'O Tempo dos Assassinos' por José Manuel dos Santos


Série A Caminhada do Medo III 2011 Carvão e pastel sobre papel 111 x 150 cm

Somos nós que nos reconhecemos nelas ou são elas que se reconhecem em nós? Na resposta a esta pergunta, marcamos o nosso lugar no mundo. Estas obras dizem o nosso nome, usam a nossa língua, olham-nos no nosso olhar. Arrastam-nos no seu movimento e na sua paragem: fugimos na sua fuga, paralisamos no seu medo, sofremos no seu sofrimento. Delas se pode falar de “terror” e de “piedade”- e era disso que Aristóteles falava quando falava da tragédia.

Vinda de um mundo que é (ou parece) um mundo sem tempo (o mundo eterno da terra, das suas lentidões e dos seus regressos), a obra de Graça Morais, com o ciclo que aqui se apresenta, cai abruptamente no tempo mais imediato para lhe dar um rosto ( “Tu pintura es el lenzo de Verónica / de ese Cristo sin rostro / que es el tempo”, Octavio Paz).

Todos os tempos se julgaram a viver sobre o abismo”, lembra Walter Benjamim. Mas isso não impede que, sob alguns tempos, o abismo seja mais abismo ( “abyssus abyssum invocat”): embora o ovo da serpente esteja às vezes onde não pareça estar, o tempo dos comboios que paravam em Auschwitz não é o tempo em que a imperatriz Sissi atravessava a terra escoltada pelos seus fantasmas.

Os cães de caça brincam ainda no pátio, mas a presa não lhes escapará, por muito que corra já pelas florestas”, informa-nos Kafka e as palavras geladas que usa para nos informar apontam para nós. Estes desenhos a pastel e a carvão de Graça Morais (desenhos pintados e pinturas desenhadas) fazem-se a partir das imagens que todos os dias, nas páginas dos jornais e nos écrans das televisões, nos passam pela frente, sem que as consigamos parar ou fazer recuar. Mas, nestes desenhos, a pintora dá ao sensacionalismo um simbolismo, à superficialidade uma fundura, à banalização uma gravidade, ao efémero uma perenidade. E dá uma atenção à indiferença, uma proximidade à distância, uma recusa à aceitação, um juízo de valor ao juízo da realidade.

Este é o tempo dos ASSASSINOS”, anuncia Rimbaud. Este é esse tempo tornado nosso. Subitamente, como num verão passado ou num inverno futuro, tudo se atirou a nós como os cães de caça desse judeu de Praga que não conseguia ver uma luz na sua treva. A este movimento que nos empurra para o abismo, para a catástrofe, para o desastre, para o deserto chamamos “crise”. Eu chamei-lhe um dia “a guerra de todos contra todos”. Nesta guerra, a lei é-nos imposta pelo exército do crédito e da dívida - e é uma lei marcial, um big brother bélico, um campo de extermínio planetário. A esta lei tudo foi submetido: o político, o social, o cultural, o humano. Sob o seu poder, cada casa tem uma forca, cada empresa é um teatro de guerra, cada pessoa é um alvo a abater.

A história da pintura tem muitos “desastres da guerra”. Os de Goya, assim mesmo chamados, fazem-se de crueldade e caos. O de Vieira da Silva ( “Le Désastre ou la Guerre”) traz consigo as lanças de Paolo Uccello. Os de Manet são as várias versões de “A Execução do Imperador Maximiliano” e nelas há a memória do “Tres de Mayo”, de Goya, e dos instantâneos fotográficos do fuzilamento. Os de Picasso são a “Guernica”( com os seus muitos estudos e esboços) e tudo nela é morte, noite e gume ( Não, a pintura não se fez para decorar casas. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo”, disse o pintor). O de Anselm Kiefer é o da “Todesfuge” e traz-nos Paul Celan: “Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer / Bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite/ Bebemos e bebemos/ Cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados/(…) Açula os seus mastins contra nós oferece-nos um túmulo no ar/ Brinca com as serpentes e sonha - a morte é um mestre da Alemanha”.

