Publicações Dom Quixote em que o confronto dos universos artísticos de Agustina Bessa-Luís e Graça Morais dá origem a um livro assolado tanto pelo tom confessional como pelo desnudamento do singular processo criativo das duas artistas.

A admiração mútua entre ambas já tornara há muito assente a decisão de um projecto conjunto, mas só à terceira tentativa (ler entrevista a Graça Morais AQUI) o desejo se tornou real. E logo de um modo tão intenso que se torna difícil discernir com exactidão quem influenciou quem se é certo que foi a partir dos esboços de vários desenhos da artista plástica que a romancista lançou o repto, não deixa de ser também verdade que, para Agustina, quaisquer pretextos são válidos para as reflexões agudas sobre a natureza humana que caracterizam a sua escrita.

É o que acontece nesta espécie de 'contaminação' mútua, onde "As metamorfoses" a que o título alude se manifestam sob a forma de um regresso às personagens mais emblemáticas dos romances da autora de "A alma dos ricos". Mas não só. Nas 115 páginas, há também incursões pela obra de Ovídio e evocações frequentes a Musil, Maeterlinck, Emily Brontë e Flaubert, afinal, a própria genealogia literária da escritora que celebrou há pouco mais de um mês o 85.º aniversário."Peregrinação" literária

Na "peregrinação" que faz pelos seus livros, como define logo no prefácio, escrito em Novembro de 2005, Agustina conclui que todos os seres "estão continuamente sujeitos a metamorfoses", as quais mais não são, em última instância, do que "o próprio instrumento da realidade".

Se "as personagens dum livro são como cristais de gelo prontos a assumir diversas formas", apesar da crítica as "fossilizar", há na sua criação, todavia, como afiança Agustina, um esforço grande de síntese e de anulação das contradições, pese embora "o indivíduo não contenha apenas o duplo mas muitos outros que reclamam a sua identidade desde o mais profundo do seu ser".

Os célebres aforismos agustinianos - "Para envelhecer duma maneira feliz é preciso desinibir-se e alhear-se de qualquer actividade", sentencia - não estão ausentes de um livro que contribui para um conhecimento mais profundo do processo de criação literária da autora. "Imagino-me como uma lebre num prado, quando escrevo os meus livros. Deixo um sulco no chão molhado de orvalho e os galgos correm atrás de mim. Forçosamente tive uma experiência dessas. Eu punha os pulmões e o coração ao comando do cérebro e só me interessava sobreviver tendo no meu encalço o ganido surdo dos cães e as vozes dos caçadores", confessa.

Enferma há longos meses, Agustina não irá estar presente hoje, às 19 horas, no Café Guarany (Porto), na sessão de lançamento dirigida por Inês Pedrosa - far-se-á representar pelo marido e pela filha -, mas é a própria autora que expressa no prefácio do livro, escrito em Setembro de 2005, a emoção por ver concretizado o projecto "Este feliz encontro com a Graça Morais merece bem o título de "Maneiras de aer". Somos uma só identidade em múltiplas formas de conhecer o vasto mundo e os seus milagres (...) Somos como irmãs que se desvelam a honrar a mãe Terra, eterna não diremos, mas preparada por nossas mãos a empreender o voo, um dia, para outro lugar no espaço".



A metamorfose criativa das mulheres-gafanhoto

Desta vez, as mulheres, as deusas de Graça Morais, foram metamorfoseadas. Desapareceram aqueles rostos rugosos pelo tempo, as mãos finas e corpos esguios, dando lugar a um universo de personagens inventadas, misto mulheres/gafanhotos.

Um dia, o bicharoco foi morto pelo gato da filha de Graça Morais, que o levou para o interior do ateliê. Aí a pintora reparou na beleza estética do animal e conservou-o num frasco, onde posteriormente se lhe juntaram mais dois ou três. A partir daí, surgiram, então, as pinturas de gafanhotos e logo de seguida a metamorfose com a mulher.


São cerca de 50 pinturas (aguarela, acrílico e carvão) concebidas pela pintora que, uma vez mais, evidencia a firmeza e o rigor do traço, juntando-lhes a força da cor.

Este conjunto de obras permite-nos assistir a uma viagem ao interior de um corpo metamorfoseado onde são facultadas as principais fases da mudança. Ou seja, a pintora começa por nos mostrar a separação antes da união e, depois de consumada, apresenta-nos uma série de trabalhos que consolida a metamorfose entre a mulher e o gafanhoto.


