O Sagrado e o Profano: Graça Morais no Convento de Santo António, Loulé



Inaugura no próximo dia 14 de Julho, pelas 19h00, no Convento de Santo António, a Exposição de Pintura “O Sagrado e o Profano: Graça Morais no Convento de Santo António, Loulé”.

Esta Exposição é composta por obras que fazem parte da colecção da Fundação Paço d'Arcos.



Sophia e o Anjo, 1987
Acrílico s/papel, 153 x 122cm

Desejo através dos meus quadros ter consciência de quem sou, questionar a minha existência, afirmar a minha identidade construída através de sinais, símbolos, imagens, memórias de uma realidade que me liga ao universo.

Com a minha pintura quero construir um espaço diferente e único, onde possa defender a minha personalidade nestes tempos de grande massificação. A reflexão que faço do mundo está toda nos quadros que pinto. O quadro é um território íntimo, de magia, onde a linha e a cor, o espaço e a luz aparecem carregados de profunda espiritualidade.

Graça Morais, 17 de Julho de 2000, Folha de um Diário

Máscaras de Graça Morais

Máscaras (X), 1988
Acrílico, carvão e sanguínea sobre papel, 52 x 72cm

A artista reúne aqui, nos temas e épocas de realização deste conjunto de peças, períodos significativos do seu trabalho como pintora e como desenhadora. As obras apresentadas constituem parte igualmente significativa da colecção de arte da Fundação Paço d’Arcos. Finalmente, o lugar que as acolhe, uma Igreja associada ao antigo Convento de Santo António, em Loulé, intensifica o sentido de interrogação e perplexidade, desafio e aceitação de contrários que deu sentido ao projecto de Graça Morais no contexto da criação de cada uma destas obras.

Sendo hoje um espaço sem culto, a referida Igreja continua a repercutir, nas suas formas arquitectónicas e escassos elementos decorativos sobreviventes à voragem dos séculos, a imagem de lugar sacralizado. Face a esta força primordial do espaço tudo nos conduziu para que, no contexto da vasta quantidade de obra de Graça Morais integrada na Colecção Paço d’Arcos, escolhêssemos um número vasto mas coeso de peças, cuja lógica nos faz percorrer a prática e o pensamento da artista desde os anos de 1980 ao presente século.

O Interdito Transfigurado 1987
Acrílico s/ tela, 146 x 114cm

A temática revela períodos de forte inquietação e reflexão da artista a propósito do fenómeno religioso no mundo actual. Evidentemente, não estamos perante obras religiosas, passíveis de integrar sem polémica um espaço de culto católico. Em cada momento as referências históricas e iconográficas são subvertidas quer no jogo interior das imagens quer no jogo entre as imagens e os títulos. Nas suas composições cruzam-se e sobrepõem-se, fundem-se, a iconografia religiosa e pagã, a história da pintura antiga e actual, a intromissão do quotidiano contemporâneo, a natureza animal e a humanizada, o lugar que concede à Mulher e a sua própria imagem como elemento auto-biográfico – no seu conjunto, estas pinturas e desenhos, constroem um discurso carregado de simbologias complexas, que nos permitem múltiplas soluções de descodificação.

Desenho e pintura convivem nas obras de Graça Morais de um modo estimulante. Muitas vezes desafiando-se e colaborando, mantendo identidades diversas mas construindo um discurso coerente. Há histórias implícitas em cada imagem – são narrativas religiosas ou ritualizadas, auto-biográficas, do quotidiano rural arcaico ou mais raramente (e recentemente) introduzindo elementos urbanos. Porém, em cada momento, a tensão formal, entre linha e mancha, traço e cor (coincidindo ou descoincidindo) e também o desejo de síntese dos elementos narrativos torna mais complexos os planos, os espaços e os tempos – de tal modo que cada obra, fazendo-se de uma acumulação de acções deve ser vista, de facto, como a captação de um instante extremamente denso da vida.

Esse instante dramático, capturado em cada imagem (imagem de imagens, tempo de tempos, espaço de espaços...), exibe uma intensidade que nos remete para um expressionismo erudito e histórico mas também popular e arcaico; e exige de nós uma identificação quase física com o motivo, como se, por reflexão e forçadamente, fossemos incluídos na superfície da tela ou do papel.

Lamento da Gaivota à mãe de Vasco da Gama, 2005
Carvão e pastel sobre tela 178 x 208cm

Ouve-se a dor da mãe de Vasco da Gama, transfigurada em gaivota e desumanizada na sua angústia (Lamento da Gaivota à mãe de Vasco da Gama, 1985), sente-se a tensão dos pesos opostos (a razão apolínia e a desrazão dionisíaca) desequilibrando a balança que o Anjo segura (Sophia e o Anjo, 1987). Em Salomé (1987) e Judith (1987) duvidamos das cabeças masculinas que deceparam: sente-se a sombra, quer da troca dos protagonistas quer da consumação, por interposição do mito pagão de Leda, de uma violação não consumada. Nas cenas da Paixão de Cristo, a sobreposição de tempos e corpos, atribui uma forte dimensão de erotismo ao sofrimento (Interdito Transfigurado, 1987 ou O Mistério do Último Instante, 1987, por exemplo).

A inquietante ambiguidade do ser masculino/feminino, detentor de um poder simultaneamente religioso e político que Graça Morais fixa em Mapas e o Espírito da Oliveira (a obra mais antiga da selecção, 1984 ) parece presidir ao conjunto de todas as outras cenas. Do mesmo modo que, na longa série de pinturas sobre papel (O Sagrado e o Profano, 1985-86), parece estar contido o desenvolvimento e complexificação das futuras projecções sobrepostas de tempos, sentidos e espaços de que vimos falando.

Graça Morais concretiza um re-contar de histórias universais eliminando as fronteiras de cada uma delas, não simplificando o mundo da narrativa e da pintura mas enriquecendo-o. Para tal coloca-se muitas vezes atrás de uma máscara e oferece-nos também um lugar atrás das máscaras que pinta: não para se esconder nem para nos escondermos dos outros e do mundo, apenas para o vermos melhor.

João Pinharanda (Comissário)
Bragança, 30 de Junho 2012



A Exposição vai estar patente ao público até 15 de Setembro, nos seguintes horários: de Segunda a Sexta, das 14h00 às 20h00, Sábados e feriados, das 10h00 às 14h00. Encerra aos Domingos.

Acesso: Junto à estrada para Boliqueime, no prolongamento da Rua de Nossa Senhora da Piedade.
Contacto para mais informações: Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara de Loulé: Tel. 289 400 600 E-mail: cmloule@cm-loule.pt



Tapeçarias de Portalegre | Centro de Arte Contemporânea Graça Morais


Nós na Arte - Tapeçaria de Portalegre e Arte Contemporânea
Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Inauguração hoje, 18 de Maio 2012, às 21:30 horas


Recordo a minha primeira visita à manufactura de Portalegre, em finais dos anos 80. Era a primeira vez que um cartão de minha autoria se transformava numa tapeçaria de enorme beleza. Chamei-lhe Amanlis e é uma peça de grandes dimensões.

Foram feitos sete exemplares dos quais alguns podem ser vistos na Câmara Municipal de Lisboa (Campo Grande), na Reitoria da Universidade Técnica de Lisboa, na Sede do Montepio Geral e na Fundação Mário Soares.

Reparei que o grande segredo da tapeçaria reside no trabalho minucioso de interpretação e ampliação do meu cartão, feito em primeiro lugar pelas desenhadoras, como se fosse um mapa, com milhares de apontamentos e números, registando no papel milimétrico à escala 1/1 o desenho e as manchas de cor.

Senti-me surpreendida e maravilhada perante a diversidade de cores e tonalidades que as tecedeiras, de uma forma hábil e precisa, manipulam na construção faseada, diariamente, até à conclusão da obra. É um trabalho que resulta de grande conhecimento e experiência técnica, conjugando a habilidade manual com um esforço físico que exige muita tenacidade e concentração. Mais tarde, nos anos 90, foram produzidas mais tapeçarias, a partir de sete novos cartões da minha autoria.

Outra realidade que me toca directamente é o facto de constatar que toda a manufactura está entregue a mulheres, desde a direcção à produção, passando pelas desenhadoras e tecedeiras. Dir-se-ia que os nós de fio de lã se transformam nos laços afectivos que me unem as estas mulheres.

Ao apresentar todas as tapeçarias baseadas nos meus cartões, neste Centro de Arte Contemporânea, sinto uma enorme alegria em poder contribuir para a divulgação e valorização deste projecto cultural que constitui uma actividade inovadora e dinamizadora do nosso património artístico contemporâneo.


Graça Morais
Maio de 2012

Anunciação
200x140 cm

O Canto do Cisne e as Pombinhas da Catrina
146x160 cm

O Sagrado e o Profano
200x270 cm

Tapeçarias disponíveis no catálogo da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre




O Museu da Presidência da República leva aos principais equipamentos culturais da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, até 30 de Setembro próximo, a exposição Nós na Arte – Tapeçaria de Portalegre e Arte Contemporânea.

Agregando em rede os Museus do Douro, Lamego, Côa e Abade de Baçal, o Mosteiro de Salzedas e o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, esta exposição reúne centena e meia de tapeçarias de Portalegre e cartões originais para tapeçaria, alguns inéditos, provenientes de várias colecções públicas e privadas.

O Museu do Douro e o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais acolhem, respectivamente, a obra de Nadir Afonso e de Graça Morais. Estes núcleos, em nome próprio, reflectem a forte ligação de dois dos mais conceituados artistas da região à tapeçaria. Dedicado também só a um artista – Almada Negreiros, o núcleo do Museu do Côa expõe pela primeira vez no seu conjunto as tapeçarias concebidas a partir dos frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa. No Museu do Abade de Baçal, percorrem-se os diferentes movimentos artísticos e correntes estéticas do século XX, num diálogo entre as obras da colecção permanente e as peças seleccionadas. Esse mesmo diálogo está presente também no Museu de Lamego, onde se cruzam as tapeçarias flamengas do séc. XVI, tesouros nacionais, com tapeçaria histórica portuguesa tecida em Portalegre a partir de cartões originais, fruto de encomendas para grandes edifícios públicos do Estado Novo. Por último, no Mosteiro de Santa Maria de Salzedas apresentam-se algumas obras emblemáticas de artistas internacionais que elegeram a Manufactura de Portalegre para a produção dos seus trabalhos.

