Pintar o tempo como quem descobre a idade das árvores

Não é difícil conhecer Graça Morais por meio da pintura. Do canto das telas, as suas figuras olham-nos: rostos sulcados, feridos por uma avassaladora tristeza ou cheios de mistério, concentrados no trabalho ou no sangue das danças de amor e de fé. A sua arte é uma extensão da memória, oferenda. Espelho de uma mulher que neste diálogo se entrega às palavras de coração aberto

Graça Morais Entrevistada por Ana Marques Gastão

A pintura de Graça Morais manifesta-se num duplo sentido: o do encontro com o Outro, na dor e no júbilo — numa dimensão humana, telúrica e cósmica —, e o da captação do mágico eterno. E isso rouba-se ao seu olhar esmeralda pálido e melancólico, tocado por travessuras do instante. A ideia da perenidade transformando-se numa ocupação imaginária para a artista que, a sós com a sua criação, não consegue sair dessa forma de disposição espiritual, estado de perfeição momentâneo que a lança numa espécie de intemporalidade corpórea. Sem suspender o efeito do veredicto ético.
Na oralidade, a pintora descreve qualquer coisa, e depois avança. Conta histórias, as que se escondem por trás da comunidade dos seus quadros. O que se lhe vai descobrindo na voz, mansa e pausada, é retirado pela cor das tintas e pela luz fornecida directamente das coisas do mundo, logo devolvidas ao seu próprio corpo esculpido por desejos, intuições, voos e quedas. Por um enorme gosto pela existência.
Sendo um acontecimento fisico-psicológico, a arte é, para Graça Morais, um fenómeno social preocupado com o caos da modernidade, com os infernos citadinos e o esmagamento dos paraísos rurais. À semelhança de universos como os de Ibsen ou de Strindberg, de Tchekhov ou de Lorca, a sua pintura detém-se ainda na condição da mulher ligada à natureza e à espécie. É frequente encontrarem-se nos seus quadros figuras femininas dando sinais da precariedade da vida «escolhida» na inconsistência do eventual e do fugaz. As imagens, simbólicas, são inquietantes e suavemente violentas, roçando por vezes o grotesco, a estranheza ou o sublime. Porque tocam a morte fria e desmascarada ou a vida esboçada, como numa miragem, por uma memória povoada de gente, personagens, enfim, de histórias da terra, dos bichos, de uma relação entre o profano e o sagrado.
Trás-os-Montes e a sua paisagem rude e austera atiram-na, de algum modo, para o exterior. E as viagens — de África à Ásia — reconduzem-na às raízes da infância e a um percurso que abraça também uma reflexão sobre a história da arte. Mas o pensamento nunca fala de modo próprio, sempre responde por já ter escutado, por já ter observado. Graça Morais pinta um universo carregado de sentido e de absurdo para o Homem, como parte de um Cosmos, na acepção grega da palavra. Isto é: um universo cheio de coisas para entender e trabalhos a cumprir, encontrado numa dinâmica que supera os limites entre o dentro e o fora.
E o ser-no-mundo heideggeriano confronta-se diariamente com a ideia de que a morte vem, mas por ora ainda não. Nesta arte, essa certeza quer-se também afastar pelo chamamento da alegria e dos pequenos prazeres diários oferecidos pela terra fértil em pão, azeite e vinho… Centrada entre a nova figuração e um neo-expressionismo activo, que tem vindo a apelar para uma imagética do românico e para a convocação de seres angelicais — humanos e confusos de tanta realidade —, esta criação não é alheia à temática histórico-sociológica e tem finalidades cognitivas. O contacto com o mundo não se revela ocasional.
A vida, Graça Morais realiza-a também e sobretudo nas telas, capitais da memória encontradas no nascimento e na morte, na terra e no céu, na máscara gelada da dor ou na tentativa de entredevorar sonhos irreconciliáveis, como se vivêssemos no declinar de um dia universal sem conseguir suportar os vapores da sua decomposição. O seu segredo passa pela obrigação kierkeggardiana de estar atento. A obra da artista é uma aprendizagem da angústia que confere a possibilidade da infinitude. E essa encontra-se no ruído criativo do silêncio e na viabilidade de podermos ser apanhados pela projecção de uma vontade demasiado poderosa para ser terrena.
