Diário escrito e pintado à sombra de uma perdiz


Por Ana Marques Gastão

No princípio há o pânico e depois um instinto absoluto de sobrevivência, de criar alguma ordem para lhe poder escapar. A ideia é de Louise Bourgeois, mas adequa-se ao processo de composição do diário de Graça Morais: singular, maduro, pungente, escrito-pintado num só dia, em Freixiel, Trás-os-Montes. A exposição inaugura-se hoje, na Galeria Ratton, às 22.00.

Este "jogo" impaciente de palavras e imagens, territórios próximos onde coabitam necessariamente tensões e paradoxos, revela momentos isolados, meditativos, fundados numa colecção de espaços e memórias ligados à infância, à terra, à infância da terra na sua pureza e decadência.

Nesta materialização do texto na pintura, encena-se não propriamente uma narratividade das imagens, mas uma tessitura de pensamentos, silêncios, interrogações, reeinvenções da nostalgia de um tempo que já não volta. Não é decisiva, nestes trabalhos, a caça de um efeito, mesmo tendo em conta a técnica apurada. Reconhece-se, porém, na impaciência da arte, a afirmação de um caminho sólido, coerente, diferenciado.

Os desenhos, exactamente 31 (a tinta da china e a sépia sobre papel) dizem, na sua expressividade intensa e não menos contida, de uma fractura íntima ("Só sinto e muito, a chuva, a tristeza, a música, a angústia de não saber nada. Só sei que preciso de desenhar e muito. À procura, sempre à procura!"), de um sentir estilhaçado, abrindo brechas num presente de insatisfações e desejos.

Graça escreve enquanto a mão avança no desenho, tranquila e vibrátil: "Regresso a Freixiel. Casa quente, acolhedora, mas uma ilha, enorme, fechada. Todos os dias me procuro numa solidão angustiante. Duvido do que faço. Sinto-me pendurada, não pertenço a nenhum lugar? Porque estou tão agarrada a este sítio?", questiona-se a pintora. Consciente do desenraizamento, pensa sobre o exílio do artista, a passagem do tempo, a incompletude do saber, a morte e o seu pressentimento, reencontrando-se na perdiz que pinta e confunde com os humanos. Tudo se extingue, afinal, e logo renasce na estranha metamorfose da vida.

O diário foi escrito no dia da trasladação de Lúcia, a escrita e o desenho rodeiam o acontecimento: "Na aldeia as pessoas resguardam-se debaixo do cabanal dos autocarros, gente sem risos, sérios, olhos fixos na estrada e no chão. Em casa, minha mãe ouve a 4.ª missa do dia. Em Fátima, Lúcia reúne milhares de pessoas. Tudo em directo, gente de fé, gente sem futuro, gente que acredita para viver e para morrer em paz."


Entre o caos desolador da cidade e o campo envelhecido, Graça Morais comenta: "Sinto que tudo se está a perder, vêem-se poucas pessoas, muitas mulheres, gente pensativa de olhar baixo", diz, relembrando as terras do Nordeste transmontano, as suas, pertencentes a um país que "nos tira energias e nos rói a carne e os ossos. Ficamos com pouco".


Dia muito intenso, o da feitura do diário, escrito e pintado na mudez da sombra e no "mistério de um viver intrigante". A pintora procura o outro lado de ver por dentro, desenha o que quase não pode ser dito e, como um cirurgião, num metódico exercício, disseca, num gesto rápido, a perdiz a perder sangue pelo bico; pinta uma mulher-bicho a guardar um rebanho de batatas greladas que "não servem para nada"; desenha duas figuras (a mãe e a empregada, modelos de há anos) a conversar sobre a terra como se nela se fundissem: "Já não são pessoas, mas pó", resquício de "um tempo outro sem televisão", salienta.


Lateja neste ciclo de desenhos uma certa desmesura harmoniosa e negra na apreensão da vacuidade do mundo, mas nele habitam também cintilações na claridade leve de um gosto pela vida. Este capta-se na incandescência da música (Mozart, Haydn...) e da criação indecifrável.

Táctil, o diário transforma a dor sem a reduzir a cinzas. Atormentado, frutifica numa tensão interiorizada, visceral, em comunhão com a natureza e, nessa organicidade, demonstra como a arte é reiniciadora, variando laboriosamente até atingir momentos em que estranheza e indizível se tocam. E assim a perdiz se transforma em filho nos braços de um homem, qual Pietà ou grito.





3 comentários:

  1. A admiração e o respeito que tenho p'la obra de Graça Morais são indizíveis!

    Voltarei sempre e muito obrigada!

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  2. Tenho tentado deixar um comentário, mas ainda não me entendi muito bem com o sistema do blog, vou fazer uma nova tentativa.

    Sou uma admiradora incondicional da obra de Graça Morais, a minha gratidão é total!

    Muito obrigada e parabéns p'la existência deste Blog espantoso!

    até sempre!

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  3. Obrigada, querida Aldina. um beijo e um abraço amigo. E mulher, conseguiste "postar" um comentário. Parabéns.

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