Apesar de cada um destes núcleos permitir uma leitura autónoma, a junção dos seis espaços dá conta da riqueza e da diversidade deste património, afirmação de uma especificidade cultural e testemunho da capacidade de inovar na tradição. O discurso expositivo, ao mesmo tempo que ilustra os mais de 60 anos de actividade da Manufactura de Portalegre, percorre os momentos mais significativos da história da arte contemporânea. E estabelece uma relação entre as obras seleccionadas e as colecções dos próprios equipamentos e o espaço arquitectónico.

Desde a sua fundação, em 2004, que o Museu da Presidência da República tem procurado, numa das suas vertentes programáticas, contribuir para a divulgação e promoção do património artístico e cultural português, enquanto expressão simbólica e material da nossa identidade colectiva. A exposição Nós na Arte – Tapeçaria de Portalegre e Arte Contemporânea surge na sequência natural de uma exposição organizada há dois anos no Palácio de Belém, sobre Tapeçaria de Portalegre e como resposta à estratégia de descentralização cultural, que tem levado o Museu a assinalar a sua presença em todo os concelhos do país, através de múltiplas iniciativas culturais.

in C.M. Bragança

Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Rua Abílio Beça, 105
5300 – 011 Bragança
(+351) 273 302 410
centro.arte@cm-braganca.pt
Google Map

Manufactura de Tapeçarias de Portalegre
Rua Dona Iria Gonçalves, Nº2
7301-901 Portalegre
(+351) 824 530 1400
Galeria
Rua da Academia das Ciências 2J
1200-004 Lisboa
(+351) 21 342 1481

'Na cabeça de Graça Morais está Trás-os-Montes', entrevista por Anabela Mota Ribeiro



“Falo pintando, desenhando. Falo como sei, daquilo que sei, só falo de mim. Quando falo do meu mundo, no fundo estou a falar de mim, não estou a falar de mais ninguém.” Na cabeça de Graça Morais está Trás-os-Montes. Ela e a terra não são uma só. Mas ela não se compreende sem a terra.”

Texto Anabela Mota Ribeiro Fotografia Adriano Miranda

No nordeste transmontano, sem transição, passa-se do calor que faz a fruta amadurecer para o frio das estradas cobertas de geada. É lá que fica o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, desenhado por Eduardo Souto Moura e inaugurado em Junho de 2008. O projecto, em Bragança, é uma forma de regresso à terra, de pertença a um lugar e a um modo de ser. Graça Morais, que vive entre Lisboa e Trás-os-Montes, de certa maneira, nunca saiu de lá. O centro tem em permanência obras suas, além de exposições temporárias (até Janeiro, desenhos de Graça e esculturas de José Rodrigues).
Mas foi no Porto que nos encontrámos para a entrevista. O pretexto era a exposição que pode ser vista até meados de Novembro na Cooperativa Árvore, A Caminhada do Medo, e uma série de desenhos e um painel de azulejos que em breve estará em Mirandela, num centro de hemodiálise, e que por ora está na Galeria Ratton, em Lisboa.
Graça Morais tem o cabelo embranquecido. O corpo ganhou formas redondas. Parece-se cada vez mais com as mulheres que habitam os seus quadros. O traço tem o vigor de quem diz que chega mais rapidamente às coisas pelo desenho.

Fale-me dos seus medos infantis.
Nasci numa aldeia onde não havia electricidade. Na cozinha havia candeias e candeeiros a petróleo; quando íamos para a sala, levávamos o candeeiro a petróleo, quando íamos para o quarto, outro candeeiro. Tudo fazia sombras. O meu avô tinha oito filhos, a minha mãe tinha seis filhos, a família era muito grande, com mais tios que entravam. Os serões eram feitos à lareira, como em quase todas as casas transmontanas, sobretudo nas de lavoura. E contavam sempre histórias terríveis, de lobisomens, de bruxas. Ao mesmo tempo, a guerra, que ainda estava muito presente. Nasci em 1948. A minha mãe casou em 1945. Havia pessoas que falavam da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Civil de Espanha.

Como é que essas duas guerras chegaram a uma aldeia como o Vieiro?
Penso que eram as notícias da rádio. Lembro-me de termos rádio, o único da aldeia, na casa da minha mãe. Dois ou três amigos do meu pai iam lá para casa ouvir o relato do Porto ao domingo. As pessoas ficam transformadas, berram, bebem. Ainda hoje detesto ouvir relato.

A dois passos da fronteira, a Guerra Civil de Espanha, fratricida, estava mais próxima.
Era mais próxima que a Grande Guerra. Cresci a ouvir o medo da guerra e o medo dos espíritos, das almas do outro mundo. Falava-se muito das dificuldades, da fome. “Este ano foi um ano mau”. “Lá foi o vinho”. “Lá foi o azeite”. Trás-os-Montes é uma região em que se trabalha muito contra a natureza.

Contra a natureza? Toda a sua pintura parece uma exaltação da natureza.
A natureza é muito adversa.

“Natureza Madrasta”, era assim que se dizia?
Isso mesmo. Tínhamos em casa um oratório e quando havia grandes trovoadas, no mês de Junho, que levavam o vinho, os homens que estavam na rua vinham lá para casa rezar. Os homens e as mulheres. Rezavam e choravam na sala de jantar – que quando era criança me parecia uma sala enorme, e que hoje é uma sala normal, com o tecto pintado de azul.
Fica esse sentimento do medo da natureza. Dos lobos. Da escuridão. Ainda hoje não consigo dormir sem uma luzinha, em casa, nos hotéis.

A sua casa, era rica no contexto daquela região?
Não propriamente. Sou filha de uma mulher a quem se pode chamar “a herdeira”. A minha mãe era a filha mais velha de oito irmãos. Foi educada por uma madrinha e por uma tia, e foi herdeira dessa madrinha e dessa tia.

Por que é que não foi educada pelos pais?
O pai vivia ao lado, numa casa enorme. Chamava-se Casa Grande. O meu avô era um lavrador com muitas propriedades, mas ele próprio trabalhava a terra ao lado dos obreiros. Sempre os tratou com cabrito. Dizia-se muitas vezes: “O Pinto estraga os obreiros porque os trata bem demais”. E ele respondia: “Mas quem me faz a casa são eles”. Era republicano, muito generoso.
A mãe da minha mãe foi sempre viva. Mas nas aldeias havia o hábito de as madrinhas, quando não tinham filhos, pedirem um menino para fazer de filho. “Manda-me um dos teus filhos”. Um dos meus irmãos foi criado pelos padrinhos em Freixiel. E a minha mãe foi filha dessa madrinha, e do padrinho, e da tia. A minha mãe vivia numa parte da casa, connosco, e na outra parte vivia o meu avô com os tios. Eu tanto estava na nossa parte da casa como estava na outra parte, cheia de trabalhadores, e de filhos, e netos.

Viveu sempre com uma família alargada.
Muita gente a entrar e a sair. E muitos cães e gatos. Por isso é que gosto tanto de pôr cães nos meus quadros. Eles têm um entendimento do mundo e de nós próprios, só lhes falta falar.

Peço estes pormenores porque tudo isto transparece nos seus quadros. É a matéria-prima essencial a partir da qual constrói a sua obra. Por isso é importante perceber quais são as referências, como é que aprendeu a olhar, o que é que viu quando começou a olhar.
Está a dizer bem. Nem eu me apercebia, nem ninguém se apercebeu, de como a infância foi tão fundamental naquilo que faço. Tive a sorte de nascer naquela pequena aldeia. Havia uma estrada em terra que ia para Vila Flor, que ainda não era bem estrada. Quase ninguém tinha automóvel. Como o isolamento era total, descobri o mundo a brincar nas fragas, nos lameiros, dentro de uma oliveira. E muitas vezes me questionava. Via aquela gente a andar de um lado para o outro. As mulheres pareciam formigas, os homens sempre muito viris. Ao fim do dia, preguiçosos, vêm conversar para a rua. E elas continuam a trabalhar, a fazer a comida.

A indolência nunca é delas?
Nunca, é sempre dos homens. Quando vou à aldeia reparo: quem está sentado a ver passar os carros na estrada, são homens. E falam pouco. As mulheres nunca estão na rua sentadas a olhar, têm sempre que fazer.

As mulheres, falam mais?
É uma particularidade das mulheres, serem mais solidárias e confessarem-se umas às outras. Contam mais as suas preocupações, as suas vidas. Todas se queixam, ninguém está bem. Devem ter razões para se queixar, mas aquilo é uma forma de se consolarem mutuamente. É aquilo que se faz quando se faz terapia de grupo. Nunca fiz, mas calculo. Ali é uma coisa natural.

Nessas conversas não se celebra a vida. O registo é o do consolo. Não há uma exaltação do estar vivo e dos elementos da natureza. Se olhar para a sua obra, há uma fase em que ela é mais exaltada. Depois, vai ficando mais austera, como essas pessoas.
Depende. A série que tenho em exposição [na Cooperativa Árvore] é muito dura. Revela a certeza de que estou num mundo em grande transformação. Esse caos, nunca o senti quando era pequena.
(Sou uma pessoa que vou aqui, vou ali, depois apanhe-me. [riso]) Lembro-me que na Páscoa estreava sempre uns sapatos novos, um vestido novo e um casaquinho novo. Íamos à Missa de Ramos abençoar o ramo da oliveira. Aqui há um quadro com uma árvore que tem uns cabritos pendurados, e os ramos da oliveira cheios de rebuçados, bolacha Maria e goivos, florzinhas; é Páscoa. Vivíamos intensamente esses dias que tinham a ver com a transformação das estações do ano e com a ritualização, sobretudo ligada à religião católica. É uma imagem de inocência e beleza, ver os foguetes da Senhora da Assunção a rebentar. Isto a cinco quilómetros de distância. Guardei esse lado do deslumbramento, do encanto perante a vida.