Este ciclo de Graça Morais, feito de duas séries, tem esta ascendência, esta genealogia, esta linhagem. As suas armas dão-lhe uma heráldica de alerta e de protesto. À crueldade do mundo ela opõe a crueldade da imagem dele – no seu expressionismo trágico há aviso e repulsa.
A pintora conta que, muito nova e como tantos outros, estava em Paris a ver pintura. Ia aos museus e perguntava o que fazer com aquelas imagens que não lhe abandonavam os olhos. Um dia, foi ao cinema onde se estreara “A Árvore dos Tamancos” e esse filme deu-lhe resposta à sua pergunta. Decidiu trocar a cidade de todos os futuros pela terra de todos os passados – a sua, Trás-os-Montes. Nessa hora altiva, Graça tornou-se o que era e aprendeu o que já sabia: na terra que nos dá os frutos que alimentam, vivem também os vermes que destroem. Ela sabe que o humano e o inumano se misturam, mas que é preciso reconhece-los, distingui-los, separá-los, nomeá-los. É a esse processo químico, uma espécie de electrólise do espírito, que podemos chamar moral.

Este ciclo que agora se apresenta é, na obra longa e contínua de Graça, a marcação nítida de uma metamorfose. A arte, que é a vida das formas, dá aqui forma ao medo do mundo. O que une todas as fases (digo “fases” no sentido em que se diz “fases da lua”) da obra de Graça Morais é aquilo a que Alberto Moravia, falando do autor de “Accattone” e do “Evangelho Segundo S. Mateus” afirma: “ Pasolini escreveu que a piedade morrera. Ele entendia a piedade no sentido da relação religiosa com o real, isto é, o contrário da impiedade que ele via triunfar no hedonismo de massa.” Se, da sua madrugada ao seu entardecer, atravessarmos a obra de Graça Morais, vemos que o sentimento sagrado do real é o seu santo e a sua senha.

Neste ciclo, ao mostrar desastres, destruições, destituições, destroços, vitórias, dominações, euforias, dores, a pintora faz uma teologia-antropologia do nosso tempo (nesta série o tema da Pietà é insistido). Aqui, o esgar do atleta que vence está próximo do esgar do prisioneiro que é derrotado. Aqui, há mortos, vivos, assassinos, assassinados, fugitivos, refugiados, perseguidos, perseguidores, carrascos, vítimas, culpados, inocentes, mães, filhos, anjos, demónios. Aqui, há violência, crueldade, exaltação, pânico, perseguição, fuga, terror, sofrimento, piedade. Aqui, há a miséria do mundo, a violência da vida, a máscara da morte. Aqui, há bichos que são homens e homens que são bichos. Aqui, estão todos, mas não valem todos o mesmo.

Agora, estou a caminho do atelier de Graça Morais, na Costa do Castelo. Vou acompanhado de um amigo. Ele é transmontano como ela e eles falam disso como os iniciados falam da sua iniciação e do seu templo. Continuam a falar e eu oiço-os, suspenso da minha exclusão. Depois, a artista começa a mostrar-nos a sua arte. Vemos fotografias de jornais e vemos as obras que ela fez a partir daí (“imitação” no sentido aristotélico, citação icónica e plágio metafísico, digo eu). De repente, o atelier é o mundo. Subitamente, o atelier é o medo. Ela fala e mostra. Mostra e fala. Fala da mãe como origem, fonte, terra, memória. Fala da vida e destes dias que a negam. Fala e aponta para um desenho: aí um homem leva ao colo outro homem. Então, diz: “Nesta crise, todos trazemos alguém ao colo: um desempregado, um desalojado, um faminto, um doente, um deprimido, um abandonado.

Numa das suas parábolas mais terríveis, Franz Kafka conta que os leopardos entraram no templo e beberam o conteúdo dos vasos sagrados. Essa profanação repetiu-se com regularidade e método, tornando-se previsível. Acabou por pertencer ao ritual e passou a fazer parte da cerimónia.

Estamos num tempo entre estes dois tempos: o tempo da surpresa - medo do horror e o tempo da sua aceitação - normalização. Neste tempo entre esses dois tempos, a nossa responsabilidade é evitar a aceitação do inaceitável e a profanação do sagrado. O nosso dever é impedir a banalidade do mal (Hannah Arendt). Sophia de Mello Breyner, que Graça tanto admira, afirma: “Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres». Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa. // O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.

Estas obras de Graça Morais são o sinal de uma responsabilidade e de um dever. São feitas de alerta e de alarme. Mas, nesse alerta e nesse alarme, acende-se a possibilidade de que Kafka não tenha inteiramente razão quando afirma: “Existe esperança, esperança infinita, mas não para nós”. Porque, como diz Walter Benjamin, “é àqueles que não têm esperança que a esperança deve ser dada”.