O caminho da artista passa pela explicitação do silêncio e por uma poeticidade onírica. Para Graça Morais, a condição humana dir-se-ia a do anjo pré-rafaelita — quem sabe se habitada pelos seres alados de Rilke ou de Swedenborg —, que no vento purpúreo da noite protege os solitários. Porque a existência é autocriação transportada para a pintura, espécie de lugar no escuro à espera de um dourado paraíso, envolto em contos de fadas e lendas de santos. Como nos dias da infância.


Num mundo cheio de clivagens, violências, soluções individuais, a obra de Graça Morais, centrando-se numa poética da condição humana, tem vindo a acentuar o seu lado interventivo. Ou não?
— A pintura que faço é um acto consciente, que parte de uma vivência pessoal e tem profundas ligações à memória. Pratico-a no sentido de uma inquietação, na medida em que me coloca problemas, mas sem a tentação de agradar, de seduzir. Espero, porém, que perturbe os outros.
Não consegue pintar desintegrada da sua época?
— A pintura é sempre um testemunho do seu tempo. Veja-se, por exemplo, a do séc. XV, muito ligada àquilo que a rodeou do ponto de vista social, político e económico. Não posso viver fechada no meu «atelier» a fazer algo que me dá muito prazer para agradar às pessoas. A inquietação anda sempre por perto.
Que quer dizer com inquietação?
— Se quem observa um quadro meu lhe passa ao lado talvez seja porque não consegui exprimir bem o que pode ser o mundo. Vivo nesta época e é sobre ela que sei falar. Estamos num tempo de transformações muito velozes, da TV Cabo à Internet... As pessoas viajam mentalmente no tempo e no espaço, mas continuam fechadas em casa. Talvez nunca tivessem estado tão sós como agora. Quando eu era miúda, em Trás-os-Montes, não havia estradas. As pessoas viviam isoladas, mas não sozinhas. O isolamento era-lhes dado porque demoravam um dia inteiro para ir a Vila Flor, a dez quilómetros, ou porque tinham dificuldade de acesso aos médicos. Hoje, nas aldeias mais remotas, pode chegar-se aos EUA ou à Europa.
Não a perturba que essa inquietação possa fazer passar não só a serenidade, mas também o grotesco, como quando pinta anões em telas mais recentes?
— Não, porque quando pinto não estou a pensar no fim comercial da minha arte. Se eu raciocinasse desse modo, teria mais bom senso. A pintura vive numa dimensão entre o verdadeiro e o onírico, o irreal. Talvez por isso esteja tão ligada à poesia, o que me dá uma grande liberdade. Poder, poder, tenho-o apenas no meu «atelier». Só sinto que o espaço e o tempo estão certos quando trabalho. Porque a unidade entre mim e o que faço é tão forte que naquela altura tudo se conjuga para que haja momentos de perfeição. Essas telas resultam de um regresso à festa de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. As meninas continuam a vestir-se como na minha infância, embora os fatos tenham flores mais artificiais. E mantém-se aquele sentido de cumprir uma promessa que os pais fizeram por razões de saúde ou para que elas passem nos exames. Nesse dia, estava lá uma mãe anã com o filho. Um anão com uma cabeça desmesurada vestido de anjinho é sempre um elemento perturbador numa procissão. Há ainda quem tenha medo dessas pessoas e as marginalize. Talvez por isso as transporte para a pintura.
Esses momentos de perfeição que vive no seu «atelier» não são possíveis lá fora, no mundo?
— Cada vez menos. A sociedade de consumo chegou nos últimos anos com uma força enorme a Portugal, tanto à cidade como ao campo. Torna-se cada vez mais difícil ir a um qualquer lugar sem música, ou ruído de fundo. Ganha-se mais dinheiro, as pessoas vestem-se melhor, mas não chegaram a ter uma evolução cultural. A instrução continuou a ser, por outro lado, a mesma e os conhecimentos que adquiriram foram nenhuns — o que as transforma em seres grosseiros e estúpidos. O novo-riquismo arrogante é agressivo.
E nas relações interpessoais, existem esses momentos perfeitos?