O seu imaginário é esse. Contudo, saiu relativamente cedo da aldeia, abriu-se para outras imagens.
Saí, com oito anos, acompanhei a minha mãe para África. O meu pai decidiu ir para Moçambique, tinha dificuldade em viver na aldeia. Comecei a ver outro mundo. Comecei a ler banda desenhada, a mascar “chicla”.

Em Trás-os-Montes não se dizia chiclete, mas chicla.
Sim. Havia compotas que vinham da África do Sul, milho cozido nas águas da chuva. Não frequentei a escola oficial, frequentei a escola da missão. A minha mãe era muito católica. Eram umas freiras com chapéus bonitos, engomados, da Ordem de São Vicente de Paulo. Eu, o meu irmão mais velho, que já morreu, o Zeca, e mais meia dúzia de crianças, éramos os únicos a frequentar essa escola. Tenho uma relação com os africanos de irmandade, de amizade. Passavam ao pé da minha casa, a mexerem-se, e chamavam pelo meu nome. Cantavam: “Gracinha-a-a”, com ritmo.

África, a sua cor e exuberância, contrastam com a contenção e o granítico de Trás-os-Montes. Estávamos a falar de elementos opostos e do que transparece disso na sua obra.
Ciclicamente também faço desenhos muito simples. Tenho de estar num estado de grande concentração e de grande paz para fazer estes desenhos. São pequenos ramos de oliveira, são ramos de amendoeira, são ramos de marmeleiro. Tenho um marmeleiro.

Fez recentemente desenhos de papoilas e cerejas que estão em exposição na galeria Ratton, em Lisboa.
Fui lá passar um mês, e o campo estava cheio de malmequeres, de cerejeiras. Essa celebração da natureza, tenho-a dentro de mim, e preciso de passá-la para o papel.

Fale-me da família do seu pai. O seu universo parecer ser mais dominado pelas mulheres do que pelos homens, ainda que eles apareçam, também.
Falo mais da minha mãe porque vivi mais com ela. Continua viva, tem 86 anos, é uma mulher de uma grande inteligência, humanidade e força. Sempre cresci rodeada da minha mãe e das suas seis irmãs.

Como é que se chamavam os irmãos? Os nomes eram diferentes dos que hoje se usam.
A minha mãe é Alda. Palmira, Belmira, Maria, Joana, Favelina, Carolino, João. Belmira não se usa, Palmira não se usa, Favelina, ainda menos.

A sua filha é Joana. Que é um nome mais deste tempo, e mais citadino.
É muito da geração dela, nasceu cinco dias antes do 25 de Abril. Gostava, e gosto, imenso dessa tia Joana, muito alegre. Era o contrário das outras.

Aqui ao lado estão a pôr a mesa para um almoço, ouve-se o barulho dos pratos. Numa casa transmontana, o silêncio é uma coisa que não existe. Há sempre um barulho de fundo, conversas, pessoas a ir e vir. Isto acabou por ser substituído pela televisão.
Durante o dia. As noites eram calmíssimas. Por isso é que às vezes até metia medo. Quando se ouvia o piar da grifa, a coruja, diziam: “Alguém vai morrer, anda a grifa no ar”. Mas é verdade, essa animação da família. E tudo fala muito alto, até para se fazerem ouvir. Cada um está a contar a sua história, a sobrepor-se, muitas vezes não está a ouvir o que o outro está a dizer. Há uma grande necessidade de contar, contar. Quando havia muita confusão, desaparecia. Ia para um sítio ao pé do cemitério (mas não era por ser o cemitério, nunca gostei de cemitérios, tenho medo da morte). Havia ali uma eira que estava cheia de palheiros, tinham uma forma bonita. Mais tarde fui encontrar esses palheiros no Van Gogh. Adorei Van Gogh através dos palheiros, através dos Comedores de Batata.

Que é um quadro com gente do campo, que, como diz o título, come batata.
Sempre vi na minha casa as pessoas comerem de um prato grande as batatas, os feijões, com garfos de ferro, e todos picavam naquele prato grande. Recentemente, quando fui à Holanda, voltei a ver os Comedores de Batatas, e tive uma emoção fortíssima: era Trás-os-Montes. É claro que nos holandeses essa cena foi antes do que vi na minha aldeia.
Mas fugia para esse lugar, e hoje, muita da minha pintura tem a ver com esse momento de pacificação da natureza e das pessoas, o fim do dia. Parece que estou a fazer a apologia do camponês pobre, mas não é. Aquele trabalho era feito com muita dureza mas também com muito amor. Aquelas caras começaram a aparecer na minha pintura. Não a dos homens.

Porquê?
Nunca me aproximei muito dos homens porque fui educada a não poder brincar com os rapazes. Apesar de ter quatro irmãos, eles próprios não queriam que brincasse com os outros rapazes.

Eles também não iam para a cozinha.
Nunca, nem faziam uma cama, nem pegavam numa vassoura. Podiam às vezes ajudar no campo. Mas eu tinha obrigações específicas, de ajudar na limpeza.

Os homens viviam sob uma outra campânula.
Nós é que vivíamos. Estou a referir-me a uma infância, quando tinha que obedecer a certas regras. Quando comecei a crescer e voltei à aldeia, aproximava-me daqueles homens que estavam na rua com verdadeiro pudor. E com as mulheres, não. Sempre ouvi as mulheres falarem abertamente. Abertamente, não… Em África as mulheres falam abertamente.

A líbido está mais à flor da pele em África.
Completamente. Quando andei na escola, em Moçambique, também não me apercebia disso. Mas as crianças cantavam muito, dançavam, riam-se com facilidade. Nós éramos crianças um pouco tristes, sempre com medo que a professora ralhasse. Quando voltei a África e a Cabo Verde, senti que as mulheres assumem a sua sexualidade com muita leveza, muita alegria.

Naturalidade.
Sim. Em Cabo Verde tinha 40 anos. Já me tinha divorciado. Mas em Trás-os-Montes, ainda hoje, as mulheres são muito reservadas, o mundo delas é muito escondido.

Nunca falou com a sua mãe sobre sexo?
Não. Ela não gostaria que eu falasse. O meu pai era muito mulherengo. Foi durante muito tempo filho único, teve um meio-irmão. Nasceu numa família de proprietários, gente instruída. Foi educado pela mãe e por uma avó, uma senhora severa, Ernestina Augusta, e pelo tio Carlos e pela tia Amélia, que eram professores primários. Monárquicos.

Esses nomes já nos dizem da sua veia monárquica.
Havia a bandeira da monarquia. Eu e o meu irmão Cristiano, quando queríamos brincar, pegávamos na bandeira, que púnhamos no terraço. Era uma casa onde havia livros, onde as pessoas eram tratadas por vossa excelência. O meu pai também era tratado por vossa excelência.

Quem é que tratava o seu pai assim?
As pessoas da aldeia. A minha família está naquela aldeia desde o século XVI. Quando ia passar férias a Freixiel, a casa da minha tia Amélia, com o meu irmão Cristiano, que foi o irmão emprestado para os tios (adoptaram-no como filho, foi o herdeiro deles), gostava imenso porque havia muitos livros. O que me custava era que aquele portão de ferro verde estava fechado e não podia sair para a rua sem pedir licença. No Vieiro, a nossa casa, que ainda hoje está no mesmo sítio, ao pé da estrada, era uma casa que tinha a porta aberta todo o dia.
A escola era logo a dois passos. A escola que agora estamos a restaurar, com a câmara, que vai ser outra coisa. Dessa escolinha via a minha mãe e era tudo livre. Nunca ninguém me meteu medo, nem a mim nem aos meus irmãos. Podia haver pedófilos, mas não se falava disso.

O medo era dos lobos.
Era. O meu tio Carlos dizia: “O meu sobrinho não precisa estudar porque vai herdar muitas terras, ele tem é de tratar das terras”. Andar com mulheres fazia parte do estatuto dos meninos dessas famílias. Foi toda a vida uma pessoa desajustada. Era um homem sensível, tocava bem guitarra, mas sempre com necessidade de experimentar novos mundos.

Os seus pais, lembra-se de os ver a ler, a ver livros de pintura?
Nunca. Não havia livros de pintura, nem na casa dos meus pais. No entanto, o meu tio Carlos, que era um homem elegante, andava sempre com fatos impecáveis, ele e a tia Amélia mandavam vir do Porto, de uma loja de sementes do Bolhão, várias sementes. O prazer deles era ver como é que aquelas flores desabrochavam. Chamavam: “Gracinha, anda ver, olha como são bonitas estas flores”. Na casa paterna, havia paredes pintadas por esse tio Carlos, que era muito habilidoso, flores; e tinha uns quadros pintados a óleo, coisas muito simples.

Paredes pintadas como se fossem frescos?
Sim. Ele podia ter sido um pintor, mas foi professor e tratou das propriedades.

Se pensar o mais remotamente em si e naquilo que condicionou o seu destino, a referência é o tio Carlos? É um estojo de pintura que lhe dão?
Foi tudo muito natural. Comecei por gostar de fazer desenhinhos na escola, mesmo na primeira classe. Lembro-me de a minha professora, a Dona Judite, dizer: “Pede à tua mãe qualquer coisa para desenhar”. Eu ia ao louceiro e tirava um bule, que ainda hoje existe, e que vou ver se a minha mãe me oferece, porque faz parte das minhas lembranças. Era um bule muito complicado e gostava imenso de o desenhar. Começou para aí aos sete anos. O que gostava mais de fazer na escola era desenhar. Quando cheguei a África, as freiras entusiasmaram-me nesse sentido. O meu pai, como percebia que tinha gosto pelo desenho, ofereceu-me uma caixinha de aguarelas, tinha eu nove anos. Pintava tanto que as esburaquei rapidamente.

