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"O Rosto do Medo" é a mais recente exposição de Graça Morais





Extracto de As Horas Extraordinárias com Teresa Nicolau, 19 de Maio 2016.
A nova exposição da pintora está patente na Galeria Ratton, em Lisboa, até 29 Julho.
A pintora Graça Morais questiona o destino do planeta perante as imagens de caos e desumanidade.


Filmado a partir da Galeria Ratton, onde estão expostas as obras de Graça Morais, exposição intitulada o Rosto do Medo, até 29 de Julho
19 Maio 2016, RTP


Graça Morais: "Pinto com o coração na mão e na cabeça"


Graça Morais | Jorge Amaral/Global Imagens

Entrevista por Mariana Pereira

"O Rosto do Medo", que inaugura hoje na galeria Ratton, mostra as figuras dos nossos dias a caírem e a levantarem-se. A gente comum, os que a crise abalou, os refugiados, as mulheres maltratadas

Onde começa uma exposição como O Rosto do Medo? Com um desenho, uma ideia, uma fixação?

Comecei a fazer estes desenhos, os mais pequenos, no verão de 2015. Fi-los porque estava a precisar muito de os fazer. Foi uma altura em que eu estava a viver uma situação muito difícil, estava com pessoas muito perto de mim, familiares, muito doentes; e ao mesmo tempo via e lia todos os dias notícias sobre os refugiados. Houve um conjunto de situações que me angustiaram muito. Tive necessidade de as escrever, de as desenhar, e sobretudo de as pintar.

Encontrou uma afinidade maior entre estas situações tão díspares: acompanhar alguém doente, e ter de deixar tudo para trás?

Eu acho que o sofrimento pessoal torna-se num sofrimento universal quando estamos em sintonia com o que se passa à nossa volta. Estes não são desenhos ilustrativos, mas são imagens de rostos em sofrimento, de angústia, e alguns de verdadeiro medo. Quando estamos a viver situações muito dolorosas entendemos melhor a situação de outros seres humanos. Quando as coisas todas correm bem, às vezes tornamo-nos egoístas. Às vezes tendemos a tapar a cara e não ver.

Como naqueles seus dois quadros em que a mulher tapa metade da cara com a mão.

Quando nós temos consciência das situações, ainda só tapamos metade da cara. Quando estou em casa, a ver o telejornal, acontece-me estar a comer, parar e dizer: "Que horror, a que é que estou a assistir?" Mas tornamo-nos insensíveis e continuamos a comer. Essa imagem de tapar só meia cara é a imagem de ver com um olho e com o outro esquecer o que se está a ver.

No momento de pintar não há mãos a tapar?

Não. O momento de pintar é de grande lucidez e de grande relação com o mistério. Isto é o meu testemunho durante os últimos meses do ano passado, e deste ano. O país estava a viver uma austeridade terrível. Todos nós sofremos. O que eu sentia era que à minha volta havia uma tristeza colectiva. Neste momento, felizmente, acho que estamos a viver um período de maior optimismo, maior esperança.

Estes quadros parecem trazer ainda a violência que provoca o sofrimento ou o medo. É assim?

Sobretudo a violência naquelas figuras de mulheres. No ano passado, abríamos os jornais, as televisões, e houve um período trágico, muitas mulheres no nosso país foram maltratadas e assassinadas.

Há ali uma mulher de cabeça baixa, com asas.

Sim, que está a chorar. Os anjos também choram. Nós vivemos rodeados de pessoas que são anjos e outras que são verdadeiros diabos.

As mãos vermelhas num dos quadros são de vítima ou de agressor?

Aquelas mãos são mãos de uma vítima. Nem tudo aparece de forma consciente. Quando desenho ou pinto obedeço a uma necessidade muito forte, mas não sei explicar tudo o que faço.

Estas figuras vêm-lhe do que viu em Trás os Montes, ao crescer?

Estas três figuras que estão ali são mulheres do mundo rural. E são mulheres que, ao longo da minha vida - e agora começo a ter quase a idade delas -, viveram uma vida com uma grande resignação, mas também com um grande sofrimento. O modelo de virtude delas era a figura da Mater Dolorosa, a mãe de Jesus. São mulheres muito pacificadas, não revoltadas.

Via-as na rua e sabia o que se passava nas suas casas?

Vi-as na rua e na luta que elas faziam. A grande concentração dos sentimentos delas é em relação aos filhos, o prolongamento delas próprias, e pelos filhos elas fazem todos os sacrifícios.

Sendo mulher, como se está, por um lado, com um pé na vida e, por outro, na distância suficiente para representar tudo isso?

Acho que nós, as mulheres, porque somos mães, e sabemos gerar um ser humano, conseguimos estar profundamente ligadas ao universo através de um ser humano, que são os nossos filhos, mas também de outras pessoas que sentimos como se nos pertencessem. Nestas situações de grandes dramas, repare que quem vem muitas vezes para a frente revoltada e a falar é a mulher. As mulheres gritam, são corajosas, os homens são corajosos de outra maneira. Mas a mulher tem o coração junto da boca.

Pinta com o coração na boca?

Pinto com o coração na mão e na cabeça.

E então o que tem a dizer fica dito.

Sim. Não sei explicar por que é que chego a uma altura e digo: Não consigo fazer mais e já fiz o melhor que pude. Parece que é um anjo que me pega na mão e diz: Agora já chega, já acabaste. Quando estou a pintar estou sempre a interrogar-me sobre o que estou a fazer. Há um momento em que a interrogação tem respostas certas.

Está em paz com esta mostra?

Estou. Quando nós fazemos, em consciência, as coisas bem feitas, ou somos úteis, ou fazemos o melhor que podemos, isso dá uma paz muito grande. Tento mostrar que não sou cúmplice em relação a certas situações, que estou atenta. Ao mesmo tempo, é uma necessidade profunda.


in Diário de Notícias, 19 de Maio de 2016

Graça Morais recebe Grande Prémio da Academia de Belas Artes




Entrevista com Helena Esteves, Antena 1, 15 de Outubro 2013

por Helena Esteves/Sandra Henriques

Graça Morais recebe esta terça-feira o Grande Prémio da Academia Nacional de Belas Artes, uma distinção que foi atribuída por unanimidade e serve para destacar toda uma vida dedicada à criação artística. A pintora sublinha que tem dedicado a sua obra ao mundo que está em agitação e aproveita para criticar as políticas do Governo que atacam os mais velhos.

“É uma vergonha que se está a fazer às pessoas mais velhas, porque os mais velhos são os mais indefesos. As pessoas a partir de uma certa idade não podem procurar trabalho em lado nenhum e o que está a acontecer é tão absurdo e dramático que parece um grande pesadelo”, afirma Graça Morais.

A artista de 65 anos destaca a importância de receber o Grande Prémio da Academia Nacional de Belas Artes, que já distinguiu entre outros os pintores Júlio Pomar, Júlio Resende e Maria Keil.

“Vivemos tempos tão difíceis em que o artista é ignorado pela indiferença de poderes, que o deveriam apoiar e valorizar, e existir uma Academia Nacional de Belas Artes constituída por pessoas extraordinárias que está atenta às obras dos artistas intelectuais neste país é uma resposta luminosa a um mundo tão cheio de sombras”.

“Da terra ao mar”, uma antologia de trabalhos da pintora natural de Vieiro, Trás-os-Montes, pode ser vista até ao final de novembro no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança.

RTP, 15 de Outubro 2013


'Na cabeça de Graça Morais está Trás-os-Montes', entrevista por Anabela Mota Ribeiro



“Falo pintando, desenhando. Falo como sei, daquilo que sei, só falo de mim. Quando falo do meu mundo, no fundo estou a falar de mim, não estou a falar de mais ninguém.” Na cabeça de Graça Morais está Trás-os-Montes. Ela e a terra não são uma só. Mas ela não se compreende sem a terra.”

Texto Anabela Mota Ribeiro Fotografia Adriano Miranda

No nordeste transmontano, sem transição, passa-se do calor que faz a fruta amadurecer para o frio das estradas cobertas de geada. É lá que fica o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, desenhado por Eduardo Souto Moura e inaugurado em Junho de 2008. O projecto, em Bragança, é uma forma de regresso à terra, de pertença a um lugar e a um modo de ser. Graça Morais, que vive entre Lisboa e Trás-os-Montes, de certa maneira, nunca saiu de lá. O centro tem em permanência obras suas, além de exposições temporárias (até Janeiro, desenhos de Graça e esculturas de José Rodrigues).
Mas foi no Porto que nos encontrámos para a entrevista. O pretexto era a exposição que pode ser vista até meados de Novembro na Cooperativa Árvore, A Caminhada do Medo, e uma série de desenhos e um painel de azulejos que em breve estará em Mirandela, num centro de hemodiálise, e que por ora está na Galeria Ratton, em Lisboa.
Graça Morais tem o cabelo embranquecido. O corpo ganhou formas redondas. Parece-se cada vez mais com as mulheres que habitam os seus quadros. O traço tem o vigor de quem diz que chega mais rapidamente às coisas pelo desenho.

Fale-me dos seus medos infantis.
Nasci numa aldeia onde não havia electricidade. Na cozinha havia candeias e candeeiros a petróleo; quando íamos para a sala, levávamos o candeeiro a petróleo, quando íamos para o quarto, outro candeeiro. Tudo fazia sombras. O meu avô tinha oito filhos, a minha mãe tinha seis filhos, a família era muito grande, com mais tios que entravam. Os serões eram feitos à lareira, como em quase todas as casas transmontanas, sobretudo nas de lavoura. E contavam sempre histórias terríveis, de lobisomens, de bruxas. Ao mesmo tempo, a guerra, que ainda estava muito presente. Nasci em 1948. A minha mãe casou em 1945. Havia pessoas que falavam da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil de Espanha.

Como é que essas duas guerras chegaram a uma aldeia como o Vieiro?
Penso que eram as notícias da rádio. Lembro-me de termos rádio, o único da aldeia, na casa da minha mãe. Dois ou três amigos do meu pai iam lá para casa ouvir o relato do Porto ao domingo. As pessoas ficam transformadas, berram, bebem. Ainda hoje detesto ouvir relato.

A dois passos da fronteira, a Guerra Civil de Espanha, fratricida, estava mais próxima.
Era mais próxima que a Grande Guerra. Cresci a ouvir o medo da guerra e o medo dos espíritos, das almas do outro mundo. Falava-se muito das dificuldades, da fome. “Este ano foi um ano mau”. “Lá foi o vinho”. “Lá foi o azeite”. Trás-os-Montes é uma região em que se trabalha muito contra a natureza.