— Com algumas pessoas. Na minha pintura, tenho um poder único que existe no seio de uma relação extremamente verdadeira comigo própria. Tudo depende de mim. Esse posicionamento perante aquilo que sou e a minha atitude diante do mundo é mais simples quando estou sozinha. Com os outros, há sempre o jogo de sedução, de verdades e meias-verdades. Existem relações de poder entre as pessoas, tanto ao nível amoroso, como na amizade.
A imaginação vem-lhe do real?
— Sim, embora eu tenha uma péssima memória para reproduzir aquilo que vejo. Tenho dificuldade em desenhar de cor. Recorro muitas vezes à fotografia a não ser quando me desenho a mim própria. Não preciso de me ver ao espelho. Gostaria que posassem para mim, mas, por outro lado, sou tímida e tenho receio que as pessoas não se reconheçam no que faço.
Talvez por não fazer retrato…
— Não o faço, de facto. E a minha forma de representação não é real, o que pode eventualmente ofender as pessoas. Desenhar ao vivo dir-se-ia, no entanto, muito mais interessante, porque há o mexer da pele, as sombras que se vão transformando conforme a incidência da luz, o mexer do olhar... Existe uma força que tem a ver com a vida. Uma fotografia nunca dá isso, mas proporciona uma maior liberdade.
A arte surge como necessidade?
— Não conseguiria viver sem pintar. Todos os actos que faço têm a ver com essa necessidade de construção mental. Os quadros não surgem por acaso. Escolho os meus assuntos e as ideias nascem. À medida que vou pintando, a obra constrói-se e desconstrói-se independentemente da minha vontade. São as tais forças desconhecidas que nos levam — o que talvez tenha a ver com as imagens que temos armazenadas, as coisas e os sentimentos que estão dentro de nós, ou com uma cultura ligada à história da arte e à vida.
Essa necessidade imperiosa que rodeia a sua pintura remonta à infância, ao centro do mundo que é Vieiro, onde nasceu?
— Em Vieiro, comecei a descobrir o mundo. Até aos sete anos não saí de lá. Nessa altura atinge-se uma grande acuidade na inteligência e na sensibilidade. Lembro-me muito bem dessa idade, das brincadeiras que fazíamos nas fragas, nos lameiros. Andávamos em cima dos tanques, que gelavam no Inverno, partíamos o gelo e comíamo-lo. Era um mundo pequeno, mas muito protector em relação às crianças. Esse sentimento de protecção ainda hoje me leva a gostar de lá estar. Como se fosse uma grande família.
Despertou quando para a pintura?
— Descobri que gostava de desenhar na Escola Primária, mas sem imaginar que um dia viria a ser pintora. Desenhava por desenhar. Coisas muito simples.
Que lugar foi esse, o da infância: o dos rituais, da natureza?
— Sem dúvida. A memória de como nasciam os gatos ou os leitões permanece, por exemplo, em mim. A noite em que as porcas tinham os filhos era uma noite de nervosismo. Lembro-me de a minha mãe andar muito aflita, e de ver as mulheres ajudarem as porcas a parir. Essa relação com o nascimento dos animais, que envolvia um auxílio sem nojo, e depois com a morte, só podia ser muito natural. Eu via aquelas coisas com uma certa repulsa, mas, ao mesmo tempo, com encanto. Não nos proibiam de assistir.
Há uma relação diferente com a morte numa sociedade rural?
— As pessoas aceitam a morte numa sociedade rural com muito mais naturalidade... Os citadinos não se conformam e não a querem encarar. Mas o ciclo da natureza é de nascimento e morte: tudo nasce, cresce e desaparece. Aqueles que lhe são fiéis e vivem economicamente do que o campo lhes dá, respeitam essas fases, porque senão não colhem. «Os Comedores de Batatas», de Van Gogh, impressionou-me imenso, porque me conduziu a imagens que eu tinha presenciado na casa do meu avô, onde os obreiros comiam do mesmo prato. Um prato grande com batatas ou bacalhau e garfos de ferro. Quem come as batatas sabe o trabalho que teve até que elas cheguem à mesa. Há que semeá-las para depois ver sair a rama. Arrancada, pode dar origem a duas ou a dez batatas, com vários tubérculos e raízes de formas estranhas. Quando grelam, ganham contornos fantásticos, que uso no desenho.