Foi o começo. O que alimentou o seu desejo de pintar?
Quando voltei de África para a aldeia, fui estudar para o colégio. Comecei a visitar um pequenino museu que há em Vila Flor. A primeira ideia que tenho de ver pinturas foi nesse museu. Por isso é que tenho tanto carinho por aquele centro em Bragança [Centro de Arte Contemporânea Graça Morais]. As escolas estão sensibilizadas, trazem as crianças. Muitas vezes desperta-se a chamada vocação ao ver.
Hoje vejo que são retratos de pessoas que tinham que ser alguém na terra para serem pintadas. Rompi com essa tradição quando comecei a pintar as pessoas simples, pobres, muitas delas, sobretudo anónimas, e as coloquei num museu.

Na história da pintura, as pessoas que ficaram imortalizadas são as nobres que tinham dinheiro para fazer encomendas. Fora a igreja e os temas bíblicos.
Os grandes mecenas eram ricos, eram eles que pagavam. A estas mulheres, consagrei-as.

O que é que a fez gostar tanto destas pessoas simples? O seu percurso social, quer na família da mãe, quer na família do pai, é entre privilegiados. Consagra pessoas que não são as do seu meio.
O meu avô materno é povo. Vivíamos melhor, mas no Vieiro as pessoas eram todas aparentadas, numa aldeia pequenina há sempre um primo. Quando se matavam os vários porcos dividíamos por muita gente que passava mal. Havia gente pobre, paupérrima. A assistência social e a ajuda entre amigos, entre familiares, entre vizinhos, sempre fez parte da vida nestas localidades.

Pense no seu interesse por esses pobres. Chamamos-lhes pobres?, pessoas simples?
Às vezes também são complicadas. Não sei qual é o termo. Também não se pode dizer pobres, a maior parte dessas pessoas tem uma terrinha. Essas mulheres, encontrava-as nos diversos trabalhos das nossas terras, e gostava sempre de estar ao pé delas. Se calhar porque me tratavam bem, porque ouvia imensas histórias. Sempre gostei de me sentar na mesa dos obreiros. Quando estava ao pé deles, não diziam asneiras.

Dizem-se muito, no Norte.
Asneira atrás de asneira. Eles diziam: “Está aqui a menina”. Alguns nem tinham a 4ª classe. Sabiam calar-se quando estavam ao pé de uma criança ou de alguém a quem sentiam que tinham que ter respeito.

Era uma certa reverência em relação à “menina”, porque à frente das suas crianças diziam palavrões. Em Trás-os-Montes não se dizem “palavrões”, dizem-se “asneiras”.
Nunca ouvi a minha mãe dizer uma palavra dessas, mesmo quando estava aborrecida. Eu digo, e com muito prazer. Não esses mais fortes, mas digo. Aprendi no Minho. Dei aulas em Guimarães, e tinha crianças que estavam a pintar e diziam uns palavrões quando as coisas lhes corriam mal. Ficava a pensar: “Chamo à atenção, não chamo?”. Não chamava à atenção porque aquilo era tão espontâneo, era de uma liberdade. A criança dizia aquilo porque ouvia em casa, fazia parte da cultura.

Este lado antropológico é predominante na sua pintura. A crítica Laura Castro, quando se refere à sua obra, subdivide-a em capítulos. Fala da Artista Antropóloga e da Artista como Sibila. Como se houvesse uma revelação e uma adivinhação dos mistérios das pessoas e da natureza, a que chega no desenho.
A que chego mais depressa no desenho. O desenho pode-se fazer com lápis, um carvão. Quando era miúda até com bocadinhos de telha que apanhava na rua desenhava. Com lápis de cor, que molhava para fazer tinta.

Molhava na língua?
Molhava a ponta na língua para fazer tinta. Tenho imensos blocos de papel e material para desenhar. Parece que tenho medo que venha aí a guerra e que não possa comprar papel. Quando vejo a história dos grandes pintores que na altura da Guerra Mundial começaram a pintar sobre papéis de jornais, sobre cartões, fico numa aflição.
No desenho, é como se estivesse a escrever um livro, tomasse notas e escrevesse à mão. É uma pena que para o próximo século não fique a escrita das pessoas – as pessoas já só escrevem no computador; é um registo muito impessoal. Há muitos pintores que já não desenham, já não pintam, todo o trabalho deles é feito através do vídeo, da fotografia e de outros materiais. Ainda desenvolvo estes materiais artesanais. As ideias vêm com rapidez, a relação entre a cabeça e a mão é imediata. É de uma grande concentração. Não há o trabalho de juntar as tintas do pincel, que é outra coisa que obriga a uma reflexão maior.

Reconhece-se quando Laura Castro fala da sibila e a da antropóloga?
O romance A Sibila, li-o adolescente. Conhecia a Sibila da Agustina naquela aldeia. Hoje tenho uma Sibila a trabalhar para mim, uma mulher de 74 anos que me ajuda nas arrumações lá de casa. Não sei se sou sibila. A Laura foi a primeira pessoa que disse isso de mim.

Foi-se transformando nessas mulheres que aparecem nos seus quadros? É como se os quadros fossem formas de auto-retrato.
Estou a falar da minha história. Comecei muito cedo a falar daquele pequeno universo, nem me apercebia de que estava a falar de mim. Todo esse trabalho é autobiográfico, só que aquelas caras não são a minha. De vez em quando aparece a minha mãe.

Há ciclos em que todas as caras vão dar à sua mãe.
Há uma série de desenhos que expus aqui no Porto, na [galeria] 111, só dedicados à minha mãe. Mas a maior parte das vezes não é a minha mãe. É a Maria, que é uma mulher que trabalha lá em casa há muitos anos. Aquela cabeça é Trás-os-Montes dentro dela. É uma mulher solteira, seca, ainda hoje trabalha muito, com um cabelo maravilhoso. Está quase sempre em exposição no Centro de Arte Contemporânea em Bragança, ela e outra, logo à entrada. Oferecei esses dois quadros ao centro.

A sua filha realizou em 1999 o documentário Na Cabeça de Uma Mulher Está a História de Uma Aldeia. Pensei que fosse a sua cabeça, não a cabeça da Maria.
Não, aí sou eu. Fiz uma série de fotografias recentemente à minha mãe. Ela a pentear-se e a enrolar o cabelo, de manhã, é de uma enorme beleza. E fiz uma série de desenhos que tinham a ver com os brincos. Quando se nascia, era um brinquinho com uma bolinha de ouro, a seguir eram brincos cheios de feitios, e depois é o brinco da viúva.

É um brinco preto que tem um pontinho de ouro, ou é simplesmente preto.
É. Tenho que agradecer ao Fernando Azevedo, ao Fernando Pernes e à Sílvia Chicó que foram os críticos de arte a entender bem essa minha pintura. Ao princípio, muitos pintores achavam que aquilo era provincianismo, ou que era um Malhoa. Ao longo da minha vida não abri as portas docemente, tive que as empurrar.

O mais difícil era vir de uma aldeia recôndita e ter que se afirmar num território que não era o seu? Quais é que eram os preconceitos?
Nunca senti que alguém me chamasse provinciana. Sempre gostei muito de roupas bonitas. Ao mesmo tempo que tenho atracção por esse mundo simples, da ruralidade, gosto da sofisticação. Gosto, não de luxos, mas de ter móveis bons em casa. Quando andava no liceu, e nas Belas Artes também, tinha vestidos que era eu que desenhava e pintava. Sempre me senti bem em qualquer meio onde estivesse. Mas ao nível da pintura tive muita reacção, sobretudo de outros pintores.

Dissipou-se, essa reacção?
Ainda tenho. Há uma relação com este país…, há pessoas que não gostam dele, gostavam de ser nova-iorquinas ou alemãs. Sempre vi nos escritores essa dimensão de reflectirem e de contarem o nosso país. Só podia haver um António Lobo Antunes aqui em Portugal. Só podia haver uma Agustina em Portugal, e no norte. E o Saramago. E dizia: “Mas porque é que na pintura não se faz isso?”. E quis fazer. Quis que essa pintura não fosse narrativa nem ilustrativa, mas que se sentisse que tinha a ver com uma cultura – a nossa.

Uma coisa é esse sedimento, a sua história. A outra é a informação, o que lhe cria espanto, maravilhamento, estranheza. O que é que a ajudou a ver melhor e a desenhar melhor?
Para desenhar melhor, é importante ver, mas é sobretudo importante desenhar. Não é possível fazer nada se não trabalharmos muitas horas. A primeira vez que tive um impacto forte com a pintura foi ao ver o Van Gogh, na Holanda. Ver que aquelas imagens tinham matéria, que não eram lisas, que apetecia mexer nelas. Quando vejo os retratos do Rembrandt, não entendo como é que ele consegue fazer aquela luz. Quando vemos os últimos retratos, percebemos que empobreceu, ficou sozinho. Toda a tristeza do envelhecimento está neles.

A tristeza do envelhecimento e do empobrecimento.
Que é um dos meus medos, vir a ser pobre. A pintura tem só a ver com a vida da pessoa.

Nunca foi pobre. Porque é que acha que tem esse fantasma?
Nunca sabemos se estamos a ser bem informados ou bem enganados. E se de repente há uma guerra, se isto vira um caos? Ficamos todos como muitas pessoas que fizeram História e que ficaram sem nada. Assusta-me. Mas do que tenho mais medo é de ficar doente.

Estávamos a falar dos pintores que foram importantes para si. Van Gogh, Rembrandt…
Fiquei muito surpreendida quando vi os primeiros Bacon, na Tate, em Londres. Era qualquer coisa de muito angustiante e de muito novo. O Goya. O Velázquez impressionava-me pela perícia, pela técnica, por aquela beleza, aquelas roupagens. Mas o El Greco foi o meu grande pintor durante muito tempo. Os retratos muito interiorizados, os olhos molhados, aquela espiritualidade que também procuro e sinto.