Lisboa, Janeiro de 2013

José Manuel dos Santos [in Texto do catálogo 'Graça Morais - Os Desastres da Guerra']


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva


Os Desastres da Guerra, pintura e desenho de Graça Morais
31 de Janeiro · 14 de Abril de 2013


Série Sombras do Medo 2012 Pastel e carvão sobre papel 111,3 x 75,8cm

 Série Sombras do Medo 2012 Pastel e Carvão sobre papel 111,3 x 75,8 cm

Sombras do Medo

Pinturas nas quais homens e mulheres se transmutam em animais.
Animais que ganham a força dos heróis.
Anjos que carregam nos seus braço seres que são resgatados do Inferno e dos desastres das guerras e das doenças.
Piètas que revelam a natureza humana numa recusa em aceitar a fatalidade da maldade sem rosto que ensombra a Terra.
Estas pinturas e desenhos são o meu grito de alerta e revolta perante um mundo que apreendo através dos jornais, das televisões e dos media e que também sinto no olhar das pessoas com quem me cruzo no meu quotidiano, numa cumplicidade de olhares, cheios de dignidade mas também de muito sofrimento.


 Série A caminhada do Medo VII 2011 Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm

A Caminhada do Medo

Fuga do Caos e do Abismo.
São milhões de seres humanos que migram em busca de um futuro melhor. Fugidos de guerras, de genocídios, do terrorismo, de catástrofes naturais, lutando numa cruzada contra a fome, a doença, as injustiças sociais e as perseguições políticas.
É através destas pinturas que faço uma reflexão profunda sobre a resistência de mulheres e homens que procuram o seu lugar na Terra, lugar no qual recusam a fatalidade do Medo e a indignidade do Mal.


Graça Morais

· · ·

(...) O trabalho de Graça Morais trata do Tempo e do Lugar. Ela construiu a sua imagem investigando memórias e transformando realidades: a do Portugal rural que mudava e perdia o seu tempo e o seu lugar no Mundo. Através dela vimos Trás-os-Montes agarrando-se à longura do céu, à dureza do ar, à antiguidade da voz, à violência de uma beleza esquecida.

As duas séries que agora se apresentam, (…), surgem claramente como sobressalto cívico. Graça Morais reage, já não apenas a um presente que perde o seu passado mas a um presente que perde também o seu futuro. As longas e intensas cenas rurais de Graça Morais olhavam um mundo que lentamente se desagregava, eram uma acção de conservação, uma homenagem. Agora, são uma denúncia, um alerta. O tempo, aqui, é imediato e o espaço também – e ambos desabam vertiginosos sobre nós.
 E, no entanto, cada uma das imagens que ela nos atira, retoma, repete, cita rostos, gestos, cenas que ao longo da história da Arte tantos outros artistas retomaram, repetiram, citaram transformando o quotidiano em alguma coisa capaz de durar para além do instante de um grito – transformando-o em imagens, em símbolos. (...)

Há uma reinventada tradição expressionista na obra de Graça Morais que não encontra nunca tal grau de exasperação na pintura portuguesa que a precede; também não se encontra tal exasperação na literatura ou na música portuguesas. Porque procuramos o céu, se tem cores violentas? Porque erguemos um corpo, se é para ser cruxificado? Porque se exibe a carne para um sexo ritualizado? Onde nos conduzem os caretos mascarados, cornudos, demoníacos? Ou as facas de matança e as lâminas das sacholas?
(...)

Onde nos levam os corpos dobrados sobre a terra, semeando, esperando e arrancando os frutos, dobrados sobre o colo, tecendo ou debulhando, dobrados sobre os joelhos, rezando ou penando? Penso que nos transportam directamente às imagens que a artista agora trabalha: aos indignados da miséria urbana, aos que têm fome e aos que têm raiva, aos sacrificados das pequenas guerras que proliferam como doenças endémicas, às cenas sacrificiais e às cenas de piedade em que cada homem e cada mulher repete os gestos de todos os homens e mulheres de todas as cidades cercadas, queimadas, destruídas: Babilónia, Tróia, Persépolis, Cartago, Estalinegrado, Berlim, Hiroshima, Sarajevo, Bagdade, ... São gestos de morte e gestos de amor: cada um de nós, assassino; cada um de nós, figura de uma piéta.