Contra a natureza? Toda a sua pintura parece uma exaltação da natureza.
A natureza é muito adversa.

“Natureza Madrasta”, era assim que se dizia?
Isso mesmo. Tínhamos em casa um oratório e quando havia grandes trovoadas, no mês de Junho, que levavam o vinho, os homens que estavam na rua vinham lá para casa rezar. Os homens e as mulheres. Rezavam e choravam na sala de jantar – que quando era criança me parecia uma sala enorme, e que hoje é uma sala normal, com o tecto pintado de azul.
Fica esse sentimento do medo da natureza. Dos lobos. Da escuridão. Ainda hoje não consigo dormir sem uma luzinha, em casa, nos hotéis.

A sua casa, era rica no contexto daquela região?
Não propriamente. Sou filha de uma mulher a quem se pode chamar “a herdeira”. A minha mãe era a filha mais velha de oito irmãos. Foi educada por uma madrinha e por uma tia, e foi herdeira dessa madrinha e dessa tia.

Por que é que não foi educada pelos pais?
O pai vivia ao lado, numa casa enorme. Chamava-se Casa Grande. O meu avô era um lavrador com muitas propriedades, mas ele próprio trabalhava a terra ao lado dos obreiros. Sempre os tratou com cabrito. Dizia-se muitas vezes: “O Pinto estraga os obreiros porque os trata bem demais”. E ele respondia: “Mas quem me faz a casa são eles”. Era republicano, muito generoso.
A mãe da minha mãe foi sempre viva. Mas nas aldeias havia o hábito de as madrinhas, quando não tinham filhos, pedirem um menino para fazer de filho. “Manda-me um dos teus filhos”. Um dos meus irmãos foi criado pelos padrinhos em Freixiel. E a minha mãe foi filha dessa madrinha, e do padrinho, e da tia. A minha mãe vivia numa parte da casa, connosco, e na outra parte vivia o meu avô com os tios. Eu tanto estava na nossa parte da casa como estava na outra parte, cheia de trabalhadores, e de filhos, e netos.

Viveu sempre com uma família alargada.
Muita gente a entrar e a sair. E muitos cães e gatos. Por isso é que gosto tanto de pôr cães nos meus quadros. Eles têm um entendimento do mundo e de nós próprios, só lhes falta falar.

Peço estes pormenores porque tudo isto transparece nos seus quadros. É a matéria-prima essencial a partir da qual constrói a sua obra. Por isso é importante perceber quais são as referências, como é que aprendeu a olhar, o que é que viu quando começou a olhar.
Está a dizer bem. Nem eu me apercebia, nem ninguém se apercebeu, de como a infância foi tão fundamental naquilo que faço. Tive a sorte de nascer naquela pequena aldeia. Havia uma estrada em terra que ia para Vila Flor, que ainda não era bem estrada. Quase ninguém tinha automóvel. Como o isolamento era total, descobri o mundo a brincar nas fragas, nos lameiros, dentro de uma oliveira. E muitas vezes me questionava. Via aquela gente a andar de um lado para o outro. As mulheres pareciam formigas, os homens sempre muito viris. Ao fim do dia, preguiçosos, vêm conversar para a rua. E elas continuam a trabalhar, a fazer a comida.

A indolência nunca é delas?
Nunca, é sempre dos homens. Quando vou à aldeia reparo: quem está sentado a ver passar os carros na estrada, são homens. E falam pouco. As mulheres nunca estão na rua sentadas a olhar, têm sempre que fazer.

As mulheres, falam mais?
É uma particularidade das mulheres, serem mais solidárias e confessarem-se umas às outras. Contam mais as suas preocupações, as suas vidas. Todas se queixam, ninguém está bem. Devem ter razões para se queixar, mas aquilo é uma forma de se consolarem mutuamente. É aquilo que se faz quando se faz terapia de grupo. Nunca fiz, mas calculo. Ali é uma coisa natural.

Nessas conversas não se celebra a vida. O registo é o do consolo. Não há uma exaltação do estar vivo e dos elementos da natureza. Se olhar para a sua obra, há uma fase em que ela é mais exaltada. Depois, vai ficando mais austera, como essas pessoas.
Depende. A série que tenho em exposição [na Cooperativa Árvore] é muito dura. Revela a certeza de que estou num mundo em grande transformação. Esse caos, nunca o senti quando era pequena.
(Sou uma pessoa que vou aqui, vou ali, depois apanhe-me. [riso]) Lembro-me que na Páscoa estreava sempre uns sapatos novos, um vestido novo e um casaquinho novo. Íamos à Missa de Ramos abençoar o ramo da oliveira. Aqui há um quadro com uma árvore que tem uns cabritos pendurados, e os ramos da oliveira cheios de rebuçados, bolacha Maria e goivos, florzinhas; é Páscoa. Vivíamos intensamente esses dias que tinham a ver com a transformação das estações do ano e com a ritualização, sobretudo ligada à religião católica. É uma imagem de inocência e beleza, ver os foguetes da Senhora da Assunção a rebentar. Isto a cinco quilómetros de distância. Guardei esse lado do deslumbramento, do encanto perante a vida.

O seu imaginário é esse. Contudo, saiu relativamente cedo da aldeia, abriu-se para outras imagens.
Saí, com oito anos, acompanhei a minha mãe para África. O meu pai decidiu ir para Moçambique, tinha dificuldade em viver na aldeia. Comecei a ver outro mundo. Comecei a ler banda desenhada, a mascar “chicla”.

Em Trás-os-Montes não se dizia chiclete, mas chicla.
Sim. Havia compotas que vinham da África do Sul, milho cozido nas águas da chuva. Não frequentei a escola oficial, frequentei a escola da missão. A minha mãe era muito católica. Eram umas freiras com chapéus bonitos, engomados, da Ordem de São Vicente de Paulo. Eu, o meu irmão mais velho, que já morreu, o Zeca, e mais meia dúzia de crianças, éramos os únicos a frequentar essa escola. Tenho uma relação com os africanos de irmandade, de amizade. Passavam ao pé da minha casa, a mexerem-se, e chamavam pelo meu nome. Cantavam: “Gracinha-a-a”, com ritmo.

África, a sua cor e exuberância, contrastam com a contenção e o granítico de Trás-os-Montes. Estávamos a falar de elementos opostos e do que transparece disso na sua obra.
Ciclicamente também faço desenhos muito simples. Tenho de estar num estado de grande concentração e de grande paz para fazer estes desenhos. São pequenos ramos de oliveira, são ramos de amendoeira, são ramos de marmeleiro. Tenho um marmeleiro.

Fez recentemente desenhos de papoilas e cerejas que estão em exposição na galeria Ratton, em Lisboa.
Fui lá passar um mês, e o campo estava cheio de malmequeres, de cerejeiras. Essa celebração da natureza, tenho-a dentro de mim, e preciso de passá-la para o papel.

Fale-me da família do seu pai. O seu universo parecer ser mais dominado pelas mulheres do que pelos homens, ainda que eles apareçam, também.
Falo mais da minha mãe porque vivi mais com ela. Continua viva, tem 86 anos, é uma mulher de uma grande inteligência, humanidade e força. Sempre cresci rodeada da minha mãe e das suas seis irmãs.

Como é que se chamavam os irmãos? Os nomes eram diferentes dos que hoje se usam.
A minha mãe é Alda. Palmira, Belmira, Maria, Joana, Favelina, Carolino, João. Belmira não se usa, Palmira não se usa, Favelina, ainda menos.

A sua filha é Joana. Que é um nome mais deste tempo, e mais citadino.
É muito da geração dela, nasceu cinco dias antes do 25 de Abril. Gostava, e gosto, imenso dessa tia Joana, muito alegre. Era o contrário das outras.

Aqui ao lado estão a pôr a mesa para um almoço, ouve-se o barulho dos pratos. Numa casa transmontana, o silêncio é uma coisa que não existe. Há sempre um barulho de fundo, conversas, pessoas a ir e vir. Isto acabou por ser substituído pela televisão.
Durante o dia. As noites eram calmíssimas. Por isso é que às vezes até metia medo. Quando se ouvia o piar da grifa, a coruja, diziam: “Alguém vai morrer, anda a grifa no ar”. Mas é verdade, essa animação da família. E tudo fala muito alto, até para se fazerem ouvir. Cada um está a contar a sua história, a sobrepor-se, muitas vezes não está a ouvir o que o outro está a dizer. Há uma grande necessidade de contar, contar. Quando havia muita confusão, desaparecia. Ia para um sítio ao pé do cemitério (mas não era por ser o cemitério, nunca gostei de cemitérios, tenho medo da morte). Havia ali uma eira que estava cheia de palheiros, tinham uma forma bonita. Mais tarde fui encontrar esses palheiros no Van Gogh. Adorei Van Gogh através dos palheiros, através dos Comedores de Batata.

Que é um quadro com gente do campo, que, como diz o título, come batata.
Sempre vi na minha casa as pessoas comerem de um prato grande as batatas, os feijões, com garfos de ferro, e todos picavam naquele prato grande. Recentemente, quando fui à Holanda, voltei a ver os Comedores de Batatas, e tive uma emoção fortíssima: era Trás-os-Montes. É claro que nos holandeses essa cena foi antes do que vi na minha aldeia.
Mas fugia para esse lugar, e hoje, muita da minha pintura tem a ver com esse momento de pacificação da natureza e das pessoas, o fim do dia. Parece que estou a fazer a apologia do camponês pobre, mas não é. Aquele trabalho era feito com muita dureza mas também com muito amor. Aquelas caras começaram a aparecer na minha pintura. Não a dos homens.

Porquê?
Nunca me aproximei muito dos homens porque fui educada a não poder brincar com os rapazes. Apesar de ter quatro irmãos, eles próprios não queriam que brincasse com os outros rapazes.

Eles também não iam para a cozinha.
Nunca, nem faziam uma cama, nem pegavam numa vassoura. Podiam às vezes ajudar no campo. Mas eu tinha obrigações específicas, de ajudar na limpeza.

Os homens viviam sob uma outra campânula.
Nós é que vivíamos. Estou a referir-me a uma infância, quando tinha que obedecer a certas regras. Quando comecei a crescer e voltei à aldeia, aproximava-me daqueles homens que estavam na rua com verdadeiro pudor. E com as mulheres, não. Sempre ouvi as mulheres falarem abertamente. Abertamente, não… Em África as mulheres falam abertamente.