A religião ocupa um lugar importante na vida de uma aldeia. Não falou ainda disso.
Levei muito a sério, até aos 18 anos, a minha educação católica, a comunhão diária, muitas vezes. Hoje não o faço, não sou praticante. Mas tenho uma necessidade desse encontro com um Ser que não sei explicar bem, mas que encontro muitas vezes quando estou a pintar ou quando estou na natureza. Com 63 anos já se passaram dias muito bons, e grandes aflições e dramas. Ainda hoje estava a passar ao pé da maternidade, e lembrei-me que foi ali que tive um filho, que morreu.

Quer contar o que se passou?
As pessoas que nascem em regiões isoladas como a minha ainda hoje têm problemas quando estão grávidas. Como há poucas grávidas, os hospitais ficam longe – não se justifica. Uma mulher sofre muito quando perde um filho. Mas como o mais importante são as contas, a economia, se uma mulher sofrer porque perde um filho não tem importância nenhuma, é menos um. Quando entrei em trabalho de parto estava na aldeia. Um parto prematuro. Não estava à espera, senão não estaria lá. Vim numa ambulância sem condições durante cinco horas, entre Vila Flor e o Porto. Estive horas em trabalhos para ver se podíamos salvar a criança. O menino nasceu e passado umas horas morreu.
Esse menino, se crescesse, havia de ser mais uma daquelas pessoas que enchem Trás-os-Montes. Até certa altura havia muitos deficientes e aquilo a que se chamava “os malucos”, porque nasciam de partos difíceis, sem assistência. E hoje, não há uma maternidade ali ao lado.

Apesar de tudo, as condições melhoraram. Há estradas.
Há gente que se pergunta o porquê de tantas auto-estradas em Trás-os-Montes se não há lá pessoas; as estradas chegaram tarde demais, já deviam ter sido feitas há 20 anos! Essas pessoas, de certeza que não teriam abandonado as terras, se houvesse outros acessos e outro desenvolvimento. Quando as pessoas em Lisboa falam, alguns políticos e ex-ministros das Finanças, da despesa desnecessária que é fazer estradas em Trás-os-Montes, gostava de saber como era se vivessem lá. Isto revolta-me muito. São traumas a que se sobrevive, mas é uma ferida aberta, quando se perde uma criança que se deseja.

Foi o primeiro ou o segundo filho?
Foi o segundo, a Joana tinha sete anos. Tive este em 1982.

Quanto tempo esteve sem conseguir pintar?
Para aí quatro meses. Não sentia as mãos, não sentia as pernas. Todo o meu corpo ficou alterado. Uma das coisas que mais me custam é que recusei ver o meu filho. Não tinha forças para o ver morto. Pari uma criança e não sei a cara dela. Se os hospitais tivessem psicólogos, de certeza que tinha sido ajudada de outra maneira.

Salvou-se a pintar.
Pode crer. E porque tinha uma filha, que precisava de mim, e que me ajudou muito. Voltei lá para cima, enfrentei. Estava a dar aulas em Vila Flor. Em 1980, quis voltar ao lugar onde nasci, entender. Tive um subsídio da Gulbenkian, o Pedro Tamen era administrador. Só um poeta é que entenderia: “É a primeira vez que me pedem um subsídio para ir pintar para uma aldeia, normalmente dou subsídios para Paris”.

Entretanto já tinha recebido, também da Gulbenkian, uma bolsa que lhe permitiu estar em Paris.
Sim. Vim de Paris com essa coisa, precisava de voltar [à terra]. Não vendia nada, tinha que viver. O subsídio da Gulbenkian proporcionou-me dar aulas com um horário reduzido; o resto do tempo olhava, falava, pensava. Por isso é que saiu essa pintura que depois foi exposta em São Paulo, na Bienal. E aí começou o meu reconhecimento internacional.

Tudo isso acontece no começo da década de 80, que foi um período a todos os níveis fundamental na sua vida.
O melhor e o pior. Muitas vezes, as grandes criações são feitas debaixo de grande sofrimento.

Fale-me do período anterior a isso, 1976/79, em que está em Paris. Em Portugal, era o pós-revolução.
Antes de ir lá para fora, foi também importante fazer parte do Grupo Puzzle, constituído por oito homens e uma mulher, que era eu. Fazíamos pinturas, que eram puzzles, fazíamos performances. Isso só foi possível porque o país era livre, cheio de ideias novas. Coincidiu com os Encontros Internacionais de Arte, que o Egídio Álvaro organizava com o Jaime Isidoro, aqui do Porto, e que trouxe cá artistas muito bons de vários países. Olhavam para Portugal com imensa curiosidade, e até com amizade. Contactei com pessoas especiais, únicas. E depois tive necessidade de sair, de ir para Paris.

O que é que fez com que começasse a ser reconhecida e a vender depois dos anos 80?
O comércio vem não sei bem como. A partir de 83 comecei a expor na Galeria 111. O Manuel de Brito era um grande marchand. Tinha intuição, uma grande sensibilidade, gostava dos pintores com quem trabalhava. Tive uma aceitação da crítica e dos jornalistas. Devo muito ao Assis Pacheco, ao Mega Ferreira. O livro que o Mega escreveu para a Imprensa Nacional foi fundamental. Depois da Bienal de São Paulo tive convites para expor nos melhores lugares do Brasil, e expus no Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Como é que foi olhando para aquilo que faz? Sempre percebeu que tinha um dom (foi uma palavra que já usou)?
Às vezes tenho uma força, parece que explode. Começo a pintar, liberto-me e quero fazer. Se calhar é isso que depois passa, não sei. Há um lado de curiosidade e de entendimento das pessoas. Se calhar gosto muito delas, olho-as com atenção, ouço-as. Acho que isso é um dom que nasceu comigo.

Gostava de lhe pedir que escolhesse, se consegue, um quadro seu, que é aquele que acha que melhor serve de auto-retrato.
Há três quadros que estão em Bragança, quase sempre em exposição, que se chamam O Vieiro, o meu lugar de nascimento. Esses quadros, que expus na Bienal de São Paulo, foram o princípio daquilo que sou hoje como artista. Pintei-os em 1982. Têm uma sobreposição de imagens, de apontamentos da natureza, de pessoas e de bichos. Há uma matança, o lado dramático da matança do animal, que no fundo é a nossa matança também. Esses quadros, guardei-os sempre para mim, não os ofereço nem os vendo a ninguém. São o meu auto-retrato sem a minha cara.

in Pública, revista/suplemento do jornal Público, 13.11.2011, págs.16 a 24

Nota de JM: os meus agradecimentos à jornalista Anabela Mota Ribeiro pela autorização da publicação neste blogue da entrevista.


'A Caminhada do Medo" inaugura no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais


De 14 Janeiro 2012 a 31 Março 2012

Inauguração da exposição 'A Caminhada do Medo', dia 14 de Janeiro, às 15 horas. Apresentação pública do livro 'Graça Morais: Prémio de Artes Casino da Póvoa 2011', com a presença de Graça Morais e de Laura Castro, às 16 horas.

A série produzida em 2011 (…) manifesta com total clareza a quantidade e a intensidade das imagens que permanentemente nos rodeiam e assaltam. Todos conhecemos o que é estar sob o impacto da avalanche de imagens de reportagem jornalística que invadem todos os meios de comunicação social e as novas plataformas de divulgação, internet, telemóveis, generalizadas através de um jornalismo popular que capta e difunde no mesmo momento.

Foi sob o efeito das fotografias publicadas em jornais e em revistas que os desenhos foram realizados. O uso dos recortes de jornais que ainda hoje subsiste vem da infância e da juventude, vem da tradição popular de forrar prateleiras com jornais decorativamente recortados, em padrões geométricos básicos e do hábito de os ler nessa circunstância. Os bicos talhados na extremidade do papel de jornal inscrevem-se delicadamente nos desenhos de figura dos anos iniciais da sua carreira. O gosto pela utilização dos jornais manter-se-ia, não apenas nesse registo ornamental, mas como fonte insubstituível de imagens e como uma das vias de levar o quotidiano à pintura.

É uma temática antiga a que se vislumbra nestes trabalhos, do sofrimento, do caos e do medo, de personagens condicionadas por acontecimentos históricos, os mais diversos. Já não peregrinações, mas migrações a caminho de um exílio incerto. Quem melhor do que a artista em retiro para perceber estas deslocações?

Estas podem ser as migrações provocadas pelos dramas humanos das acostagens nocturnas no sul de Itália, dos africanos sedentos de um lugar na Europa, das lutas religiosas e tribais dispersas pela África e pela Ásia, das revoltas nos países árabes, dos massacres fanáticos disseminados um pouco por todo o mundo, dos conflitos urbanos mal identificados.

Laura Castro in Ordem e Desordem do Mundo, Graça Morais: Prémio de Artes Casino da Póvoa 2011; Porto: Cooperativa Árvore, 2011, p. 136


Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Rua Abílio Beça, 105
5300 – 011 Bragança
Tel: (351) 273 302 410
email
site
facebook

Notícias inspiram exposição de Graça Morais




A exposição “A Caminhada do Medo”, da conceituada artista plástica Graça Morais, é inspirada pelo sentimento de medo gerado pelos últimos acontecimentos na Europa e no Mundo e vai estar patente até 20 de novembro na Cooperativa da Árvore, no Porto.

in Euronews (PT)

La pintora Graça Morais inspirada por la actualidad




La conocida pintora portuguesa Graça Morais se ha inspirado en los acontecimientos recientes en el mundo y Europa para una exposición que se acaba de inaugurar en la ciudad de Oporto.

in Euronews (ES)


Quand la peinture se plonge dans l’actualité




Dans sa dernière exposition, la peintre portugaise Graça Morais s’inspire de l’actualité. Les évènements qui secouent l’Europe et le reste du monde y sont omniprésents et angoissants.