Graça Morais usa fotografias da imprensa como fonte. (…) [Mas] Graça Morais altera escalas, espaços, gestos, posições, direcções, muda protagonistas. Faz tudo para alcançar uma verdade sua que deseja venha a ser universalmente reconhecida. [E, como sempre, são as construções ficcionadas que melhor nos trazem ao coração do real. Vejamos os casos de O 3 de Maio de 1808 em Madrid de Goya, da Guernica de Picasso ou da Execução do Imperador Maximilano, que Manet pintou em 1869. São essas pinturas que nos permitem] transcender o pessoal, o político, até o histórico, para integrar “o que aconteceu” (o facto isolado) no arco de sentidos profundos da tragédia humana.”

João Pinharanda (Excertos do texto 'Graça Morais: a Arte e o Presente' do catálogo)



Os Desastres da Guerra, pintura e desenho de Graça Morais, inaugura o ciclo de exposições temporárias do ano de 2013, na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva. Comissariada por João Pinharanda, a exposição tem o apoio mecenático da Fundação EDP. A exposição inaugura no dia 31 de Janeiro de 2013 pelas 18h30 e vai estar patente ao público até 14 de Abril de 2013.

Press release
Convite
The Disasters of War, paintings and drawings by Graça Morais, at the Arpad Szenes-Vieira da Silva Foundation (English booklet)



Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva | Praça das Amoreiras, 56/58 1250-020 Lisboa | Tel.( 351) 21 388 00 44/53 | Email. fasvs@fasvs.pt
Horário: De Quarta a Domingo, das 10h00 às 18h00. Encerra Segunda, Terça-feira
e feriados.


'Sombras do Medo' - Pinturas e Desenhos de Graça Morais


Sombras do Medo

Pinturas e Desenhos de Graça Morais | Galeria Gomes Alves

Inauguração dia 21 de Setembro às 22 horas

Série “Sombras do Medo” 2012, Sépia e grafite sobre papel, 29,5 x 42 cm

Inauguração da exposição 'Sombras do Medo' de pinturas e desenhos inéditos de Graça Morais na Galeria Gomes Alves no dia 21 de Setembro, pelas 22 horas com a presença da artista. A exposição estará patente ao público até dia 7 de Novembro de 2012.

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm



Galeria Gomes Alves
Rua Gravador Molarinho, 4820-142 Guimarães, Portugal
Horário: Terça a Sábado, 10h30 às 13h00 e 15h30 às 19h30
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O Sagrado e o Profano: Graça Morais no Convento de Santo António, Loulé



Inaugura no próximo dia 14 de Julho, pelas 19h00, no Convento de Santo António, a Exposição de Pintura “O Sagrado e o Profano: Graça Morais no Convento de Santo António, Loulé”.

Esta Exposição é composta por obras que fazem parte da colecção da Fundação Paço d'Arcos.



Sophia e o Anjo, 1987
Acrílico s/papel, 153 x 122cm

Desejo através dos meus quadros ter consciência de quem sou, questionar a minha existência, afirmar a minha identidade construída através de sinais, símbolos, imagens, memórias de uma realidade que me liga ao universo.

Com a minha pintura quero construir um espaço diferente e único, onde possa defender a minha personalidade nestes tempos de grande massificação. A reflexão que faço do mundo está toda nos quadros que pinto. O quadro é um território íntimo, de magia, onde a linha e a cor, o espaço e a luz aparecem carregados de profunda espiritualidade.

Graça Morais, 17 de Julho de 2000, Folha de um Diário

Máscaras de Graça Morais

Máscaras (X), 1988
Acrílico, carvão e sanguínea sobre papel, 52 x 72cm

A artista reúne aqui, nos temas e épocas de realização deste conjunto de peças, períodos significativos do seu trabalho como pintora e como desenhadora. As obras apresentadas constituem parte igualmente significativa da colecção de arte da Fundação Paço d’Arcos. Finalmente, o lugar que as acolhe, uma Igreja associada ao antigo Convento de Santo António, em Loulé, intensifica o sentido de interrogação e perplexidade, desafio e aceitação de contrários que deu sentido ao projecto de Graça Morais no contexto da criação de cada uma destas obras.

Sendo hoje um espaço sem culto, a referida Igreja continua a repercutir, nas suas formas arquitectónicas e escassos elementos decorativos sobreviventes à voragem dos séculos, a imagem de lugar sacralizado. Face a esta força primordial do espaço tudo nos conduziu para que, no contexto da vasta quantidade de obra de Graça Morais integrada na Colecção Paço d’Arcos, escolhêssemos um número vasto mas coeso de peças, cuja lógica nos faz percorrer a prática e o pensamento da artista desde os anos de 1980 ao presente século.