A líbido está mais à flor da pele em África.
Completamente. Quando andei na escola, em Moçambique, também não me apercebia disso. Mas as crianças cantavam muito, dançavam, riam-se com facilidade. Nós éramos crianças um pouco tristes, sempre com medo que a professora ralhasse. Quando voltei a África e a Cabo Verde, senti que as mulheres assumem a sua sexualidade com muita leveza, muita alegria.

Naturalidade.
Sim. Em Cabo Verde tinha 40 anos. Já me tinha divorciado. Mas em Trás-os-Montes, ainda hoje, as mulheres são muito reservadas, o mundo delas é muito escondido.

Nunca falou com a sua mãe sobre sexo?
Não. Ela não gostaria que eu falasse. O meu pai era muito mulherengo. Foi durante muito tempo filho único, teve um meio-irmão. Nasceu numa família de proprietários, gente instruída. Foi educado pela mãe e por uma avó, uma senhora severa, Ernestina Augusta, e pelo tio Carlos e pela tia Amélia, que eram professores primários. Monárquicos.

Esses nomes já nos dizem da sua veia monárquica.
Havia a bandeira da monarquia. Eu e o meu irmão Cristiano, quando queríamos brincar, pegávamos na bandeira, que púnhamos no terraço. Era uma casa onde havia livros, onde as pessoas eram tratadas por vossa excelência. O meu pai também era tratado por vossa excelência.

Quem é que tratava o seu pai assim?
As pessoas da aldeia. A minha família está naquela aldeia desde o século XVI. Quando ia passar férias a Freixiel, a casa da minha tia Amélia, com o meu irmão Cristiano, que foi o irmão emprestado para os tios (adoptaram-no como filho, foi o herdeiro deles), gostava imenso porque havia muitos livros. O que me custava era que aquele portão de ferro verde estava fechado e não podia sair para a rua sem pedir licença. No Vieiro, a nossa casa, que ainda hoje está no mesmo sítio, ao pé da estrada, era uma casa que tinha a porta aberta todo o dia.
A escola era logo a dois passos. A escola que agora estamos a restaurar, com a câmara, que vai ser outra coisa. Dessa escolinha via a minha mãe e era tudo livre. Nunca ninguém me meteu medo, nem a mim nem aos meus irmãos. Podia haver pedófilos, mas não se falava disso.

O medo era dos lobos.
Era. O meu tio Carlos dizia: “O meu sobrinho não precisa estudar porque vai herdar muitas terras, ele tem é de tratar das terras”. Andar com mulheres fazia parte do estatuto dos meninos dessas famílias. Foi toda a vida uma pessoa desajustada. Era um homem sensível, tocava bem guitarra, mas sempre com necessidade de experimentar novos mundos.

Os seus pais, lembra-se de os ver a ler, a ver livros de pintura?
Nunca. Não havia livros de pintura, nem na casa dos meus pais. No entanto, o meu tio Carlos, que era um homem elegante, andava sempre com fatos impecáveis, ele e a tia Amélia mandavam vir do Porto, de uma loja de sementes do Bolhão, várias sementes. O prazer deles era ver como é que aquelas flores desabrochavam. Chamavam: “Gracinha, anda ver, olha como são bonitas estas flores”. Na casa paterna, havia paredes pintadas por esse tio Carlos, que era muito habilidoso, flores; e tinha uns quadros pintados a óleo, coisas muito simples.

Paredes pintadas como se fossem frescos?
Sim. Ele podia ter sido um pintor, mas foi professor e tratou das propriedades.

Se pensar o mais remotamente em si e naquilo que condicionou o seu destino, a referência é o tio Carlos? É um estojo de pintura que lhe dão?
Foi tudo muito natural. Comecei por gostar de fazer desenhinhos na escola, mesmo na primeira classe. Lembro-me de a minha professora, a Dona Judite, dizer: “Pede à tua mãe qualquer coisa para desenhar”. Eu ia ao louceiro e tirava um bule, que ainda hoje existe, e que vou ver se a minha mãe me oferece, porque faz parte das minhas lembranças. Era um bule muito complicado e gostava imenso de o desenhar. Começou para aí aos sete anos. O que gostava mais de fazer na escola era desenhar. Quando cheguei a África, as freiras entusiasmaram-me nesse sentido. O meu pai, como percebia que tinha gosto pelo desenho, ofereceu-me uma caixinha de aguarelas, tinha eu nove anos. Pintava tanto que as esburaquei rapidamente.

Foi o começo. O que alimentou o seu desejo de pintar?
Quando voltei de África para a aldeia, fui estudar para o colégio. Comecei a visitar um pequenino museu que há em Vila Flor. A primeira ideia que tenho de ver pinturas foi nesse museu. Por isso é que tenho tanto carinho por aquele centro em Bragança [Centro de Arte Contemporânea Graça Morais]. As escolas estão sensibilizadas, trazem as crianças. Muitas vezes desperta-se a chamada vocação ao ver.
Hoje vejo que são retratos de pessoas que tinham que ser alguém na terra para serem pintadas. Rompi com essa tradição quando comecei a pintar as pessoas simples, pobres, muitas delas, sobretudo anónimas, e as coloquei num museu.

Na história da pintura, as pessoas que ficaram imortalizadas são as nobres que tinham dinheiro para fazer encomendas. Fora a igreja e os temas bíblicos.
Os grandes mecenas eram ricos, eram eles que pagavam. A estas mulheres, consagrei-as.

O que é que a fez gostar tanto destas pessoas simples? O seu percurso social, quer na família da mãe, quer na família do pai, é entre privilegiados. Consagra pessoas que não são as do seu meio.
O meu avô materno é povo. Vivíamos melhor, mas no Vieiro as pessoas eram todas aparentadas, numa aldeia pequenina há sempre um primo. Quando se matavam os vários porcos dividíamos por muita gente que passava mal. Havia gente pobre, paupérrima. A assistência social e a ajuda entre amigos, entre familiares, entre vizinhos, sempre fez parte da vida nestas localidades.

Pense no seu interesse por esses pobres. Chamamos-lhes pobres?, pessoas simples?
Às vezes também são complicadas. Não sei qual é o termo. Também não se pode dizer pobres, a maior parte dessas pessoas tem uma terrinha. Essas mulheres, encontrava-as nos diversos trabalhos das nossas terras, e gostava sempre de estar ao pé delas. Se calhar porque me tratavam bem, porque ouvia imensas histórias. Sempre gostei de me sentar na mesa dos obreiros. Quando estava ao pé deles, não diziam asneiras.

Dizem-se muito, no Norte.
Asneira atrás de asneira. Eles diziam: “Está aqui a menina”. Alguns nem tinham a 4ª classe. Sabiam calar-se quando estavam ao pé de uma criança ou de alguém a quem sentiam que tinham que ter respeito.

Era uma certa reverência em relação à “menina”, porque à frente das suas crianças diziam palavrões. Em Trás-os-Montes não se dizem “palavrões”, dizem-se “asneiras”.
Nunca ouvi a minha mãe dizer uma palavra dessas, mesmo quando estava aborrecida. Eu digo, e com muito prazer. Não esses mais fortes, mas digo. Aprendi no Minho. Dei aulas em Guimarães, e tinha crianças que estavam a pintar e diziam uns palavrões quando as coisas lhes corriam mal. Ficava a pensar: “Chamo à atenção, não chamo?”. Não chamava à atenção porque aquilo era tão espontâneo, era de uma liberdade. A criança dizia aquilo porque ouvia em casa, fazia parte da cultura.

Este lado antropológico é predominante na sua pintura. A crítica Laura Castro, quando se refere à sua obra, subdivide-a em capítulos. Fala da Artista Antropóloga e da Artista como Sibila. Como se houvesse uma revelação e uma adivinhação dos mistérios das pessoas e da natureza, a que chega no desenho.
A que chego mais depressa no desenho. O desenho pode-se fazer com lápis, um carvão. Quando era miúda até com bocadinhos de telha que apanhava na rua desenhava. Com lápis de cor, que molhava para fazer tinta.

Molhava na língua?
Molhava a ponta na língua para fazer tinta. Tenho imensos blocos de papel e material para desenhar. Parece que tenho medo que venha aí a guerra e que não possa comprar papel. Quando vejo a história dos grandes pintores que na altura da Guerra Mundial começaram a pintar sobre papéis de jornais, sobre cartões, fico numa aflição.
No desenho, é como se estivesse a escrever um livro, tomasse notas e escrevesse à mão. É uma pena que para o próximo século não fique a escrita das pessoas – as pessoas já só escrevem no computador; é um registo muito impessoal. Há muitos pintores que já não desenham, já não pintam, todo o trabalho deles é feito através do vídeo, da fotografia e de outros materiais. Ainda desenvolvo estes materiais artesanais. As ideias vêm com rapidez, a relação entre a cabeça e a mão é imediata. É de uma grande concentração. Não há o trabalho de juntar as tintas do pincel, que é outra coisa que obriga a uma reflexão maior.

Reconhece-se quando Laura Castro fala da sibila e a da antropóloga?
O romance A Sibila, li-o adolescente. Conhecia a Sibila da Agustina naquela aldeia. Hoje tenho uma Sibila a trabalhar para mim, uma mulher de 74 anos que me ajuda nas arrumações lá de casa. Não sei se sou sibila. A Laura foi a primeira pessoa que disse isso de mim.

Foi-se transformando nessas mulheres que aparecem nos seus quadros? É como se os quadros fossem formas de auto-retrato.
Estou a falar da minha história. Comecei muito cedo a falar daquele pequeno universo, nem me apercebia de que estava a falar de mim. Todo esse trabalho é autobiográfico, só que aquelas caras não são a minha. De vez em quando aparece a minha mãe.

Há ciclos em que todas as caras vão dar à sua mãe.
Há uma série de desenhos que expus aqui no Porto, na [galeria] 111, só dedicados à minha mãe. Mas a maior parte das vezes não é a minha mãe. É a Maria, que é uma mulher que trabalha lá em casa há muitos anos. Aquela cabeça é Trás-os-Montes dentro dela. É uma mulher solteira, seca, ainda hoje trabalha muito, com um cabelo maravilhoso. Está quase sempre em exposição no Centro de Arte Contemporânea em Bragança, ela e outra, logo à entrada. Oferecei esses dois quadros ao centro.

A sua filha realizou em 1999 o documentário Na Cabeça de Uma Mulher Está a História de Uma Aldeia. Pensei que fosse a sua cabeça, não a cabeça da Maria.
Não, aí sou eu. Fiz uma série de fotografias recentemente à minha mãe. Ela a pentear-se e a enrolar o cabelo, de manhã, é de uma enorme beleza. E fiz uma série de desenhos que tinham a ver com os brincos. Quando se nascia, era um brinquinho com uma bolinha de ouro, a seguir eram brincos cheios de feitios, e depois é o brinco da viúva.