De Vieiro parte também a reflexão sobre a dor que emana da sua pintura?
— Entre o nascimento e a morte, há fases da vida que têm a ver com o sofrimento ou a alegria. Isso é comum a todos os homens. Provavelmente, comecei a aperceber-me disso em Vieiro.
Há vida, (com)paixão e morte no seu trabalho, como se se tratasse de uma «via crucis»…
— Fui educada catolicamente. Interiorizei valores ligados à caridade, à generosidade, à partilha. Esse é o lado positivo do catolicismo: a tolerância. Apesar de a Igreja não ser muitas vezes tolerante. Talvez, por isso, a minha pintura não chegue a ser uma pintura de revolta. Olho para as pessoas dos meus quadros com uma grande empatia, compaixão mesmo, porque viveram situações que me tocaram.
É vivencial a sua pintura mais recente?
— As figuras que pinto partem da vida, do dia-a-dia. Encontro-as por lá, em Trás-os-Montes. Quando converso com mulheres de 60, 70 anos, trabalhadoras de uma classe que viveu mal, todas elas falam de uma infância em que passaram fome e andavam descalças. Hoje, acham que vivem num paraíso. A situação económica e social mudou muito. Havia, por outro lado, um domínio do masculino sobre o feminino. Não tinham poder de decisão, nem para cortar o cabelo sem autorização do marido. Ganharam, entretanto, tal força que às vezes chego a ter pena deles.
As mulheres adquiriram valores masculinos?
— Há mesmo um enfraquecimento do homem. A imagem masculina deixou de ser autoritária para se tornar mole, frágil. No campo e na cidade. O que também pode ser negativo, porque os pais delegam nas mulheres a educação dos filhos. E as crianças precisam de um pai forte, o que não quer dizer prepotente. As mulheres sempre tiveram um grande poder, o da maternidade, a que se acrescenta hoje a emancipação económica.
Os homens da sua pintura têm sempre uma aparência frágil…
— São pensativos, concentrados no seu trabalho, quase sempre silenciosos, ausentes. O olhar delas põe problemas. Tenho encontrado nestas minhas andanças por Trás-os-Montes mulheres com muita personalidade e força.
Mas há muitos rostos macerados ao longo da sua obra…
— Ou sulcados. Até uma certa altura, pintei mulheres com vidas feridas, exploradas. Neste momento, não as encontro. Comecei a fazer estes trabalhos, ligados a uma cultura rural, em 1982. Passados 18 anos, essas mulheres já estão a envelhecer. Muitas ficaram viúvas. As mais novas não têm esse tipo de relações com os maridos. Hoje, elas andam de t-shirt, têm contas no Banco, já foram à Suíça ou à Alemanha, vão ao café e exibem um à-vontade ao lado do seu homem quando montam em cima do tractor. Este país mudou assim, radicalmente. O que não quer dizer que haja mais cultura. Isso não. Não se vendem jornais nas aldeias, não se lêem livros. Os conhecimentos são ao nível da escola primária. Estas pessoas não querem saber mais, mas ter mais. Essa mentalidade é perigosa. Tenho, por outro lado, mais sossego no meu «atelier» do que no campo. Portugal está com muito ruído. Na cidade, há uma grande agressividade e na aldeia não se encontra paz. E quem era estúpido continua estúpido. As pessoas de idade sentem cada vez mais que o mundo não lhes pertence.
Foi encontrar em Trás-os-Montes o cromatismo, a tragicidade e a humanidade. Curiosamente, esse mesmo espaço traz-lhe agora a solidão.
— E uma grande preocupação. Estou a pintar o lado mais salvador de tudo aquilo. Há uma inocência nas crianças que acreditam que quando se vestem de anjos são anjos. Quero reproduzir, por sua vez, o lado verdadeiro de quem regressa às suas terras, às suas raízes, os hábitos da comunhão das peregrinações e de encontro nas festas. Estes quadros têm muito a ver com essa relação entre o sagrado e o profano. Nestas minhas visitas a algumas terras dos concelhos da Terra Quente, tenho-me apercebido de que há igrejas com uma estatuária religiosa lindíssima. Tento transmitir essa atmosfera, aquele sentimento que leva as pessoas a serem boas. Quando se fazem promessas — deixando de lado possíveis interpretações obscuras — existe uma dimensão de aperfeiçoamento. Estas pinturas têm a ver com isso.