As Metamorfoses

"Este feliz encontro com Graça Morais merece bem o título de Maneiras de ser. Somos uma só identidade em múltiplas formas de conhecer o vasto mundo e os seus milagres.(...) Como Carolina e Alberta, somos como irmãs que se desvelam a honrar a mãe Terra, eterna não diremos, mas preparada por nossas mãos a empreender o voo, um dia, para outro lugar no espaço."
Agustina Bessa-Luís
Porto, 12 de Novembro 2005

E assim nasceu um livro ...

As Metarmofoses - um livro a duas mãos de Agustina Bessa-Luís e Graça Morais - é um projecto, nascido de outro...que não foi avante. Esse outro visava assinalar o cinquentenário da 1ªedição de A Sibila (1954) , e foi a própria Agustina a contactar Graça Morais, convidando-a a ilustrar a nova edição.

Graça ficou encantada "Eu, em miúda, conhecera várias sibilas como as que Agustina descreve e, quando li o romance pela primeira vez, era ainda adolescente, escrevi-lhe uma carta, e ela respondeu-me!"
A edição comemorativa de A Sibila era para sair em 2004, mas, por falta de entendimento com a editora (a Guimarães),o projecto gorou-se. Inconformada, Agustina disse então à Graça (segundo esta revelou ao JL): "Ainda havemos de fazer um livro juntas."

E fizeram, este que hoje, 11 de Dezembro, no Porto, no Café Guarani (decorado com quadros de Graça Morais), será apresentado por Inês Pedrosa. Dado o seu estado de saúde, Agustina não estará presente, devendo o marido, Alberto Luís, ou a filha, Mónica Baldaque, representá-la.


Para este novo projecto, a iniciativa partiu d
e Graça Morais, que, um dia,já em 2005, passou pelo Porto, foi visitar Agustina e mostrou-lhe uma série de desenhos seus, todos de figuras femininas transformadas - ou metamorfoseadas - em gafanhotos. Agustina gostou e, logo ali, decidiu escrever um livro sobre metamorfoses. Por outras palavras, um livro sobre algumas das personagens femininas dos seus romances, e Graça o que fez depois foi - como nos diz - «casá-las» com as , próprias mulheres dos seus quadros e dos seus desenhos.


O livro (que esteve parado na Dom Quixote quase dois anos) é isto, e a sua centena de páginas abre com uma intro­dução da própria Agustina, na qual ela explica o encontro com Graça Morais. Um encontro que Graça muito preza, antes de mais porque a romancista revela nos seus livros situações que a pintora conhece bem, de - como nos diz - as ter vivido. Para além disto, há a profunda admiração que nutre por Agustina: «É uma mulher que escreve muito bem. Aqueles olhinhos vêem-nos por dentro e ao país; ela detecta-nos com imensa perspicácia. É uma sábia.»

Por isso, partilhar As Metamorfoses com Agustina é, para Graça Morais, «um prazer e uma honra». E Agustina, como se sente face a este seu novo livro? Graça responde: «Da última vez que falámos, há menos de um mês, ela estava muito contente; feliz.»


Lançamento: Metamorfoses junta textos de Agustina Bessa-Luís e desenhos de Graça Morais. Obra será apresentada hoje no Porto, às 19 horas. Cafè Guarany Av. dos Aliados nº89/85 400 Porto

Texto retirado do JL Nº969

Orpheu e Eurydice









Orpheu e Eurydice

Tudo aconteceu em 22 de Abril de 1990. Os desenhos que aqui se apresentam foram os primeiros que pintei no ateliê da Costa do Castelo, usando o papel de música em que o Pedro [Caldeira Cabral] trabalha. (...)
Um dia, mostrei-os à Sophia. Disse-me logo tê-los achado lindíssimos. E propôs-me fazermos um livro com os desenhos e poemas. (...)
Sophia considerou, desde o início, os poemas inspiradores e eu fiquei naturalmente entusiasmada com a ideia. E essa foi a melhor oportunidade para reforçar a nossa amizade. Passamos vários serões, em noites sucessivas, a escolher os poemas e a ligá-los aos desenhos. Sophia aproveitou muitos poemas que já tinha e escreveu outros especialmente, mas nunca estava satisfeita com o resultado, por isso reviu e alterou-os incansavelmente, decerto embalada pela inspiração de Orpheu e Eurydice. (...)
A poesia e a música, que eram tudo para Sophia, estão aqui bem presentes – e eu devo ao Pedro o ter-me feito descobrir esse mundo dos sons e dos
instrumentos, que procurei transpor para os desenhos, simbolicamente feitos em pauta musical. E foi essa familiaridade com a música e a poesia que reforçou a devoção, não é de mais repetir, que tenho por Sophia. Orpheu e Eurydice acompanharam-nos neste nosso encontro inesquecível que se transformou numa grande amizade..."
in catálogo “Orpheu e Eurydice”, Sophia de Mello Breyner Andresen / Graça Morais, excerto de texto de Graça Morais "História de uma devoção", Ed. Centro Nacional de Cultura, Maio 2006


Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei.

Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Escritos de Eva: Sophia de Mello Breyner Andresen # O Anjo de Timor

Sophia de Mello Breyner Andresen # O Anjo de Timor

4 de março de 2007

Há muitos, muitos anos, em Timor, vivia um liurai muito poderoso e muito bom. Na sua juventude resolveu ir correr mundo, para se tornar mais sábio.
Foi viajando de barco, de ilha em ilha, até chegar a uma terra muito distante.
Ali, um dia, conheceu um mercador vindo de muito longe, dos países do lado do Poente e que, também ele, andava há longos anos no caminho.
Esse mercador disse-lhe que, numa das suas viagens, tinha ouvido contar que, ainda muito mais longe, para além de montanhas, oceanos e dos imensos desertos de areia, vivia um povo que adorava um Deus único e todo-poderoso, criador do Universo e de todas as suas criaturas. E esse povo acreditava que o seu Deus, um dia, desceria à terra para salvar todos os homens.
- Quero ir ao país onde mora esse povo, disse o timorense.
Quero ouvir mais notícias do Deus que um dia viverá entre nós.
- Ai, é impossível, respondeu o mercador. Esse país fica tão longe que mesmo se viajasses a tua vida inteira não conseguirias lá chegar.
.................................................
- Já vi tantos lugares e tantos povos, mas não posso encontrar o povo que adora o Deus único, porque mesmo que viajasse a vida inteira não conseguiria lá chegar. Por isso, de que me serve viajar mais?
E voltou para a sua terra.
...............................................
E enquanto dormia, ouviu em sonhos uma voz que lhe disse que esperasse, esperasse sempre, pois um dia, a meio da noite, Deus lhe mandaria um sinal.
..............................................
Daí em diante, foi sempre assim. ... quando todos tinham adormecido, sentava-se de novo sozinho, à porta da sua casa, à espera de um sinal de Deus. ... ia envelhecendo, mas todas as noites se sentava à entrada da sua casa, à espera do sinal de Deus. Poisava sempre ao seu lado a pequena caixa de sândalo onde estavam guardadas as pedrinhas com as quais na sua infância jogava o hanacaleic.
...........................................
E o jovem disse:
- Sou o Anjo de Timor. Alegra-te, liurai, porque o Deus que tanto tens esperado se fez homem e desceu hoje à terra. ... Gaspar traz uma caixa com oiro. Melchior uma caixa com mirra e Baltasar uma caixa com incenso.
- Quero ir com eles, exclamou o chefe timorense.
- É impossível. Belém fica tão longe que nem que caminhasses a tua vida inteira lá chegarias.
- Então, Anjo, tu que és mais rápido que o pensamento, leva o meu presente ao Menino. É uma caixa de sândalo que tem lá dentro as pedras com que eu brincava ao caleic quando era pequeno. O Anjo tomou a caixa nas mãos e disse:
- Ainda bem que te lembraste de Lhe mandar um brinquedo.
...........................................
Este Natal, de novo, o Anjo de Timor se ajoelhou e ofereceu uma vez mais a caixa de sândalo e as pedras do caleic:
- Menino Deus, Príncipe da Paz, Deus todo Poderoso, lembra-Te do povo de Timor que por Ti foi confiado à minha guarda. Vê como não cessam de Te invocar, mesmo no meio do massacre. Senhor, libertai-os do seu cativeiro, dai-lhes a paz, a justiça, a liberdade. Dai-lhes a plenitude da Vossa graça.
Glória a Ti, Senhor!




in "O Anjo de Timor"
de Sophia de Mello Breyner Andresen
ilustrações de Graça Morais

retirado de Escritos de Eva


Terra Quente O Fim do Milénio


Terra Quente O Fim do Milénio
Edição/reimpressão: 2000
Páginas: 190
Editora: Gótica
ISBN: 9789727920037
Textos do jornalista António Carlos Carvalho
Pinturas de Graça Morais
Fotografias de Roberto Santandreu