A découvrir jusqu’au 20 novembre à Porto, au Portugal.

in Euronews (FR)

Artist Graça Morais show: 'The Walk of Fear'




Graça Morais' latest exhibition was inspired by the news. One of the most renowned Portuguese painters, Morais' new display has just opened in Oporto.

in Euronews (EN)

Cartaz das Artes: "2011 - A Caminhada do Medo" - Exposição de Graça Morais


Exposição de Graça Morais na Cooperativa Árvore, no Porto, até 20 Novembro.

"2011 - A Caminhada do Medo", a mais recente exposição de Graça Morais, inaugurou na Cooperativa Árvore, no Porto. A pintora transmontana confessou que quando começou a trabalhar nestes quadros não imaginava a actualidade que viriam a ter. Reportagem de Carla Carvalho.

SIC - Cartaz das Artes, 26.10.201



Entrevista a Graça Morais


Série A caminhada do Medo VII | Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm 2011



Pintura e desenho de Graça Morais cruzam-se na exposição “2011: A Caminhada do Medo”, que é inaugurada esta tarde na Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, no Porto.

Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Alexandre, Graça Morais conta que as obras expostas resultam de um intenso trabalho motivado pelas notícias de crise que são transmitidas diariamente pelos órgãos de comunicação social.

Os desenhos e pinturas reflectem os sentimentos de angústia e preocupação da autora em relação ao presente e ao futuro da Europa e do mundo, contrastando com a anterior série de trabalhos que retratava a natureza de Trás-os-Montes.


Entrevista áudio, Antena 1, 20 0utubro 2011

Antonio Tabucchi: Fim do Mito · Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais


Fim do Mito
Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais
Antonio Tabucchi

Série A Caminhada do Medo VIII | Pastel e carvão s/papel 102 x 152 cm 2011 
 Prémio de Artes casino da Póvoa’2011


HOMEM QUE PARTE – Não mais voltarei a carregar-te nos meus ombros, Pai, como há tantos e tantos anos, quando, destruída pelo inimigo, deixámos para trás a nossa cidade em chamas. Era longo o caminho que então percorri, lembras-te? Pesavas nos meus ombros com a leveza de uma pluma, consumido pelos anos e as penas. Disseste-me depois que parasse, querias o repouso eterno, eu continuei a caminho do Ocidente, porque é no Ocidente da Terra que existe a esperança de uma nova civilização, o Fado assim o quis. Nada trouxe comigo, levava para o Ocidente o nosso Oriente, o Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, o Oriente pomposo e fanático e quente, o Oriente onde – quem sabe? – Deus talvez exista realmente e mandando tudo... A tua candeia extinguira-se, e com ela o meu passado. Segui caminho levando o meu filho pela mão.

CORO – Apressa-te, o barco está prestes a zarpar, temos de levantar âncora, o tempo urge.

HOMEM QUE PARTE – Pai, tenho de partir, Ascânio já está a bordo.

CORO – Não saiba o teu filho que vais partir! Ignaro, dorme no chão ainda quente dos incêndios, não podemos levá-lo connosco: crianças, o Ocidente não as quer, aceita quando muito a força dos teus braços.

PAI (murmurando) – Por que não deu ninguém ouvidos a Cassandra?

CORO – Porque não há rebeldia contra o Fado, tentou-o Laocoonte, e os deuses enviaram duas serpentes marinhas que em seus anéis o estrangularam, e a seus filhos. Esses mesmos deuses que enviaram o cavalo com a barriga de fogo para destruir os nossos costumes e trazer-nos os seus, a que chamam democracia.

HOMEM QUE PARTE – A democracia deles são ruínas fumegantes, morte, desespero e cinzas, e de tudo isso hão-de sacar muito dinheiro, porque é negócio a guerra que fazem.

CORO – Vem, estulto homem pronto a partir, aproveita o nosso barco, não és nenhum herói, já não és um cidadão, nem sequer és um homem, és tão-só um migrante.

PAI – Tens de ir, Eneias.

CORO – Eneias foi seu nome em tempos, agora Anónimo é seu nome. Anónimo, tens acaso documentos que digam que és alguém?

HOMEM QUE PARTE – Pai, não voltarei a ver-te nunca mais?

PAI – Encontraste-me em tempos nos Campos Elísios, a Sibila conduziu-te ao reino do Hades. Com ela atravessaste o Estige e por três vezes abraçaste a minha sombra.

CORO – A Sibila morreu há muito, e o Hades fechou. Existe, sim, o fundo do Mediterrâneo onde apodrecem os cadáveres dos migrantes deserdados pela sorte.

PAI – E depois do terceiro abraço a minha sombra explicou-te a doutrina dos ciclos e dos renascimentos que rege o universo, e confortado com a minha explicação alcançaste a Itália, habitada por gente bárbara, e fundaste Roma, de cuja civilização nasceu a Europa.

CORO – Velho, nada ficou por fundar. Hoje, a Europa que nasceu da cidade fundada por teu filho já não quer intrusos, ferozmente coalizada, tem uma frota costeira que vigia os desembarques, afunda embarcações tão miseráveis como as nossas; essas criaturas outrora bárbaras enriqueceram, uns mais, outros menos, porque os pobres fazem falta aos ricos, e sem os pobres nunca os ricos seriam ricos. Mas os ricos que aí ordenam não querem gente mais pobre do que os seus pobres, para que a sua riqueza não se desvalorize e não se perturbe o equilíbrio entre os ricos e os pobres que sustenta a sua sociedade. Apressa-te a subir, pobre migrante, a passagem que te oferecemos, por nossa conta e risco, custa-te apenas dois mil dinheiros, na moeda actual exactamente o mesmo que um habitante itálico pagava para apanhar o vapor para as Américas, um habitante das Germânias para fugir para a Argentina, um lusitano para dar o salto. E hoje, quando cada um deles se encontra bem defendido nas fronteiras de um espaço comum, é difícil forçar as portas de Schengen. Eles desembarcaram na Lua e os astros não opuseram resistência. Mas é proibido desembarcar nas margens da Fortaleza de Schengen.

HOMEM QUE PARTE – E o nosso Mito, Pai?

PAI – Não sei.

CORO – Em tempos, o Mito era o nada que é tudo. Hoje, é apenas o nada. Partamos.


Isto diziam, sem o dizerem, as figuras de um quadro de uma pintora portuguesa numa luminosa tarde do Verão de 2011, em Lisboa, numa casa antiga da Costa do Castelo. Ao contemplá-lo, ouvi as suas vozes e, tal como as ouvi, agora as transformo em escrita, sem nada acrescentar.

                                                                                                                                 Antonio Tabucchi
                                                             [in Catálogo da Exposição Graça Morais · 2011: A Caminhada do Medo]


Tradução do texto "FINE DEL MITO · Piccolo intermezzo su un quadro di Graça Morais" por Gaëtan Martins de Oliveira


Graça Morais · 2011: A Caminhada do Medo


Graça Morais
2011: A Caminhada do Medo
desenho e pintura
20 de Outubro a 20 de Novembro

Série A Caminhada do Medo X | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

Série A Caminhada do Medo IX | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

Série A Caminhada do Medo V | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