É um brinco preto que tem um pontinho de ouro, ou é simplesmente preto.
É. Tenho que agradecer ao Fernando Azevedo, ao Fernando Pernes e à Sílvia Chicó que foram os críticos de arte a entender bem essa minha pintura. Ao princípio, muitos pintores achavam que aquilo era provincianismo, ou que era um Malhoa. Ao longo da minha vida não abri as portas docemente, tive que as empurrar.

O mais difícil era vir de uma aldeia recôndita e ter que se afirmar num território que não era o seu? Quais é que eram os preconceitos?
Nunca senti que alguém me chamasse provinciana. Sempre gostei muito de roupas bonitas. Ao mesmo tempo que tenho atracção por esse mundo simples, da ruralidade, gosto da sofisticação. Gosto, não de luxos, mas de ter móveis bons em casa. Quando andava no liceu, e nas Belas Artes também, tinha vestidos que era eu que desenhava e pintava. Sempre me senti bem em qualquer meio onde estivesse. Mas ao nível da pintura tive muita reacção, sobretudo de outros pintores.

Dissipou-se, essa reacção?
Ainda tenho. Há uma relação com este país…, há pessoas que não gostam dele, gostavam de ser nova-iorquinas ou alemãs. Sempre vi nos escritores essa dimensão de reflectirem e de contarem o nosso país. Só podia haver um António Lobo Antunes aqui em Portugal. Só podia haver uma Agustina em Portugal, e no norte. E o Saramago. E dizia: “Mas porque é que na pintura não se faz isso?”. E quis fazer. Quis que essa pintura não fosse narrativa nem ilustrativa, mas que se sentisse que tinha a ver com uma cultura – a nossa.

Uma coisa é esse sedimento, a sua história. A outra é a informação, o que lhe cria espanto, maravilhamento, estranheza. O que é que a ajudou a ver melhor e a desenhar melhor?
Para desenhar melhor, é importante ver, mas é sobretudo importante desenhar. Não é possível fazer nada se não trabalharmos muitas horas. A primeira vez que tive um impacto forte com a pintura foi ao ver o Van Gogh, na Holanda. Ver que aquelas imagens tinham matéria, que não eram lisas, que apetecia mexer nelas. Quando vejo os retratos do Rembrandt, não entendo como é que ele consegue fazer aquela luz. Quando vemos os últimos retratos, percebemos que empobreceu, ficou sozinho. Toda a tristeza do envelhecimento está neles.

A tristeza do envelhecimento e do empobrecimento.
Que é um dos meus medos, vir a ser pobre. A pintura tem só a ver com a vida da pessoa.

Nunca foi pobre. Porque é que acha que tem esse fantasma?
Nunca sabemos se estamos a ser bem informados ou bem enganados. E se de repente há uma guerra, se isto vira um caos? Ficamos todos como muitas pessoas que fizeram História e que ficaram sem nada. Assusta-me. Mas do que tenho mais medo é de ficar doente.

Estávamos a falar dos pintores que foram importantes para si. Van Gogh, Rembrandt…
Fiquei muito surpreendida quando vi os primeiros Bacon, na Tate, em Londres. Era qualquer coisa de muito angustiante e de muito novo. O Goya. O Velázquez impressionava-me pela perícia, pela técnica, por aquela beleza, aquelas roupagens. Mas o El Greco foi o meu grande pintor durante muito tempo. Os retratos muito interiorizados, os olhos molhados, aquela espiritualidade que também procuro e sinto.

A religião ocupa um lugar importante na vida de uma aldeia. Não falou ainda disso.
Levei muito a sério, até aos 18 anos, a minha educação católica, a comunhão diária, muitas vezes. Hoje não o faço, não sou praticante. Mas tenho uma necessidade desse encontro com um Ser que não sei explicar bem, mas que encontro muitas vezes quando estou a pintar ou quando estou na natureza. Com 63 anos já se passaram dias muito bons, e grandes aflições e dramas. Ainda hoje estava a passar ao pé da maternidade, e lembrei-me que foi ali que tive um filho, que morreu.

Quer contar o que se passou?
As pessoas que nascem em regiões isoladas como a minha ainda hoje têm problemas quando estão grávidas. Como há poucas grávidas, os hospitais ficam longe – não se justifica. Uma mulher sofre muito quando perde um filho. Mas como o mais importante são as contas, a economia, se uma mulher sofrer porque perde um filho não tem importância nenhuma, é menos um. Quando entrei em trabalho de parto estava na aldeia. Um parto prematuro. Não estava à espera, senão não estaria lá. Vim numa ambulância sem condições durante cinco horas, entre Vila Flor e o Porto. Estive horas em trabalhos para ver se podíamos salvar a criança. O menino nasceu e passado umas horas morreu.
Esse menino, se crescesse, havia de ser mais uma daquelas pessoas que enchem Trás-os-Montes. Até certa altura havia muitos deficientes e aquilo a que se chamava “os malucos”, porque nasciam de partos difíceis, sem assistência. E hoje, não há uma maternidade ali ao lado.

Apesar de tudo, as condições melhoraram. Há estradas.
Há gente que se pergunta o porquê de tantas auto-estradas em Trás-os-Montes se não há lá pessoas; as estradas chegaram tarde demais, já deviam ter sido feitas há 20 anos! Essas pessoas, de certeza que não teriam abandonado as terras, se houvesse outros acessos e outro desenvolvimento. Quando as pessoas em Lisboa falam, alguns políticos e ex-ministros das Finanças, da despesa desnecessária que é fazer estradas em Trás-os-Montes, gostava de saber como era se vivessem lá. Isto revolta-me muito. São traumas a que se sobrevive, mas é uma ferida aberta, quando se perde uma criança que se deseja.

Foi o primeiro ou o segundo filho?
Foi o segundo, a Joana tinha sete anos. Tive este em 1982.

Quanto tempo esteve sem conseguir pintar?
Para aí quatro meses. Não sentia as mãos, não sentia as pernas. Todo o meu corpo ficou alterado. Uma das coisas que mais me custam é que recusei ver o meu filho. Não tinha forças para o ver morto. Pari uma criança e não sei a cara dela. Se os hospitais tivessem psicólogos, de certeza que tinha sido ajudada de outra maneira.

Salvou-se a pintar.
Pode crer. E porque tinha uma filha, que precisava de mim, e que me ajudou muito. Voltei lá para cima, enfrentei. Estava a dar aulas em Vila Flor. Em 1980, quis voltar ao lugar onde nasci, entender. Tive um subsídio da Gulbenkian, o Pedro Tamen era administrador. Só um poeta é que entenderia: “É a primeira vez que me pedem um subsídio para ir pintar para uma aldeia, normalmente dou subsídios para Paris”.

Entretanto já tinha recebido, também da Gulbenkian, uma bolsa que lhe permitiu estar em Paris.
Sim. Vim de Paris com essa coisa, precisava de voltar [à terra]. Não vendia nada, tinha que viver. O subsídio da Gulbenkian proporcionou-me dar aulas com um horário reduzido; o resto do tempo olhava, falava, pensava. Por isso é que saiu essa pintura que depois foi exposta em São Paulo, na Bienal. E aí começou o meu reconhecimento internacional.

Tudo isso acontece no começo da década de 80, que foi um período a todos os níveis fundamental na sua vida.
O melhor e o pior. Muitas vezes, as grandes criações são feitas debaixo de grande sofrimento.

Fale-me do período anterior a isso, 1976/79, em que está em Paris. Em Portugal, era o pós-revolução.
Antes de ir lá para fora, foi também importante fazer parte do Grupo Puzzle, constituído por oito homens e uma mulher, que era eu. Fazíamos pinturas, que eram puzzles, fazíamos performances. Isso só foi possível porque o país era livre, cheio de ideias novas. Coincidiu com os Encontros Internacionais de Arte, que o Egídio Álvaro organizava com o Jaime Isidoro, aqui do Porto, e que trouxe cá artistas muito bons de vários países. Olhavam para Portugal com imensa curiosidade, e até com amizade. Contactei com pessoas especiais, únicas. E depois tive necessidade de sair, de ir para Paris.

O que é que fez com que começasse a ser reconhecida e a vender depois dos anos 80?
O comércio vem não sei bem como. A partir de 83 comecei a expor na Galeria 111. O Manuel de Brito era um grande marchand. Tinha intuição, uma grande sensibilidade, gostava dos pintores com quem trabalhava. Tive uma aceitação da crítica e dos jornalistas. Devo muito ao Assis Pacheco, ao Mega Ferreira. O livro que o Mega escreveu para a Imprensa Nacional foi fundamental. Depois da Bienal de São Paulo tive convites para expor nos melhores lugares do Brasil, e expus no Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Como é que foi olhando para aquilo que faz? Sempre percebeu que tinha um dom (foi uma palavra que já usou)?
Às vezes tenho uma força, parece que explode. Começo a pintar, liberto-me e quero fazer. Se calhar é isso que depois passa, não sei. Há um lado de curiosidade e de entendimento das pessoas. Se calhar gosto muito delas, olho-as com atenção, ouço-as. Acho que isso é um dom que nasceu comigo.

Gostava de lhe pedir que escolhesse, se consegue, um quadro seu, que é aquele que acha que melhor serve de auto-retrato.
Há três quadros que estão em Bragança, quase sempre em exposição, que se chamam O Vieiro, o meu lugar de nascimento. Esses quadros, que expus na Bienal de São Paulo, foram o princípio daquilo que sou hoje como artista. Pintei-os em 1982. Têm uma sobreposição de imagens, de apontamentos da natureza, de pessoas e de bichos. Há uma matança, o lado dramático da matança do animal, que no fundo é a nossa matança também. Esses quadros, guardei-os sempre para mim, não os ofereço nem os vendo a ninguém. São o meu auto-retrato sem a minha cara.

in Pública, revista/suplemento do jornal Público, 13.11.2011, págs.16 a 24

Nota de JM: os meus agradecimentos à jornalista Anabela Mota Ribeiro pela autorização da publicação neste blogue da entrevista.


Notícias inspiram exposição de Graça Morais




A exposição “A Caminhada do Medo”, da conceituada artista plástica Graça Morais, é inspirada pelo sentimento de medo gerado pelos últimos acontecimentos na Europa e no Mundo e vai estar patente até 20 de novembro na Cooperativa da Árvore, no Porto.

in Euronews (PT)

Quand la peinture se plonge dans l’actualité




Dans sa dernière exposition, la peintre portugaise Graça Morais s’inspire de l’actualité. Les évènements qui secouent l’Europe et le reste du monde y sont omniprésents et angoissants.