Talvez seja por isso que os seus anjos são simultaneamente iconográficos e protectores…
— Protectores ou humanos. Não são irreais. Toda a minha pintura passa por uma relação muito forte com a terra.
Há um envolvimento do corpo com a pintura?
— De tal maneira que, por vezes, preciso de estar descalça. Pinto assim. Quando estou em contacto com a terra, por exemplo, a regar uma horta também o faço. É uma sensação extraordinária. Beber água pura é, porém, cada vez mais difícil. As pessoas atingem, por um lado, graus de bem-estar que nunca tiveram, sobretudo, no Norte, e ao mesmo tempo destrói-se tudo: numa vinha encontramos cadáveres de automóveis! Levam-se para lá sem a mínima noção de que aquilo não se deve pôr na natureza. Dá-se instrução, mas não se transmitem valores, deveres cívicos. A classe endinheirada recente não se apercebe disso. Os velhos, sim, sabem o que uma árvore custa a crescer e que pode ser destruída em cinco minutos.
Alguma vez sentiu que o lado estético se sobrepôs ao conteúdo do seu trabalho?
— Não. O lado estético não me preocupa tanto. O ético, sim.
Mas há uma harmonia, ainda que dissonante?
— Às vezes. Interessa-me, em primeiro lugar, estar informada sobre o que se faz em centros de boa pintura. Desse modo, vou tendo uma relação com pintores de quem gosto, mortos ou vivos. Ultimamente, quando me desloco ao Louvre, fico sempre extasiada com os retratos funerários do Fayoum. São de uma actualidade extraordinária. Tocam-me tanto como um Giotto ou um Leonardo da Vinci. É óbvio que me preocupo com a qualidade formal, mas detenho-me sempre mais com o conteúdo.
Há uma maior narratividade?
— Em certo sentido, talvez. Depende um pouco do universo de quem observa. Há, de alguma forma, uma mesma história que se prolonga por muitos quadros com personagens diferentes.
Essas histórias são também um pouco a sua história?
— Claro que é a minha história, ligada a uma vivência muito forte da infância, relacionada com situações tão paradisíacas como terríficas. Nada se esconde nas aldeias, a não ser a sexualidade.
Do ponto de vista familiar, a sua experiência foi muito forte?
— Éramos uma família de vários irmãos. O meu avô, que era lavrador, tinha muitos filhos. Vivíamos sem riquezas, com o essencial, e o dinheiro, quando o havia, servia para comprar terras. Talvez por isso eu viva sem luxo na aldeia por me sentir, desse modo, mais próxima dessa memória e de um ideal que eu persigo. Essa casa estava cheia de trabalhadores, cujas histórias me enriqueceram, me preencheram.
O mundo urbano nunca a interessou?
— Já tentei observar a cidade, mas as pessoas que lá encontro não me dizem nada. O passado delas não toca no meu passado. Receio dizer que tenho uma missão a cumprir, mas às vezes sinto que sou atraída para aquelas terras e para falar daquelas figuras. Continuo a tentar captar o que pode relacionar-se com uma identidade do meu país.
O rosto da sua mãe não está um pouco nos rostos dessas mulheres que vai pintando?
— Raramente. Quando é a minha mãe é mesmo ela. Muitos dos rostos que desenho pertencem a mulheres marcadas, que já viveram muito e nunca trataram a pele com cremes. Essa relação com o tempo fascina-me: lê-lo na cara dos outros, no olhar e nas rugas, como quem descobre a idade das árvores nas suas cascas. Uma cara aos 60 anos, esticada por um cirurgião plástico, fica sem passado.
Há qualquer coisa que lhe escapa das mãos, que a transcende quando pinta?
— Não tenho consciência disso. Há uma série de conhecimentos, que talvez eu transmita às pessoas, não sei, vinda de uma reflexão sobre a vida. Tenho períodos de uma grande ascese em que me apetece cortar com tudo. E corto, desmarco exposições, isolo-me. Depois sinto-me culpada porque não respondo às cartas, aos convites. Quando se começa a ser conhecido, julgam que temos capacidades múltiplas. Serei sempre mais útil à sociedade se estiver a pintar.