5. A ARTISTA EXILADA
Laura Castro1

Desengane-se aquele que lê o título como alusão a um exílio neo-romântico, refúgio campestre, fuga da cidade ao encontro da ruralidade poética e da autenticidade rústica porque não é isso que está em causa nem tão pouco o meio rural tem, na obra de Graça Morais, estas conotações. Se convoca a ancestralidade de certas práticas, fá-lo no confronto com a dureza e a austeridade do campo e, no núcleo de obras produzido na viragem do século, diante das transformações movidas por comunidades emigradas que não são imunes ao progresso.
Graça Morais vive, portanto, a sua condição de exilada no meio urbano. O desterro na cidade pode ser, hoje, mais silencioso do que o reduto aldeão onde, particularmente no Verão, a presença dos veraneantes intensifica o ruído, deixando a cidade mais calma. Mas desiluda-se também quem espera ver a temática urbana directamente vertida para o seu trabalho.
Desde há vários anos que a actividade de Graça Morais se divide pelos dois ateliers que mantém em Trás-os-Montes e em Lisboa e, apesar das dificuldades que essa repartição acarreta, em geral, há sempre trabalho iniciado num e noutro espaço. Por vezes, trabalho contrastante entre um registo mais delicado, em torno das temáticas florais e das ramagens primaveris, e um registo mais dramático e exigente dominado pela dimensão humana. Nem sempre os dois lugares de criação espelham dois circuitos paralelos, mas pode ser que tal confronto aconteça. Deste modo, a coesão temática e formal de cada série produzida pode corresponder a esta circunstância conjuntural, tal como responde a outras relacionadas com uma estação do ano, uma estadia particular, um acontecimento localizado e datado.
A série produzida em 2011, na altura em que este livro se encontrava em preparação, foi realizada no atelier de Lisboa e manifesta com total clareza a quantidade e a intensidade das imagens que permanentemente nos rodeiam e assaltam. Todos conhecemos o que é estar sob o impacto da avalanche de imagens de reportagem jornalística que invadem todos os meios de comunicação social e as novas plataformas de divulgação, internet, telemóveis, generalizadas através de um jornalismo popular que capta e difunde no mesmo momento.
Foi sob o efeito das fotografias publicadas em jornais e em revistas que os desenhos foram realizados. O uso dos recortes de jornais que ainda hoje subsiste vem da infância e da juventude, vem da tradição popular de forrar prateleiras com jornais decorativamente recortados, em padrões geométricos básicos, e do hábito de os ler nessa circunstância. Os bicos talhados na extremidade do papel de jornal inscrevem-se delicadamente nos desenhos de figura dos anos iniciais da sua carreira. O gosto pela utilização dos jornais manter-se-ia, não apenas nesse registo ornamental, mas como fonte insubstituível de imagens e como uma das vias de levar o quotidiano à pintura.
É ainda a temática da peregrinação que se vislumbra nestes trabalhos, mas agora trata-se das romagens de personagens condicionadas por acontecimentos históricos, os mais diversos.
Estas podem ser as peregrinações associadas aos dramas humanos das acostagens nocturnas no sul de Itália, dos africanos sedentos de um lugar na Europa, das lutas religiosas e tribais dispersas pela África e pela Ásia, das revoltas nos países árabes, dos massacres fanáticos disseminados um pouco por todo o mundo, dos conflitos urbanos mal identificados.
Este não é um mundo de abundância nem um mundo marcado pelo ritmo das estações, é um mundo que vive debaixo de um Inverno frio ou de um Verão árido que semeia carcaças de animais mortos e uma desolação traída por céus tempestuosos. Não é um mundo de abrigos domésticos, mas de vida desamparada no exterior onde todos estão expostos, desprotegidos, mal cobertos pelas mantas informes das organizações de assistência.
No seu exílio urbano a artista trata o êxodo humano nas suas múltiplas facetas. O desterro cumpre-se na cidade, a cidade é o seu atelier e o seu atelier é o mundo.
É inegável a dimensão política deste ciclo, componente que, ao contrário do que já se afirmou, nunca esteve ausente do trabalho de Graça Morais. Não num sentido panfletário ou contestatário, não num teor propagandista, mas na adesão a temas como a interioridade e o isolamento, a morte anunciada das aldeias, a solidão e a velhice no meio rural, a condição da mulher. Os acontecimentos históricos também não ficaram fora do seu horizonte artístico. De 1975 conhece-se a série de desenhos 25 de Abril, realizados com tinta-da-china e colagem, onde reproduções de fotografias, recortes de jornal e desenho se sobrepõem numa linguagem que muito fica a dever à intensidade comunicacional daquele período.
Estas peças vêm no seguimento do trabalho de Sines, de 2005, e de todas as séries das metamorfoses, da primeira década do século, mas a figuração envereda por outro caminho com aspectos tributários do ar do tempo. Os registos antropológicos do meio rural e os arquivos da memória dão lugar a figuras conturbadas do mundo contemporâneo, de paragens próximas e distantes. E, do ponto de vista do processo, há quase uma aproximação ao universo directo dos graffiti, dos gritos que ficam nos muros das cidades sem os cobrir completamente. A grande tela que mantém um carácter inacabado, com pouco desenho, é provavelmente o melhor exemplo. O desenho com duas personagens em fuga remete para o mesmo ambiente. A questão tinha sido já apontada por Eduardo Lourenço, noutro contexto: “Essa pintura, que mais parece relevar do graffiti ou da arte do fresco pela sua independência em relação ao suporte, como se pousasse apenas nele […]”2
Mas nem todos os trabalhos se orientam nesta direcção: há aqueles a que as cores quentes, o ar de tormenta, o preenchimento de toda a superfície conferem uma densidade e um peso que nos sobrecarregam. Há uma atmosfera espessa e sangrenta, um ar encorpado e táctil, envolvente, asfixiante, uma iluminação estranha de mau presságio.
Outros trabalhos prolongam o regime de transparências que a pintora tão bem domina, mas estes são em menor número.
Evidencia-se também uma linha de horizonte. Não é, no entanto, a habitual e essencial linha da paisagem que une o céu e a terra, é a linha que os separa e é nela que se encontram os peregrinos. Também se divisa o skyline de cidades nocturnas com personagens que se deslocam, apenas orientadas pela iluminação pública de postes com que a artista sinaliza a sua passagem, a sua fuga precipitada. (Interessante é recuar até uma obra de 1996 – Delmina – para percebermos como os modelos circulam de uma fase para outra: aí, o perfil de montanha, em fundo, recebia já personagens em gestos de trabalho).
As peças de menor dimensão, as colagens, dão a chave para os grandes desenhos e o modo como são compostos. Aí se percebe a importância do registo fotográfico, dos apontamentos escritos em folhas de diário e a sua recuperação posterior. Intervencionados e retrabalhados, esses materiais primários transformam-se mediante a pressão de novas circunstâncias: rostos de uma fotografia são cobertos por acrílico; personagens são modificadas mediante a adição de elementos animais; figuras fotografadas são refeitas em desenho; imagens são trancadas e bloqueadas sob uma mancha; papéis com fotografias coladas recebem escorrências de tinta-da-china e pingos de acrílico. Não são apenas reconfigurados os elementos compositivos pré-existentes, são os significados que sofrem uma reconstrução, predispondo-se a novas utilizações e interpretações.
É no espaço do desenho que se oferece a personagens heterogéneas e a factos desencontrados um plano de convivência, que não exactamente de convergência. Uma das estratégias plásticas que permite realizar a insólita conexão, é a mancha que, como uma auréola, rodeia grupos de personagens, estabelece uma situação específica mas mantém a transparência que a relaciona com os restantes protagonistas.
Quem povoa estas obras?
Deslocados de guerra, asilados políticos, nómadas famintos, perseguidos por questões religiosas, emigrantes clandestinos, uma legião de seres que vagueia perdida e sem outro destino que não o campo de refugiados improvisado.

É como num romance, ainda não sei bem o que as personagens vão fazer.
Posso deixar-me levar…
                                                                                                                                            Graça Morais

E aqui estão, primeiro, as criaturas do presente, recém-chegadas à sua obra: criaturas que deambulam ou avançam em fila, inseguras, reduzidas a vultos, a espectros, descarnadas pela condição de refugiados; soldados bem equipados de botas e capacetes, escudos e máscaras, armados; detidos; outros em pose de inspecção – suspeitos, radioactivos? É a comunidade internacional que faz e desfaz as catástrofes humanitárias – carrascos e vítimas; jornalistas e observadores (?); voluntários e agentes não-governamentais.
Aqui estão também as criaturas vindas do passado: figuras femininas de máscaras brancas com olhos fechados; ou de olhar atento e sobressaltado; mães auxiliadoras no rito da Pietà; um anjo; cabeças híbridas; e os cães vagabundos, rafeiros em pose de alerta ou de orelhas baixas e o olhar que nos fita, à espera.
Pensar que as personagens que chegam do passado poderiam ser um sinal reconfortante na perturbação geral é uma suposição que não se confirma, uma vez que o seu reino também é o da inquietação.
Na linguagem de Graça Morais, a visão do mundo não descarta a visão da sua obra, passado e presente confrontam-se, referentes de diversa natureza cruzam-se numa trama complexa.
Este é bem o nosso mundo, feito de realidades afastadas que nos chegam em simultâneo, numa sincronia enganadora. Valores e princípios têm, no seio dos conflitos que interessaram a artista, uma validade sempre provisória e contingente, ao sabor de circunstâncias políticas e de negociações de conveniência. As identidades são sempre transitórias – hoje num papel, amanhã no campo oposto; hoje como algoz, amanhã como mártir; hoje como personagem anónima, amanhã como figura da comunicação global. Não haveria melhor recurso artístico do que este mosaico de tempos e espaços em que se organizam os desenhos, para o demonstrar.
A artista permanece fiel ao mundo e fiel ao seu mundo.


Notas
1 Docente na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto e membro do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologias das Artes (CITAR) desta Escola.
2Eduardo Lourenço – In Pintura Portuguesa 1988. 10 de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Apud Graça Morais. Lisboa: Soctip, 1992.

O presente texto é parte do livro Graça Morais. Ordem e Desordem do Mundo, em preparação e do catálogo da exposição 2011: A Caminhada do Medo.



Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas, CRL
Rua Azevedo de Albuquerque, 1 4050-076 Porto - Portugal
Tel. +351 222 076 010 Fax: +351 222 076 019
geral@arvorecoop.pt Site
Árvore no Facebook

Terra Quente - Terra Fria · Desenho e pintura 1978 /2002



GRAÇA MORAIS
TERRA QUENTE - TERRA FRIA
Desenho e pintura 1978 /2002
30 de setembro de 2011 a 8 de janeiro de 2012


Todo o ecletismo de referentes, persistentemente reivindicados na produção artística de Graça Morais, de que vem resultando uma pungente e singular iconografia, tem apensa a pertença de lugar.
Transfigurado ou metamorfoseado através da distorção e da sobreposição das formas, capazes de desencadear distintos níveis de leitura ou, não raras vezes, inscrito pelas linhas mínimas do desenho, o universo telúrico e antigo que representa e com o qual vem estabelecendo um diálogo pronunciado e aberto é, como a vontade de o perpetuar, eixo axial do seu trabalho.
Rostos e gestos, objetos e animais, rituais de inverno e cenas de trabalho, tramas narrativas de sacralidade e de morte acusam as marcas de uma obra que, não obstante a variação de estratégias formais e até dos inesperados processos materiais que mobiliza, não abdica do real como referência, que aqui é feito de terra e de mistérios ancestrais, e tem profunda ligação à memória e aos afetos.
A escala cronológica da exposição é ampla, reunindo obras de 1978, da emblemática série “O Rosto e os Frutos”, aos primeiros anos do século XXI, permitindo nas sucessivas inflexões, especialmente no domínio do desenho, o encontro com uma grande variação de temas e estilísticas já tratados por Graça Morais.
Da obra chega-nos, inteira, a imagem da região transmontana, mas distanciada da redutora visão folclorista. A essência está lá: os rituais, as tropelias dos caretos, a solenidade e a bruteza da matança do porco ou a imolação do cordeiro na Páscoa, a dureza das segadas, a caça, as festividades religiosas, o tempo quente das cerejas ou das neblinas invernais, os utensílios de trabalho, as mulheres, a passagem das estações e dos dias, mas chega até nós filtrada pela visão pessoalizada da artista e pela subjetividade das interrogações que é capaz de convocar a partir das inesperadas associações e figurações que nelas adita.
A condição da sua prática pictórica não está, por isso, tanto no registo do pitoresco ou na captação sob ponto de vista etnográfico para memória futura, está antes na exploração de um universo e de um imaginário e no modo como explana, com grande sinceridade pictórica, o que observa, do mesmo modo que lhe subtrai a redutora referência naturalista.
Como os temas, também a escolha dos suportes nunca foi secundário em Graça Morais, ao procurar neles uma plasticidade profícua, capaz até de redefinir a própria obra. Os materiais não funcionam apenas como meros ou ocasionais suportes para as imagens que sobre eles projeta, antes explora continuamente outras texturas, como as grandes lonas de serapilheira, apetrechos de trabalho utilizados em tempos idos na colheita da azeitona, cujas marcas do uso são ainda visíveis e inteiramente assumidas pela composição. Na série “Jorge”, assim titulada pela importância excecional que aí é dada à figura masculina, sobressai o domínio do traço a carvão. O campo semântico é dominado pelas expressões e gestos desajeitados de uma figura que suspende pelas patas uma ave, uma cena que se repete em três lonas com algumas variações, como os desenhos detalhados de ancestrais instrumentos de trabalho com os quais, aparentemente, não parece existir qualquer relação.
É precisamente o modo como formaliza este universo que sai reforçada a singularidade do trabalho de Graça Morais, único “a impor uma linguagem de persistente descoberta e uma figuração que se distingue de qualquer outra pelo que alcança em identidade”, como chegou a referir Fernando de Azevedo.
Terra Quente - Terra Fria convoca, assim, na sua essência, a um encontro com o Trás-os-Montes de Graça Morais, onde cada obra é metáfora pictórica da interpretação e, simultaneamente, da reflexão que, a partir deste território antigo em iminente desagregação, a artista faz do mundo.