A découvrir jusqu’au 20 novembre à Porto, au Portugal.

in Euronews (FR)

Artist Graça Morais show: 'The Walk of Fear'




Graça Morais' latest exhibition was inspired by the news. One of the most renowned Portuguese painters, Morais' new display has just opened in Oporto.

in Euronews (EN)

Cartaz das Artes: "2011 - A Caminhada do Medo" - Exposição de Graça Morais


Exposição de Graça Morais na Cooperativa Árvore, no Porto, até 20 Novembro.

"2011 - A Caminhada do Medo", a mais recente exposição de Graça Morais, inaugurou na Cooperativa Árvore, no Porto. A pintora transmontana confessou que quando começou a trabalhar nestes quadros não imaginava a actualidade que viriam a ter. Reportagem de Carla Carvalho.

SIC - Cartaz das Artes, 26.10.201



Entrevista a Graça Morais


Série A caminhada do Medo VII | Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm 2011



Pintura e desenho de Graça Morais cruzam-se na exposição “2011: A Caminhada do Medo”, que é inaugurada esta tarde na Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, no Porto.

Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Alexandre, Graça Morais conta que as obras expostas resultam de um intenso trabalho motivado pelas notícias de crise que são transmitidas diariamente pelos órgãos de comunicação social.

Os desenhos e pinturas reflectem os sentimentos de angústia e preocupação da autora em relação ao presente e ao futuro da Europa e do mundo, contrastando com a anterior série de trabalhos que retratava a natureza de Trás-os-Montes.


Entrevista áudio, Antena 1, 20 0utubro 2011

Graça Morais - Reviver o passado em Algés por Carlos Vaz Marques


A realidade tece-se muitas vezes de fios invisíveis. A exposição de Graça Morais no Centro de Arte Manuel de Brito, em Algés, é um exemplo de que frequentemente as coisas estão mais interligadas do que à partida poderíamos suspeitar. Antes de mais convém explicar que a mostra reúne mais de meia centena de obras da artista transmontana que o galerista Manuel de Brito coleccionou ao longo de mais de duas décadas.  O tempo correspondente à ligação em exclusividade entre Graça Morais e a Galeria 111. Foi «um longo casamento», como refere a pintora, sem que nunca tenha havido a necessidade de assinar papéis. Bastou a palavra dada, entre a artista e o marchand.

A história desta exposição – que estará patente ao público até 19 de Setembro – tem no entanto um recorte mais insólito. O facto de Graça Morais ter vivido em Algés, quando se mudou do norte para a área metropolitana de Lisboa é apenas uma das muitas coincidências a registar. Onde hoje está a colecção de arte de Manuel de Brito, ia a pintora – então professora de educação visual – levar a filha, ainda criança, para as aulas de ballet.

Algés ainda era um lugar triste e suburbano e Graça Morais ainda não conhecia Manuel de Brito, pelo que também ainda não tinha começado o seu trabalho de intermediária entre o marchand e o presidente da Câmara de Oeiras, no sentido de tornar o Palácio Anjos o pólo cultural que ele é hoje. O conhecimento de infância entre Graça e Isaltino veio a dar frutos, portanto.

Talvez tudo tivesse sido mais ou menos o que é sem estes acasos todos. Mas isso é algo que nunca o saberemos. É assim com as coincidências: havemos de ficar eternamente na dúvida quanto ao papel que lhes cabe para que as coisas sejam exactamente como são.

O que não é um acaso, seguramente, é a importância da pintura de Graça Morais nas artes plásticas portuguesas das últimas décadas. Um percurso que está à vista de todos no Palácio Anjos, em Algés, recuperado e dignificado como Centro de Arte Manuel de Brito.


Carlos Vaz Marques | Texto     Carmo Montanha | Fotografias *

Qual é a memória mais forte que guarda de Manuel de Brito?

A primeira e a última. A primeira memória forte que tenho dele tem a ver com a galeria que ele tinha no Porto, que no princípio se chamava Zen. Naquela altura as galerias eram muito poucas e as exposições na Zen eram sempre uma festa. Só tinham bons artistas. Um dia, o Fernando Pernes – que era o crítico de arte que escrevia os catálogos da galeria – foi à escola de Belas-Artes, que eu frequentava, escolher artistas novos para exporem na Zen. E escolheu-me a mim. Fiquei muito emocionada.

Foi a primeira galeria a sério onde viu exposto o seu trabalho?

Foi. Expus lá mas numa exposição colectiva. Para mim, foi altamente elogioso porque fiquei colocada entre um quadro da Vieira da Silva e um quadro da Lourdes Castro. Quando lá cheguei e vi aquilo disse: que boas madrinhas que eu tenho. O Manuel de Brito nem sabia quem eu era.

Lembra-se do quadro que levou para essa exposição?

Não me lembro. Acho que isto terá sido quando eu andava no quarto ou no quinto ano. Se foi no quinto era uma série de pinturas que eu nessa altura fazia sobre seda, com sobreposições. Eram umas experiências bastante atrevidas, até. O que eu hoje faço sobrepondo linhas nos desenhos, com carvão e com grafite, era feito com tecidos. Mas os tecidos também eram desenhados. Ainda guardei algumas dessas peças e quando fizer uma exposição com os meus primeiros trabalhos hei-de apresentar esses quadros.

Conheceu o Manuel de Brito nessa primeira exposição?

Devo ter conhecido mas nem ele me ligou muito nem eu me lembro dele. A figura do Manuel de Brito não me ficou marcada.

Quando é que ficou marcada na sua memória pela primeira vez, então?

Ficou-me marcada quando eu vim de Paris para Lisboa. Eu ia às inaugurações da Galeria 111 e pensava: esta era a única galeria onde eu gostava de expor. Um dia o Manuel de Brito disse-me que gostava de ver o meu trabalho. Eu tinha nessa altura um ateliê, meio águas-furtadas, na Rua de S. Paulo, e ele foi lá ver o meu trabalho. Com um ar muito sério disse-me: sabe, é que eu gostava muito de lhe fazer uma exposição. Eu respondi: fico muito contente porque a sua galeria é a única com a qual eu gostava de trabalhar cá em Lisboa.

Foi aí que nasceu a vossa colaboração?

Sim. Isto foi no início dos anos oitenta. Eu tinha vindo para Lisboa em 79. Estive muito tempo sem ateliê. Não conseguia arranjar nem casa nem ateliê. Foi muito dramática a minha vinda para Lisboa. Coincidiu com aquela altura em que não havia casas para alugar. Eu também não tinha dinheiro para comprar, era professora.

Começou por me dizer que as memórias mais fortes que tem do Manuel de Brito são as primeiras e as últimas. Qual é a última?

A última é de 2005. Já o Manuel de Brito estava doente. Ele arrastou um cancro durante uns anos e no verão de 2005 começou a ficar pior. Eu fui para Sines fazer uma residência artística durante três meses – que depois resultou na inauguração do Centro de Artes – e no dia da inauguração ele telefona-me (estava um dia chuvoso, esquisito) e diz-me: gostava tanto de estar consigo mas estou internado no hospital, não me sinto bem; no entanto estou muito feliz porque hoje os jornais falam todos de si; desejo-lhe muita sorte. Estava emocionado por não poder estar comigo na inauguração. Foi a última vez que falei com ele. Fiquei-lhe muito grata por ele ter tido aquela atenção. Estava tão mal no hospital e telefonou-me. Não fui eu que lhe liguei, foi ele que me ligou a mim.

Que importância teve para si a relação de trabalho que manteve durante tanto tempo com o Manuel de Brito?

Foi fundamental. Eu nunca quis ter uma relação directa com o comprador de arte. Vender os meus quadros, no princípio, era muito difícil para mim. Aos amigos tinha sempre dificuldade de fazer preço porque apetecia-me oferecer. Ofereci muitos quadros que agora até já aparecem em leilões. São de pessoas que se calhar estão a precisar de dinheiro.

Quando vê aparecer num leilão um quadro que ofereceu sente-se magoada?

Ainda agora apareceram vários. Todos oferecidos.

Isso magoa-a?

Não. Começo a pensar que as pessoas estarão a aproveitar porque julgam que vão ganhar dinheiro. Mas geralmente são pessoas que precisam do dinheiro. Por isso, o que eu digo é: olha, ainda bem. A pintura também serve para isso.

Estava a dizer que percebeu cedo que não lhe era fácil ter uma relação directa com quem ia comprar os seus quadros.

Sim, não tinha paciência. Quando vim de Paris e tentei começar a entrar no mercado da arte, irritava-me bastante quando as pessoas iam ao ateliê e hesitavam muito. Depois tinha de vir a mulher e depois a sogra e eu a pensar: agora só falta o gato para ver se também gosta do quadro. Era sempre tudo tão difícil. Eu não tinha jeito nenhum para aquilo.

O Manuel de Brito foi portanto o seu primeiro marchand.

Foi o primeiro e o único. E o nosso acordo foi verbal. Entretanto, fui para Trás-os-Montes durante dois anos fazer aquele meu grande mergulho no meu interior e nas serras. Em 83 apresentei esse trabalho na Galeria 111. Foi a primeira exposição que fiz lá. Foi um trabalho que teve imenso sucesso, tanto comercial como de público.

A importância do Manuel de Brito no seu percurso foi apenas de ordem comercial, enquanto marchand, ou o olhar dele enquanto apreciador de pintura também foi de algum modo importante para si?

Com o Manuel de Brito nunca havia muito diálogo sobre aquilo de que ele gostava e não gostava. Raramente ele se exprimia dessa maneira. Sei que dizia muito bem de mim nas minhas costas. Discretamente, como um bom comerciante. Não devia querer elogiar-me de forma directa porque isso podia estragar a artista.

E se calhar porque isso podia fazê-la querer ver aumentada a sua cotação.

Eu podia começar a exigir, não é? Ele chamava-me «mestra» e eu brincava com ele porque normalmente chama-se mestras às costureiras.

Não falavam de pintura?

Não. Nunca se falava de pintura. Eu acho que o Manel era um homem muito intuitivo mas não era um homem conhecedor. Agora, a intuição levava-o a perceber onde é que estava a qualidade.

Era uma intuição exclusivamente comercial ou era também uma intuição artística?