O Interdito Transfigurado 1987
Acrílico s/ tela, 146 x 114cm

A temática revela períodos de forte inquietação e reflexão da artista a propósito do fenómeno religioso no mundo actual. Evidentemente, não estamos perante obras religiosas, passíveis de integrar sem polémica um espaço de culto católico. Em cada momento as referências históricas e iconográficas são subvertidas quer no jogo interior das imagens quer no jogo entre as imagens e os títulos. Nas suas composições cruzam-se e sobrepõem-se, fundem-se, a iconografia religiosa e pagã, a história da pintura antiga e actual, a intromissão do quotidiano contemporâneo, a natureza animal e a humanizada, o lugar que concede à Mulher e a sua própria imagem como elemento auto-biográfico – no seu conjunto, estas pinturas e desenhos, constroem um discurso carregado de simbologias complexas, que nos permitem múltiplas soluções de descodificação.

Desenho e pintura convivem nas obras de Graça Morais de um modo estimulante. Muitas vezes desafiando-se e colaborando, mantendo identidades diversas mas construindo um discurso coerente. Há histórias implícitas em cada imagem – são narrativas religiosas ou ritualizadas, auto-biográficas, do quotidiano rural arcaico ou mais raramente (e recentemente) introduzindo elementos urbanos. Porém, em cada momento, a tensão formal, entre linha e mancha, traço e cor (coincidindo ou descoincidindo) e também o desejo de síntese dos elementos narrativos torna mais complexos os planos, os espaços e os tempos – de tal modo que cada obra, fazendo-se de uma acumulação de acções deve ser vista, de facto, como a captação de um instante extremamente denso da vida.

Esse instante dramático, capturado em cada imagem (imagem de imagens, tempo de tempos, espaço de espaços...), exibe uma intensidade que nos remete para um expressionismo erudito e histórico mas também popular e arcaico; e exige de nós uma identificação quase física com o motivo, como se, por reflexão e forçadamente, fossemos incluídos na superfície da tela ou do papel.

Lamento da Gaivota à mãe de Vasco da Gama, 2005
Carvão e pastel sobre tela 178 x 208cm

Ouve-se a dor da mãe de Vasco da Gama, transfigurada em gaivota e desumanizada na sua angústia (Lamento da Gaivota à mãe de Vasco da Gama, 1985), sente-se a tensão dos pesos opostos (a razão apolínia e a desrazão dionisíaca) desequilibrando a balança que o Anjo segura (Sophia e o Anjo, 1987). Em Salomé (1987) e Judith (1987) duvidamos das cabeças masculinas que deceparam: sente-se a sombra, quer da troca dos protagonistas quer da consumação, por interposição do mito pagão de Leda, de uma violação não consumada. Nas cenas da Paixão de Cristo, a sobreposição de tempos e corpos, atribui uma forte dimensão de erotismo ao sofrimento (Interdito Transfigurado, 1987 ou O Mistério do Último Instante, 1987, por exemplo).

A inquietante ambiguidade do ser masculino/feminino, detentor de um poder simultaneamente religioso e político que Graça Morais fixa em Mapas e o Espírito da Oliveira (a obra mais antiga da selecção, 1984 ) parece presidir ao conjunto de todas as outras cenas. Do mesmo modo que, na longa série de pinturas sobre papel (O Sagrado e o Profano, 1985-86), parece estar contido o desenvolvimento e complexificação das futuras projecções sobrepostas de tempos, sentidos e espaços de que vimos falando.

Graça Morais concretiza um re-contar de histórias universais eliminando as fronteiras de cada uma delas, não simplificando o mundo da narrativa e da pintura mas enriquecendo-o. Para tal coloca-se muitas vezes atrás de uma máscara e oferece-nos também um lugar atrás das máscaras que pinta: não para se esconder nem para nos escondermos dos outros e do mundo, apenas para o vermos melhor.

João Pinharanda (Comissário)
Bragança, 30 de Junho 2012



A Exposição vai estar patente ao público até 15 de Setembro, nos seguintes horários: de Segunda a Sexta, das 14h00 às 20h00, Sábados e feriados, das 10h00 às 14h00. Encerra aos Domingos.

Acesso: Junto à estrada para Boliqueime, no prolongamento da Rua de Nossa Senhora da Piedade.
Contacto para mais informações: Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara de Loulé: Tel. 289 400 600 E-mail: cmloule@cm-loule.pt