Teve também momentos em que partiu à procura de outras culturas…
— As viagens enriquecem-me sempre. África, conheci-a em criança (há 12 anos fui a Cabo Verde). A minha memória é a de um espaço muito amplo, cheiros muito fortes, trovoadas assustadoras, uma grande liberdade. Andei numa escola de freiras em Moçambique da qual recordo, sobretudo, o relacionamento com a gente de cor. Quando eu era miúda, havia, aliás, sempre um tecto para acolher os ciganos. Isso fez-me muito bem. No Japão, estive um pouco como turista. Não senti essa tranquilidade normalmente associada ao Oriente. À excepção dos conventos, tudo se move a uma grande velocidade.
Coexistem na sua pintura atmosferas de sereno terror e de apelo à transcendência. Como nas «Geografias do sagrado»…
— Há uma dimensão transcendente na dor.
É como, o seu Deus?
— Gostava de lhe responder de uma forma simples, mas não consigo. Creio, mas em momentos trágicos, situações de grande injustiça, pergunto: «Onde está Deus?» Ainda recentemente fui visitar um homem lá na aldeia com um cancro nos intestinos. Passado um mês, morreu. O que me espantou nele, foi a forma serena com a qual enfrentava a morte. Dizia-me: «Estou muito mal, mas olhe, Deus quer que eu morra, porque já fiz tudo. Criei os filhos, a minha Aninhas fica cá…, mas Deus quer levar-me. Ele que me leve». Este homem aceitava a morte com uma enorme serenidade, como algo muito natural. Nunca tinha estado com ninguém assim. E pensei: este é um ser bom, nada lhe pesa, não tem medo de ir para outro mundo.
Tem medo da morte?
— À medida que envelheço, cada vez tenho mais medo da morte. Se morresse agora, seria uma grande injustiça, porque ainda não fiz metade do que gostaria de fazer. E aquele homem com 72 anos aceitou, nem lutou. Era um crente a quem nunca conheci nada de mal. Ele sabia que ia para o Céu. As pessoas que acreditam num paraíso são felizes, porque não temem.
O seu Deus é o Cristo que pergunta «Pai porque me abandonaste»?
— Talvez. Cristo também não queria sofrer e por isso teve dúvidas. Os grandes sofrimentos trazem a dúvida. Mas há algo que não conseguimos controlar perante uma dor imensa ou uma fatalidade. Ainda há pouco tempo, houve um incêndio por cima do meu «atelier», no qual eu poderia ter ficado sem a maior parte dos meus quadros, aos quais estou ligada como se fossem pessoas próximas. Agarro-me a essas coisas, o que revela imperfeição da minha parte. Os santos não receiam nada. Há uma fragilidade tão grande em nós…
Já perdeu um filho. Conhece, por isso, a injustiça, o sentimento de absurdo…
— É um pânico diferente. Os quadros não são pessoas. Um ser humano é insubstituível. Perder um filho, um pai ou uma mãe dir-se-ia uma coisa única. O entendimento que tenho do sofrimento dos outros passa pela minha vivência de momentos de grande dor. São lições de vida que nos permitem chorar ao pé de outra pessoa. Choramos também com as nossas mágoas. Choro por eles e por mim.
Há uma fase da sua pintura que acusa essa perda?
— Sim, na década de 80. Morreu o meu pai, tive uma doença muito grave. Perdi um filho. Pintei tanto nessa época…
Havia violência nesses quadros, hoje existe uma maior dramaticidade…
— Talvez…, o que tem a ver com a maturidade. Era um sofrimento que eu vivia na pele. Hoje sei o que quero, tenho uma maior capacidade para conseguir o que pretendo, mas sem a mesma força física. É uma idade de perguntas e de decisões.
Os quadros são um prolongamento da sua memória?
— E da minha cultura, de mim. Não do meu corpo, mas da minha consciência enquanto pessoa. Se desaparecerem, com eles vai-se algo que pus cá fora e me ajudou a entender o mundo. Morro, mas eles ficam.
Há uma necessidade de imortalidade?