Era também artística. Só que era uma intuição que não se baseava em conhecimentos que se adquirem quando a pessoa estuda. Ele além de ser intuitivo era inteligente ao ponto de se aconselhar bem. À volta dele estavam os grandes críticos de arte, na altura: um Rui Mário Gonçalves, um Fernando Azevedo, um Fernando Pernes, se calhar também o José Augusto França. Quando pegava num artista ele já tinha ouvido muita coisa sobre esse artista.

Como é que o Manuel de Brito juntou as peças da sua obra de que se tornou proprietário?

Isso é uma pergunta a que a Arlete [Alves da Silva], a viúva dele, sabe responder melhor do que eu.

Mas a Graça deve saber como é que ele ficou com os seus quadros que agora estão expostos em Algés.

Às vezes. Outras vezes não sabia. Ele às vezes dizia-me que ficou com grandes quadros de muitos pintores porque havia reservas, durante a exposição, e depois havia clientes que não iam buscar esses quadros. Sempre houve gente que se entusiasmava na inauguração e que depois desistia. Às vezes era só para fazerem um brilharete. Noutros casos era por razões mais dramáticas. Lembro-me do caso de um senhor cujo filho teve um grande problema de saúde, teve de ser operado e o dinheiro que era para ser para o quadro foi para isso.

Quer dizer que a Graça não foi acompanhando o modo como o Manuel de Brito foi ficando com obras suas?

Às vezes acompanhava. Por vezes eu sabia que ele queria um quadro. Nós montávamos a exposição e geralmente ele escolhia um para ele e eu escolhia um para mim. Eu queria sempre um para mim, o que ao mesmo tempo lhe desagradava porque ele achava que os quadros que ficavam expostos tinham de ser todos para venda. Mas sempre tive dificuldade de me separar de alguns quadros. Sobretudo de séries. Lembro-me de uma exposição que fiz em 2002 e em que havia um quadro grande – que depois foi capa do livro «Geografias da Alma» - que eu pintei no dia em que o Fernando Azevedo morreu. Foi uma espécie de homenagem e por isso tinha uma ligação tão forte àquele quadro que não me queria desfazer dele. Disse: este quadro tem de ser para mim. E recordo-me que na inauguração - na altura o Presidente da República era Jorge Sampaio – o Manuel de Brito fez queixa de mim ao Presidente. Por eu não ter querido vender aquele quadro que ele considerava importante para a colecção Manuel de Brito. E eu respondi-lhe: olhe, também é importante para mim. Nem eu sabia que havia de ter um espaço em Bragança [o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais] onde o quadro agora está.

Acontece-lhe com frequência ficar com uma ligação sentimental forte aos quadros que pinta?

Acontece. Ainda ontem vi uma fotografia de um quadro meu numa vitrina, lá em Algés, no Centro Manuel de Brito, e perguntei para mim própria: mas porque é que eu vendi este quadro? Foi um quadro vendido pela Arlete na feira de arte, que eu considero muito importante para mim, mas numa altura em que não estava em condições que me permitissem não o vender, porque estava a precisar de dinheiro.

Os seus quadros na colecção Manuel de Brito fazem uma boa panorâmica do seu percurso artístico?

Sabe, eu própria fiquei surpreendida ao entrar na exposição, porque há ali quadros que já não via há muitos anos. Um ou outro nem sabia que eram dele. O núcleo mais forte é o núcleo que tem a ver com a minha experiência em Cabo Verde. Acho que estou muito bem representada quanto à exposição que fiz em 1987, com três quadros que considero bastante bons. Da série «Terra Quente – O Fim do Milénio» também há uma tela que eu considero bastante boa. De «As Escolhidas» há um retrato da minha mãe. É curioso: ele queria sempre comprar os retratos que eu fazia da minha mãe.

Alguma vez percebeu porquê?

Porque ele sabia que eu adorava a minha mãe e porque devia projectar-se um pouco nisso. O Manuel de Brito era um homem muito afectuoso. Era um homem muito negociante, às vezes muito frio…

Inclusive com os artistas?

Sim, sim. Quando se falava de tratar friamente de dinheiros e dessas coisas ele era um homem muito controlado. Mas depois gostava da festa, de almoços, de jantares e pagava sempre tudo. Era muito generoso, nisso. Há marchands que são uns unhas-de-fome. Ele não, era um homem realmente generoso.

O que é que a surpreendeu mais ao ver a exposição das suas obras que fazem parte da colecção Manuel de Brito?

Encontrei uma série de pequeninos desenhos, que são os desenhos mais eróticos que eu fiz. Fi-los em 86 ou 87.

Já não se lembrava deles?

Já não me lembrava. O Manel ficou com eles todos. São muito pequeninos. Devem ter estado guardados numa pasta. São desenhos que, para muita gente, vão ser uma surpresa. É uma fase muito ligada ao corpo, ao erotismo, às proibições. No fim de ver a exposição, eu senti que aquela exposição é realmente, de certo modo, a minha vida como pintora. Não estando lá muita coisa – porque é uma exposição antológica mas não é uma retrospectiva intensiva, evidentemente – representa uma história que eu tive com um espaço simultaneamente cultural e económico, com um casal – o Manuel de Brito e a Arlete – que teve a ver com o meu crescimento como artista. Esta relação com um galerista com uma tão grande permanência e fidelidade é de uma importância enorme. Acho fundamental na minha vida que se faça esta exposição. É a minha história como artista que está ali contada, condensada e com picos muito altos da minha pintura. Foi um casamento longo.

O que é que teria sido diferente no seu percurso se não se tivesse cruzado com Manuel de Brito?

É difícil dizer. Ao mesmo tempo, este vínculo de exclusividade, que foi sempre apenas verbal, também me limitou e me impediu de expor noutras galerias que também podiam ter-me beneficiado como artista. Eu tinha consciência de que, ao expor sempre na mesma galeria, tinha por um lado uma ligação mais confortável mas ao mesmo tempo também limitativa.

Um Centro de Arte como este, a partir do espólio de um marchand, é um caso raro se não mesmo inédito, em Portugal.

Eu acho que este caso é único. Há galeristas com grandes colecções mas julgo que o Manuel de Brito foi o galerista que coleccionou mais obras de artistas fundamentais na arte portuguesa. Ele tem uma colecção notável de obras da Paula Rego, da Menez, do Pomar, do António Dacosta, da Lourdes Castro… É de facto um espólio notável. Porque o Manuel de Brito era um grande comerciante mas também era um homem que gostava de ter pintura. Ao coleccionar ele tinha de ser um amante da pintura, senão não coleccionava tanto. Não acho que ele tivesse a percepção de alguns artistas virem a valorizar-se como se valorizaram. Nunca ele pensou que a Paula Rego viesse a valer o que vale hoje. Mais que por investimento, acreditava naquele artista.

O Palácio Anjos parece-lhe um espaço adequado para aquele acervo?

Acho a recuperação bem pensada. Eu conheci aquilo antes de ser este centro de artes. Vivi em Algés no princípio dos anos oitenta e lembro-me de levar a minha filha às aulas de ballet no Palácio Anjos. E dei aulas em frente ao Palácio Anjos, onde hoje é a biblioteca: no Palácio Ribamar. Dantes era a escola preparatória de Algés. Quando vim para Lisboa fui colocada nessa escola. Era uma escola péssima, com umas condições péssimas. Sofri imenso ao dar ali aulas. Penso que agora aquilo é um local muito agradável, porque até tem um jardim. Reparei que havia muitos velhos a jogar cartas, numa espécie de cabana protectora, com vidro. São pequeninas coisas mas que mostram uma grande humanização daquele espaço. É um melhoramento notável.

Quer dizer que não tem grandes saudades do período da sua vida ligado a Algés.

Não. Foi o período mais triste da minha vida. Eu também vivia numa casa muito pequenina. Foram tempos muito difíceis. Ainda há dias lá passei e fiquei muito angustiada.

Voltar a Algés ainda a perturba?

Lembra-me esse passado; esse início. Eu vivi em Guimarães, que é uma cidade lindíssima, com uma qualidade paisagística maravilhosa. Fui muito feliz em Guimarães: dei aulas lá, a minha filha nasceu lá e deixei lá muitos amigos. Realmente, como é importante viver num ambiente com casas bonitas, com jardins! E aqui, naquele tempo, Algés era tão triste. Aquilo tinha muito um ar de subúrbio. Agora está muito melhor. É um esforço de qualidade que há que reconhecer ao Isaltino.

Isaltino Morais que foi seu colega de escola na infância, tanto quanto sei.

Não foi bem meu colega. Ele andava no mesmo colégio onde andavam os meus irmãos: no Colégio S. João de Brito, em Bragança. Lembro-me dele desse tempo. Ele é mais novo do que eu talvez uns dois anos mas é meu contemporâneo.

Quando o conheceu na infância já detectou nele sinais do futuro político?

Não. Era um rapazinho inocente e que passava despercebido. Há muitos jovens que nós encontramos no liceu, de quem não se adivinha o futuro.

Ele não demonstrava já nessa altura interesse pela política?

Não. Era muito cedo. A mim é que já me chamavam a pintora. Era uma coisa que já nasceu comigo e por isso eu passava o tempo a pintar nas aulas. Quando havia aqueles desfiles alegóricos também era eu que pintava. Quando havia teatro… quem é que vai fazer os cenários? É a Graça. Eu pintava mais do que estudava. Mas entre os rapazes não sabíamos bem o que se passava. Nessa altura, sabe, as raparigas entravam por um lado e os rapazes por outro. Não havia grandes misturas. Eu só estudei numa turma com rapazes já no meu sexto ano. Até ao quinto ano estive sempre numa turma só de meninas.

Manteve contacto com Isaltino Morais, depois desse período escolar?

Estivemos muitos anos sem nos vermos. Voltei a encontrá-lo já ele era presidente da Câmara. Lembro-me de o encontrar numa cerimónia qualquer, não sei aonde, e de nos termos lembrado um do outro. Depois, eu fui de certo modo intermediária – ele pediu-me muito – para convencer o Manuel de Brito a levar a colecção dele para Algés.

Quer dizer que o Centro de Arte Manuel de Brito também existe um pouco por sua causa?

Não é que exista por isso. Com certeza que se eles não quisessem não existia. Mas recordo-me do Isaltino me dizer: vê se convences o Manuel de Brito a trazer a colecção para Algés. Porque o Manuel de Brito queria pô-la ao pé da galeria dele, no Campo Grande. E eu sempre que estava com o Manuel dizia: aquele palácio é tão bonito, o Isaltino tem tanta vontade de fazer aquilo; e além disso o Manuel vive ali no Dafundo; tudo tem a sua lógica e é bom que uma colecção como a sua possa ser vista não em Lisboa mas aqui ao lado de Lisboa.