                                                                                                                         Jorge da Costa



Comissariado: Jorge da Costa (director do CACGM)
Produção: Centro de Arte Contemporânea Graça Morais / Câmara Municipal de Bragança



Centro de Arte Contemporânea Graça Morais                                        Tel: (351) 273 302 410
Rua Abílio Beça, 105                                                                              Fax: (351) 273 202 416
5300 – 011 Bragança                                                                              centro.arte@cm-braganca.pt
Facebook



Terra Quente – Terra Fria é um percurso a Trás-os-Montes através da obra de Graça Morais. Um percurso que vive do seu olhar, das suas memórias, da forma como tacteia as pessoas, paisagens, sensações e lhes dá corpo através do seu traço e da sua pintura.

Com um elenco de actores e bailarinos procura-se que este projecto seja um mergulho ao interior dos temas abordados por Graça Morais e que nos transportem ao pulsar da vida, dos rituais e das paisagens transmontanas.

Teatro Municipal de Bragança 30 de Setembro e 1 de Outubro
Auditório ACE Teatro do Bolhão 11 a 23 de Outubro ( de Quinta a Sábado 21:30 e Domingos ás 16:00
Teatro de Vila Real dia 28 de Outubro


Peça de dança contemporânea criada pela coreógrafa Joana Providência a partir da obra de Graça Morais

Mais informação em Teatro do Bolhão



Recortes de imprensa (online):

Uma viagem a Trás-os-Montes através de Graça Morais, Diário de Notícias, 30 de Setembro 2011

“Terra Quente Terra Fria” a nova exposição de Graça Morais, welcome nordeste.pt, 3 Outubro 2011

Viagem a Trás-os-Montes através de Graça Morais, Tribuna do Douro, 3 Outubro 2011

Vídeo Reportagem via Local Visão, 2 Outubro 2011


Artista plástica Graça Morais vence prémio Casino da Póvoa


A artista plástica Graça Morais venceu a edição deste ano do Prémio de Artes Casino da Póvoa com o quadro "Série 2011: A Caminhada do Medo, 2011", informou o casino, através de comunicado.

Além de atribuir um prémio monetário no valor de 30 mil euros, o casino vai adquirir a obra premiada e publicar uma monografia sobre a artista.

Este galardão visa "distinguir e homenagear a obra de uma mulher que, ao longo do tempo, construiu uma carreira que a consagra como uma das maiores pintoras contemporâneas", justificou o casino, no comunicado.

Graça Morais, "cujo universo cruza a herança do mundo rural, assume a condição da mulher e da natureza na intuição ligada aos sentimentos e às emoções", sendo que na obra da artista, "as mulheres são a terra, a razão e a origem do mundo", lê-se ainda no documento.

O júri deste prémio foi constituído por Dionísio Pereira Vinagre, Vasco Esteves Fraga e Amândio Secca, sendo que a distinção vai ser entregue no dia 17 de dezembro, numa cerimónia que terá lugar às 21:00 horas.

A obra adquirida agora a Graça Morais passa a integrar a coleção de arte do Casino da Póvoa.

Graça Morais nasceu em 1948, em Vieiro, Trás-os-Montes.

Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, expôs, pela primeira vez, no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

Em 1975 funda o grupo puzzle e, entre 1976 e 1978, vive em Paris como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

in RTP/Lusa,4 Outubro 2011

Tempo de Cerejas e Papoilas, Trás-os-Montes 2011






R E T O R N O

Antes ou depois?
Sempre.
Através da particular maneira de olhar que Graça Morais nos revela nos presentes trabalhos, percebe-se, diria mesmo descobre-se, o tempo subjacente a toda a sua obra.
Tempo humano, sem dúvida, nem há tempo que o não seja.
O tempo da consciência do tempo, que exprime nas suas figuras agarradas à terra como se nunca tivessem sido crianças, como se nunca se tivessem erguido noutros espaços que os do silêncio e do esforço. Nas suas origens e nos seus destinos está a terra, estão os profundos mistérios da terra. Os que permanecem ocultos e os que se manifestam aos nossos olhos, os que vamos destruindo com esforço, para renascerem mais longe ou mais tarde, e os que julgamos estimular e enobrecer, sem nos apercebermos, em ambos os casos, da sua verdadeira grandeza.
Nos presentes trabalhos de Graça Morais, é como se a consciência da condição humana e a inquietação que a acompanha, tivessem cedido perante as forças da terra, e a visão universal subjacente em toda a sua obra se libertasse e afirmasse, sobrepondo-se ao esforço e ao tempo dos homens, revelando-se na sua perenidade de que só reconhecemos as formas com as quais somos capazes de conviver, como quando nos inebriamos com a cor das papoilas ou das cerejas.
Nessas experiências de euforia o olhar desvia-se das figuras suspensas entre as origens e os destinos que nos vinculam à terra, manifestações idênticas e ininterruptas de uma continuidade em que participamos com uma inquieta e insegura consciência.
E esse breve desvio do olhar, exprime-o Graça Morais na euforia assumida da cor, na libertação dos impulsos indestrinçáveis, na exuberância da vida que se expande na terra, incontrolável na sua perenidade.
Nem antes nem depois.
Na obra de Graça Morais estão sempre presentes e plenas de vigor as forças da terra a que pertencemos.

                                                                                           Júlio Moreira, 17 de Setembro de 2011


Graça Morais nasce a 17 de Março de 1948 em Vieiro, Trás-os-Montes, distrito de Bragança. Vive e trabalha em Lisboa e Freixiel. Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto no ano de 1971. Desde 1974 até 2009 realiza e participa numa centena de exposições individuais e colectivas, dentro e fora do País. Destacando no ano de 2009 a exposição ‘Anos 70 Atravessar Fronteiras’, no CAM - Fundação Calouste Gulbenkian e "A Máscara e o Tempo" na Galeria Ratton.

Em 2008 foi inaugurado o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais em Bragança, exposições em permanência de obras da Artista, representativas das várias séries entre 1982 e 2011. Graça Morais está representada em várias colecções privadas e públicas: Millennium BCP, Culturgest, Fundação Luso-Americana, Ministério da Cultura – Museu de Serralves, Ministério das Finanças, C.A.M. – Fundação Calouste Gulbenkian, Colecção Manuel de Brito, Fundação Paço D'Arcos, entre outras.

Na obra da artista destacam-se intervenções de Arte Pública, em painéis de azulejos, com produção da Galeria Ratton, no Edifício sede da Caixa Geral de Depósitos (em Lisboa), na Estação de Bielorrússia do Metropolitano de Moscovo, na Estação Ferroviária do Fogueteiro (Seixal), na Estação de Metropolitano da Amadora – Falagueira, no Mercado Municipal de Bragança, na Biblioteca Municipal de Carrazeda de Ansiães, na Caixa de Crédito Agrícola de Bragança, no Teatro Municipal de Bragança, nas Escolas Monsenhor Jerónimo do Amaral, Vila Real e na Escola Miguel Torga em Bragança. Destacam-se ainda os painéis em azulejo no Viaduto de Rinchoa/Rio de Mouro, no Centro de Astrofísica e Planetário do Porto e na Central Hidroeléctrica de Vilar de Frades (Vieira do Minho).

A exposição "Tempo de Cerejas e Papoilas . Trás-os-Montes 2011" da pintora Graça Morais que a Galeria Ratton inaugura no próximo dia 23 de Setembro de 2011 às 15h, apresenta um conjunto de novos trabalhos de pintura, desenho e azulejo. A exposição está integrada na homenagem que a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CTMAD) presta neste ano 2011 à Pintora por ocasião da comemoração do 106º aniversário da CTMAD. A temática da exposição surge na sequência de um importante painel de azulejo de produção Ratton, que irá ser colocado na entrada da TECSAM - Clínica de Hemodiálise / Unidade de Cuidados Continuados em Mirandela, no final desta exposição.

Comissários: Ana Viegas e Tiago Monte Pegado

Mini Entrevista por Helena Esteves (RTP - 2011-09-23)


Exposição de Graça Morais patente ao público na Galeria Ratton, de 23 de Setembro a 11 de Novembro.


Galeria Ratton Cerâmicas
Segunda a Sexta 10h - 13h30 (Horário escritório)
Segunda a Sexta 15h – 19h30 (Abertura ao público)
Rua Academia de Ciências, 2C
1200 - 004 Lisboa
Tel: 21346 0948
Tlm: 96 452 98 33
Email: galeriaratton@sapo.pt

Links externos:
www.galeriaratton.blogspot.com
www.facebook.com/GaleriaRatton
ctmad.blogs.sapo.pt