— Não os fiz para me imortalizar, mas sei que isso poderá acontecer, porque os quadros ficam em lugares públicos, em colecções privadas. O artista morre, mas permanece a obra.
A partir da década de 9O, há um maior lirismo?
— O lirismo talvez tenha a ver com uma vida afectiva mais estabilizada. A minha pintura mudou, desde então. A relação com o meu marido (Pedro Caldeira Cabral) passa pela harmonia, temos um grande entendimento como artistas. O Pedro é muito mais culto do que eu, muito exigente no seu trabalho, muito sério, e isso veio enriquecer-me. O meu saber provavelmente tem uma origem intuitiva, emotiva. Nunca li muito porque se calhar observei muito. Muitas vezes, começava a ler e punha de lado, porque o que eu queria era olhar lá para fora.
A sua pintura é corajosa porque não tem receio de perturbar…
— Vic Willing, o marido da Paula Rego, um homem muito inteligente e um grande artista, disse-me, um dia, quando já estava muito doente: «Tens uma coisa em comum com a Paula, não sentes medo». A vulnerabilidade é muito importante na arte.
Ambas têm a coragem de desvendar o secreto. Paula Rego fá-lo na intimidade do espaço doméstico com uma imensa crueza. Em Graça Morais tudo é mais delirante, catártico. Há histórias que atravessam a vossa pintura.
— A Paula é, para mim, um guru. Tenho uma grande admiração por ela como artista e mulher. Pela generosidade e pela coragem. A minha pintura não tem, no entanto, nada a ver com a dela.
Mas tocam ambas em traços de indignidade e de dor…
— De algum modo, sim. A pintura da Paula é sempre incómoda. Ela não tem medo, fala dos fantasmas, os seus e os dos outros. Considero-a uma extraordinária pintora deste século. Se eu fosse pequenina, diria que gostaria de ser como ela.
Tem uma função social a pintura?
— Não estou a ver o mundo sem ela. As pessoas querem conhecê-lo por meio da pintura, porque há uma necessidade de transcendência, de fuga a um lado muito terreno, de uma certa pacificação espiritual e dos sentidos. É raro ver gente com um ar infeliz nos museus. A minha geração não frequenta as igrejas. A relação com o sagrado passou então a estabelecer-se com a pintura, mais do que com a música.
Que sente quando termina uma obra: embriaguez, vazio, medo?
— Medo, não. Quando acabo um quadro, fico aliviada e penso assim: este está resolvido, tenho de começar outro. É uma cadeia que nunca acaba. Preciso dela. Quando ando em viagens, desenho, faço diários. Sempre houve essa necessidade. São apontamentos muito directos entre a cabeça e a mão. Recentemente, vi os de Barceló, no Centro Rainha Sofia, e achei-os interessantíssimos. Na grande pintura, sente-se a presença do Homem. Como no caso de Picasso. Tenho a sensação de que aquelas telas nunca envelhecem…
Picasso é uma das grandes referências da sua pintura.
— Durante muitos anos, não o entendi. Depois de ter ido para Paris e de ver as suas obras ao vivo, passei a considerá-lo o grande criador do Século XX.
Onde fica a sua interioridade, quando pinta?
— Um quadro é sempre o lugar da minha maior intimidade. Estou lá toda. Tudo o que absorvo do exterior passa primeiro por dentro de mim, pelas minhas vísceras, pela minha cabeça. E depois sai e fica numa tela.
Há na sua pintura uma alegria trágica ou uma tragédia alegre?
— Isso tem a ver com a minha maneira de ser. Nós, os portugueses, temos uma certa contenção nos sentimentos. Isso nota-se na literatura. Na pintura, só nos últimos anos é que começaram a surgir artistas que se debruçam sobre a nossa identidade. Sou uma das precursoras da exteriorização daquilo que somos enquanto povo. Tenho-me preocupado em fazer uma pintura que tenha a ver com a ruralidade sem ser ilustrativa. Em Espanha, tudo é feito com o máximo do que as pessoas têm dentro delas. Rebentam de alegria ou de dor. Gritam. Nós, não.