Parece-lhe que ele terá sido sensível a esses seus argumentos?

Acho que sim.

O Centro só nasceu já depois da morte do Manuel de Brito.

Mas já estava tudo assinado. As decisões foram tomadas muito antes. Eu sempre que estava com o Manuel insistia com ele, agora se ele não quisesse não era por mim que aceitaria, claro.


* Publicada in Oeiras em Revista Verão.Summer´10 | Edição nº103, bilíngue | A Dois, páginas 10 a 19

*  Fotografias/Imagens Arquivo da artista Graça Morais | Todos os direitos reservados Copyright © 2010
*  Fotografias de Obras via CAMB



CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito
Palácio Anjos Algés - Alameda Hermano Patrone, 1495-064 Algés
Tel. 21 4111400 camb@cm-oeiras.pt
De Terça a Domingo 11h30 às 18h00
Última Sexta de cada mês das 11h30 às 24h00

Mapa via Google

Graça Morais, pintora-perdiz



“A Máscara e o Tempo” é a exposição de Graça Morais que a Galeria Ratton inaugura hoje. Miguel Matos teve direito a visita guiada na companhia da pintora.

Por Miguel Matos

Pelas três naves da galeria desfilam pinturas que aludem à vida e ao tempo próprio do quotidiano no campo. Desenhos recentes, feitos a carvão, representam batatas geradoras de vida, transformadas pela acção dos dias passados.

Imagens de aves que se fundem no rosto da pintora dialogam com desabafos do dia-a-dia. A exposição “A Máscara e o Tempo” é uma súmula dos muitos desenhos que Graça Morais traça diariamente, marcando na memória as emoções da vida, a morte e a passagem do tempo nas pessoas que nos são queridas.

A Graça Morais continua a preferir o desenho como sua expressão, mais do que a pintura?

Sim. Gosto imenso de desenhar a carvão e a pastel. Mais depressa atinjo os resultados que quero assim do que com a pintura. A pintura requer uma força mais física e exige muito tempo. Nos últimos dois anos, desde que comecei a ter de ir muito a Bragança [onde está o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais], comecei a ficar com o meu tempo dividido. Então, quando fico no meu ateliê muitos dias agarro-me às telas e pinto.

Nesta exposição podemos observar três núcleos de obras. Pode explicar cada um deles?

Na primeira sala temos o tempo longo dos campos e do ciclo das estações. Há uma pintura com uma cabra que está no campo... isto é um tempo que só o campo tem. Nós na cidade não o temos. É o tempo da contemplação. Quase que se sente o som da bicharada, dos insectos... eu tenho muita sorte pois vou muitas vezes para a montanha e ando por aqueles lugares a sentir os campos. Gosto imenso dos rebanhos de gado, que cada vez existem menos. A nossa primeira infância marca-nos a todos e eu fui muito marcada porque vivi até aos sete anos nesse lugar, que na altura não tinha electricidade, nem estradas nem telefones. O isolamento era tanto que tudo o que eu vivi foi muito intenso. E a relação com o meu pai, com a minha mãe e os meus irmãos, numa família numerosíssima e aquela gente toda na aldeia ficaram marcadas profundamente no meu pensamento e no meu coração. Sinto que hoje sou uma privilegiada porque tenho esse mundo dentro de mim.

Tem necessidade desse acto de contemplação que hoje parece relegado para segundo plano?

Sim, porque isto tem a ver com a minha identidade, com a minha cultura. Há uma pintura que retrata os jovens de Trás-os-Montes. São jovens que eu encontro lá mas que são quase uma raridade. Vestem-se como aqui, têm os mesmos hábitos pois o mundo é cada vez mais pequeno. Têm uma aparência muito citadina, na aparência, nos objectos, na aquisição das tecnologias, mas ao mesmo tempo vão para o campo e vêem as cabras, as ovelhas...

Desenhou batatas velhas e transfiguradas... A observação da transformação da natureza é para si uma metáfora para a passagem do tempo?

Sabemos que quando deixamos as batatas apanhar luz, elas grelam. Lá em casa eu não deixo ninguém deitar fora as batatas greladas. Elas são motivo de interesse porque estão vivas, estão a transformar-se. A metamorfose dos seres vegetais é uma coisa que me toca e que preciso de observar. Então, peguei nessas batatas greladas e levei-as para o ateliê. Fiz uma série de desenhos porque aquelas batatas são uma metáfora sobre a vida e o tempo. Só passado algum tempo é que as batatas ganham esses grelos, que são nova vida e ao mesmo tempo é a velhice entendida como algo de grande beleza e que continua a ser aproveitável. Há pessoas que envelhecem e não são trapos, continuam a ter um papel na sociedade. Mas neste momento, com as pessoas a viverem muito mais, a nossa sociedade tem de criar espaços para elas. O meu pai morreu com 63 anos e eu achava que ele era velho. Hoje eu tenho 61 e não me considero velha. Há muita gente com 80 anos que faz uma vida brilhante e é uma velhice que tem de ser estudada.

Aquelas mulheres com vegetais a crescerem a partir dos seus rostos, como veias ou órgãos, o que simbolizam?

As pessoas, quanto mais envelhecem, mais o tempo lhes parece veloz. E então ficam com medo de morrer. Um destes desenhos é a cabeça da minha mãe, que é uma pessoa que eu adoro (eu desenho muito a minha mãe). Fazer estes desenhos é uma forma de a agarrar, de a prender, de deixar um testemunho de uma pessoa que é natural que vá desaparecer daqui a uns tempos. A transformação daqueles rostos com tubérculos é o tempo que se nota nas marcas que deixa nas suas caras. Quando as pessoas envelhecem numa relação normal com o tempo, as caras das pessoas velhas já não são caras, são vegetais, estão cheias de experiência.

É um discurso sobre o tempo e a vida, mas também sobre o corpo.

Não é só isso. Alguns rostos são fusões entre o rosto da minha mãe e o meu. E quando eu faço uma fusão entre a sua cabeça e a minha é uma maneira de questionar a minha identidade. É uma reflexão sobre a existência. E isso agudiza-se à medida que eu, com 60 anos, me questiono sobre o mundo que me cerca. Aqui não se sente os conflitos terríveis que há no mundo porque este é um mundo de paz. Também tem dramas e tragédias, há o medo da morte, da doença e da transformação, mas é um mundo que tem a ver com a dimensão dos campos. No fundo estou a reflectir sobre Portugal, que é um país que foi agrícola durante muito tempo e continua com uma agricultura cheia de dificuldades. Mas quando se vai à minha região vê-se toda a gente a trabalhar nas oliveiras, nas videiras... Eu tenho a sorte de ter uma mãe que mesmo depois da vindima me guarda umas videiras com uvas para eu ver...

A relação entre filha e uma mãe é incontornável na sua obra e assume uma dimensão quase visceral.

É realmente uma relação de sangue, de mente e de corpo. E nos últimos anos tenho começado a ver o mundo através da cara da minha mãe. E através dela eu começo a entender melhor aquela cultura e a minha.

Que assunto quer abordar nas pinturas das perdizes que se transformam num rosto?

As perdizes aparecem no Inverno, na altura da caça. Tenho uma relação afectiva com a perdiz, é uma ave muito bonita. Eu só consigo pintar a perdiz que os meus irmãos caçadores me oferecem, não consigo desenhar uma perdiz comprada numa loja. A prenda mais bonita que eu me lembro de ter tido quando era menina, tinha eu seis anos, foi o meu pai vir da caça, com o cinturão cheio de perdizes e oferecer-me uma. E aquela perdiz estava lindíssima e morta. Nunca mais a esqueci. Essa perdiz simboliza também uma certa vitimização das mulheres, mas sobretudo uma enorme beleza e os laços afectivos... E no final desta série, já sou eu, fundindo-me com a cabeça da perdiz. É um auto-retrato, que também é um diário. A minha pintura é muito simbólica, está cheia de metáforas.

A Graça Morais continua a fazer aquilo que parece um tabu na arte portuguesa actual: falar sobre si e sobre a vida.

Depende da arte contemporânea. O que acontece com alguns artistas é a não aceitação de uma certa sinceridade com os outros. Para nos aceitarmos como somos e para sermos sinceros com os outros numa relação de uma certa verdade, temos de ter um certo grau de amadurecimento e por vezes confunde-se a arte de vanguarda com esse lado dos fingimentos.



“A Máscara e o Tempo” está patente na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências, 2C) até 31 de Janeiro. Aberta de segunda a sexta das 10.00 às 13.00 e das 15.00 às 19.30. A entrada é gratuita.

in Time Out



Graça Morais: "É necessário resistir" por Agostinho Santos

Oito telas a óleo e 23 desenhos criados no Verão passado, em Trás-os-Montes, constituem a mostra a inaugurar hoje, às 18.30 horas, na Galeria do Jornal de Notícias, no Porto. Trabalho resulta da reflexão sobre o quotidiano das pessoas que rodeiam a pintora


No Verão passado, Graça Morais não teve descanso. Refugiou-se no silêncio do seu ateliê de Trás-os-Montes e, de manhã à noite, trabalhou, concebendo um conjunto de pinturas e desenhos que corporizam, de novo, os corpos das mulheres da sua região e, principalmente, o rosto esguio, belo, da sua mãe, Alda, que simboliza, na obra da artista, a Terra.

Corresponde mesmo, segundo confidenciou a pintora nesta entrevista, ao "espelho de uma personalidade intensa, própria da identidade feminina da minha região".

Graça Morais: "É necessário resistir"

O resultado deste intenso, quase obsessivo, diálogo entre Graça Morais, as telas, os papéis, os óleos e os pastéis é a exposição que inaugura hoje, às 18.30 horas, na Galeria do Jornal de Notícias, no Porto. São trabalhos recentes que proporcionam uma perspectiva rigorosa sobre a obra daquela que é considerada uma das maiores pintoras portuguesas, que garante que "é necessário resistir e insistir com coragem, porque vivo num país com um espaço físico mental e económico muito reduzido". A mostra está patente até 14 de Dezembro.

Em que consiste esta exposição? Que temas privilegia?

Esta exposição é constituida por oito telas a óleo e 23 desenhos sobre papel. Foram realizados no meu ateliê de Trás-os-Montes e resultam de uma reflexão sobre o quotidiano das pessoas que me rodeiam, associando imagens que recolho dos média com objectos e formas da natureza.


A mulher rural ainda surge como protagonista na sua obra. Porquê? Qual a mensagem?