Unamuno dizia que somos um país do suicidas. Temos a melancolia, mas o grito é baixo. Eles gritam com sangue…
— De alegria e de tristeza. Picasso só poderia ser espanhol. Miró, Tàpies, Barceló são pintores da matéria. Há algo de muito sensual, sentido. O período negro de Goya — tão trágico — é da arte mais moderna que conheço. Talvez a minha pintura tenha a ver com essa forma de as pessoas se esconderem em Portugal.
Que é, para si, ser feliz?
— Os estados de felicidade são tão diversos… Acabo por ser uma pessoa feliz porque faço o que gosto, dentro de uma grande insatisfação. Exactamente como as crianças. Quando pinto, fico nessa espécie de estado de inocência. Mas a maior parte dos momentos que se vive são de uma grande inquietação e angústia. Tenho alguns medos, embora com períodos serenos. Em relação à criação, o meu estado dir-se-ia de perturbação.
Tem medo de quê?
— Da doença, das fatalidades, da agressividade dos outros, de perder quem se gosta. Ao mesmo tempo, sou confiante. Tenho, sobretudo, medo do sofrimento. A pintura ajuda-me a superar isso tudo. Mas não pinto por terapia.
Há momentos de delírio no processo criativo?
— De tal maneira que, quando estou muito envolvida com o que estou a pintar, tenho dificuldade em conduzir um automóvel, em cozinhar, em me ajustar a uma relação com a realidade. Muitas vezes é entre o sono e a vigília que encontro soluções para quadros, como se estivesse a falar com outra pessoa. Mas não me levanto para pintar.
Salta dos pesadelos para a tela?
— Não, não pinto o que sonho.
Pinta sempre em silêncio?
— Sempre. Já nem suporto a música, porque me desconcentra. E tenho de estar só.
A sua pintura luta contra este estardalhaço proclamativo ao nível da informação e da publicidade?
— Gostava que a minha pintura fosse um espaço de oposição a esse barulho e a essa arte do espectáculo, hoje tão apoiada pelos governantes. Vive-se nessa euforia de tudo o que chama a atenção e pode servir interesses do Poder. É mais fácil apoiar espectáculos e exposições de artistas estrangeiros, que ficam caríssimas — por outro lado, ainda bem que vêm — do que observar, entre nós, quem está a fazer um trabalho profundo. A maior parte dos escritores tem de dividir o seu tempo entre diversos ofícios e não tem dinheiro nem tempo para escrever; raramente o Estado compra quadros a pintores portugueses. A mim, não me compra nada há imensos anos. Como tenho um certo reconhecimento, as pessoas convencem-se de que sou muito apoiada. E não. O Ministério da Cultura tem investido, mas só em dois ou três. Não concordo com os subsídios porque se criam situações de dependência, mas com uma política de aquisição de obras.
Caeiro escreveu: «Porque sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura.» Que a indigna mais no que vê?
— A grosseria, a ignorância e, sobretudo, a agressividade e a intolerância de pessoas que se julgam uma coisa e são outra.
Aflige-a que os seus quadros sejam comprados por pessoas que não os entendem e os adquirem apenas por serem um investimento?
— Prefiro que vão para pessoas que fazem sacrifícios para os comprar apenas porque precisam da minha arte. Gostava que não os pendurassem na parede só por razões decorativas. Queria que os quadros mexessem com elas, que as inquietassem, que houvesse diálogo. Mas eles têm um valor de mercado, essa é a realidade.
Que palavras ou ideias gostaria de ver associadas à sua pintura?
— Gostaria que a minha pintura desse às pessoas o lado credível da vida, que fosse ao encontro de um imaginário que lhes fizesse bem. Que se tornasse imprescindível. Como ela é para mim.


«Muitos dos rostos que desenho pertencem a mulheres marcadas, que nunca trataram a pele com cremes. Essa relação com o tempo fascina-me: lê-lo na cara dos outros, nas rugas, como quem descobre a idade das árvores nas suas cascas. Uma cara aos 60 anos, esticada por um cirurgião plástico fica sem passado»







Ana Marques Gastão (Portugal, 1962). Poeta, redactora cultural e crítica literária do Diário de Notícias. Autora de livros como Terra sem mãe (2000), Nocturnos (2002) e A definição da noite (2003). Contacto:amgastao[arroba]dn[ponto]pt


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