Estes quadros são representações de rostos humanos, máscaras que pertencem ao mundo da montanha e que vivem numa luta diária com uma paisagem rude e harmoniosa.

A sua mãe é um dos seus modelos mais frequentes. Porquê?

A minha mãe simboliza a Terra. Sinto uma grande identificação com o seu rosto, espelho de uma personalidade intensa, própria da identidade feminina da minha região.

Cria, muitas vezes, uma espécie de metamorfose entre mulher e bichos, nomeadamente gafanhotos e pássaros. Qual a relação?

Neste lugar, cohabitam, numa profunda simbiose, animais e homens. A metamorfose entre a mulher e as formas animais é sempre o resultado da transformação da matéria, está associada à memória e ao tempo.

A sua linguagem mais fiel é o desenho ou a pintura? Com qual se sente melhor, ou seja, mais autêntica?

Sinto uma relação muito profunda e imediata com o desenho. Rabiscar é encontrar imagens, é encontrar-me num jogo de descoberta, de grandes surpresas.


Como surgem os temas no seu trabalho? A guerra e a violência já foram tratadas na sua obra. Tratou-as, essencialmente, como forma de denúncia?

Estou atenta a tudo o que se passa à minha volta, seja no meu pequeno mundo, seja no planeta que habitamos e a minha pintura resulta de imagens fragmentadas dessa realidade.

A sua relação com Trás-os-Montes mantém-se? É uma relação umbilical?

Pertenço a este lugar, que, desde a infância, me marcou profundamente. Aqui, aprendi a andar, a falar, a cantar, a rezar e as primeiras letras. Também aqui comecei a despertar para o desenho. Mantenho uma relação de grande identificação com este território geográfico e afectivo.

O silêncio, o recolhimento parecem ser muito importantes, talvez fundamentais, no seu momento de criação. Porquê?

É fundamental para mim trabalhar num ambiente de silêncio e absoluta concentração na minha pintura. Nesta fase da minha actividade criativa, ter tempo e silêncio são luxos pelos quais luto com persistência.


Ser mulher/artista em Portugal é complicado nos dias de hoje?

É complicado ser artista, seja mulher ou homem. É necessário resistir e insistir com coragem, porque vivo num país com um espaço físico mental e económico muito reduzido.

O que esteve na origem da criação do Centro de Arte Graça Morais, em Bragança? Está satisfeita com os resultados/adesão do público obtidos nos primeiros meses de existência?

O Centro de Arte Contemporânea recebeu o meu nome por proposta do presidente da Câmara de Bragança, Jorge Nunes, que foi aceite em Assembleia Municipal por unanimidade. Este centro dá resposta a uma política de desenvolvimento cultural sustentável, num projecto transfronteiriço entre as cidades de Bragança e de Zamora. O êxito de público e visitantes nacionais e estrangeiros ultrapassou as expectativas mais optimistas.

Que conselhos dá aos jovens criadores?

Não dou conselhos, sugiro que desenvolvam os seus talentos inatos com muito estudo e perseverança no trabalho.

A crise afecta a arte?

Qual crise? A dos valores éticos? Nas crises económicas do passado, desenvolveram-se interessantes perspectivas de mercado, sendo as obras de arte um valor seguro de investimento.

Em termos futuros, tem já alguns projectos de trabalho?

Não gosto de falar publicamente dos meus projectos antes da sua concretização.

Como encara a questão da morte? Tem medo de morrer?

A morte é inevitável, é uma senhora que não convido para jantar !


Fonte: JN

Na Rota Do Sagrado - Entrevista Graça Morais

Por Ana Marques Gastão


Graça Morais. Oito telas a óleo e 23 desenhos (dois de grande formato) e colagens integram a exposição de inéditos que Graça Morais inaugura, hoje, às 18.30, na Galeria DN, em Lisboa. A mostra ficará patente até 8 de Novembro, seguindo depois para a Galeria JN no Porto

A terra esteve sempre presente na sua obra. É como se ela se tivesse tornado nestes trabalhos hiper- - real e mais angustiada...

Talvez porque a morte se dê a ver de uma forma mais densa. Pinto em grande inquietação. Quanto mais envelheço, mais tenho a sensação de que a terra nos dá a vida e a morte. O tempo é limitado. Tenho vindo a isolar-me, sobretudo em Trás-os-Montes, desde que fiz 60 anos. Vivemos num planeta pequeno, invadido pela globalização, onde somos obrigados a ter uma imensa força, insuficiente para a nossa tão grande fragilidade. A fragilidade assusta, mete medo. Sentimo-la na solidão, na doença, nos cataclismos ambientais, numa ética que deixou de o ser e que coloca novas questões à Humanidade e, por sua vez, à arte.

É como se nestas imagens a terra suportasse um peso imenso?

O Céu é pesado, ameaçador. Represento-o assim, muito realista, num quadro onde se vêem uma batata em putrefacção que é o tempo, a passagem dos dias, a vida que se degrada. Ao lado, visualiza-se uma criança de cera - das promessas religiosas -, um açucareiro, que era da minha avó paterna, e um homem fardado, figura ameaçadora sem nome. Estes quadros são fragmentários e resultam de um grande isolamento. Gostaria que a minha pintura revelasse ideias, sensações da minha experiência do mundo.

Talvez por isso, surja a colagem em alguns destes quadros?

Sim, vou combinando fragmentos que têm a ver com a representação do rosto, da máscara, dos elementos vegetais e de figuras que são o resultado de imagens de catástrofes que recupero das primeiras páginas dos jornais. Pergunto-me porquê estas e não outras, uma vez que são iguais em todo mundo? Será da globalização, mas são aquelas que querem que vejamos.

Prosseguiu, de um modo mais denso, o diálogo entre sagrado e profano já presente na sua obra?

Mais do que qualquer outra anterior, esta pintura é religiosa. De alguma forma, contém a minha verdade interior e, nesse sentido, dir-se-ia intimista. Parte do meu mundo, de figuras que me são familiares como a minha mãe, e nela as cores tornam-se ideias, símbolos. Em Agosto, estive na Rússia, em Moscovo, em São Petersburgo, e na Polónia, em Cracóvia, a convite de Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. Nessa viagem - em que vi a minha participação em painéis de azulejo na estação Bielorússia do Metro de Moscovo - compreendi o significado dos meus quadros quando entrei nas igrejas ortodoxas e ouvi os cânticos.

Mas é algo que não encontra nas igrejas católicas romanas?

Para aliciar os jovens, na minha opinião, banalizaram-se muito os rituais. Nas igrejas ortodoxas que visitei, sobretudo, em São Petersburgo, encontrei uma outra solenidade, uma outra interioridade. Digamos que comecei este caminho há muito, mas estou numa fase de maior meditação. Foi um encontro com os meus quadros.

Está a falar também de Deus?

Não necessariamente. Ou melhor, estou a falar de uma dimensão que nos ultrapassa enquanto seres humanos; de um sentimento muito especial, imensamente profundo. Algo que sinto no meio do corpo e que fica em sintonia com a totalidade do universo, com o divino. Encontrei Deus numa igreja ortodoxa na Rússia, mas não em Fátima, onde estive quando um irmão meu teve um cancro e quis lá ir. A missa foi interrompida de uma forma brutal, o padre não tinha espírito religioso, as pessoas falavam alto e o lado mercantil chocou-me. Sinto, por outro lado, que os artistas têm um mundo espiritual que a Igreja negligenciou no século XX, o que a empobreceu. Sou crente, mas sinto-me desintegrada.

Vemos, nestes quadros, a escrita diarística a fundir-se com a pintura em diálogo com a sua mãe...

Sem pretensões literárias, vou escrevendo apontamentos, notas, desabafos, explosões sobre o quotidiano, alegrias, tristezas, e insiro-os na pintura. A palavra pode ser mais importante do que a imagem. Também ela é imagem. Este Verão, em Trás-os-Montes - onde estive a fazer estes quadros -, visitava todos os dias a minha mãe ao fim da tarde. A essa hora, há uma linha indefinida entre os céus e as montanhas e luz torna-se mágica. Enquanto caminhava, ia ganhando consciência de que aquela era uma viagem em direcção do sagrado.

A Terra é mãe. E a sua mãe...

...é o símbolo da Terra. Da terra vimos e para a terra vamos. Por isso quando chegava a Vieiro, o que fazíamos era ir ver a horta. A minha mãe, a Maria e eu ficávamos a observar o crescimento das plantas, dos tomates, das abóboras... Talvez por ter vivido essa experiência, eu ache que todas as escolas primárias e lares da terceira idade deveriam ter hortas e jardins. As pessoas do povo estão nesses espaços à espera de morrer e dizem: "Estou à espera que Ela venha." Ela é a morte. Se estivessem mais próximas da natureza, compreenderiam o quanto podem ajudar a que ela se renove.

Têm uma relação maternal com a Terra essas mulheres?

Ainda que por vezes não tenham consciência disso, a relação com o semear e o colher é de um grande amor. Para mim, nesses momentos, o universo ganha sentido. A paisagem que deixei para trás, aquele mistério culmina no encontro com a minha mãe. Tão simples e tão profundo, não é? Por isso, em mais do que um quadro nesta exposição, ponho as mulheres a segredarem. Elas são sábias, contam segredos, sussurram, e eu cubro-as de flores coloridas. Foram curandeiras ao longo dos tempos, parteiras, conhecem bem a terra, possuem a sabedoria das plantas...

Pintou um rosto de mulher envolto numa couve. Parece uma flor!

É mais um embrião de flor. Estou sempre a observar couves no campo, têm formas incríveis, Hei-de fazer uma série só de couves (risos). São pujantes, sobretudo as grandes. Descobri imensas coisas nestes meus passeios de Verão. Ao entardecer, era inquietante ouvir o vento a bater nas canas de milho. Às vezes, assustava-me. Pressentia presenças humanas ou espíritos. Como se natureza ganhasse dimensão humana. Tenho o atelier cheio delas agora; o meu irmão Cristiano traz-mas. Estão abertas, desesperadas, tortas. O que me interessa não é pintá-las no lugar onde estão, mas transformá-las. Não gosto de as retirar do seu meio-ambiente que é harmonioso. Reintegro-as na minha realidade. Represento-as de outra forma, por vezes incompreensível.

A metamorfose marca a sua obra que transforma os seres humanos em pássaros, flores... Uma sabedoria que vem dos antigos?

A metamorfose é a transformação que o tempo dá à matéria.

Palavras como fecundidade e fertilidade, vida e morte, queda e renascimento atravessam a exposição?

Há sempre uma luz, ainda que esta pintura seja sentida, triste, densa.

Diário de Notícias