Artist Graça Morais show: 'The Walk of Fear'




Graça Morais' latest exhibition was inspired by the news. One of the most renowned Portuguese painters, Morais' new display has just opened in Oporto.

in Euronews (EN)

Cartaz das Artes: "2011 - A Caminhada do Medo" - Exposição de Graça Morais


Exposição de Graça Morais na Cooperativa Árvore, no Porto, até 20 Novembro.

"2011 - A Caminhada do Medo", a mais recente exposição de Graça Morais, inaugurou na Cooperativa Árvore, no Porto. A pintora transmontana confessou que quando começou a trabalhar nestes quadros não imaginava a actualidade que viriam a ter. Reportagem de Carla Carvalho.

SIC - Cartaz das Artes, 26.10.201



Entrevista a Graça Morais


Série A caminhada do Medo VII | Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm 2011



Pintura e desenho de Graça Morais cruzam-se na exposição “2011: A Caminhada do Medo”, que é inaugurada esta tarde na Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, no Porto.

Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Alexandre, Graça Morais conta que as obras expostas resultam de um intenso trabalho motivado pelas notícias de crise que são transmitidas diariamente pelos órgãos de comunicação social.

Os desenhos e pinturas reflectem os sentimentos de angústia e preocupação da autora em relação ao presente e ao futuro da Europa e do mundo, contrastando com a anterior série de trabalhos que retratava a natureza de Trás-os-Montes.


Entrevista áudio, Antena 1, 20 0utubro 2011

Antonio Tabucchi: Fim do Mito · Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais


Fim do Mito
Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais
Antonio Tabucchi

Série A Caminhada do Medo VIII | Pastel e carvão s/papel 102 x 152 cm 2011 
 Prémio de Artes casino da Póvoa’2011


HOMEM QUE PARTE – Não mais voltarei a carregar-te nos meus ombros, Pai, como há tantos e tantos anos, quando, destruída pelo inimigo, deixámos para trás a nossa cidade em chamas. Era longo o caminho que então percorri, lembras-te? Pesavas nos meus ombros com a leveza de uma pluma, consumido pelos anos e as penas. Disseste-me depois que parasse, querias o repouso eterno, eu continuei a caminho do Ocidente, porque é no Ocidente da Terra que existe a esperança de uma nova civilização, o Fado assim o quis. Nada trouxe comigo, levava para o Ocidente o nosso Oriente, o Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, o Oriente pomposo e fanático e quente, o Oriente onde – quem sabe? – Deus talvez exista realmente e mandando tudo... A tua candeia extinguira-se, e com ela o meu passado. Segui caminho levando o meu filho pela mão.

CORO – Apressa-te, o barco está prestes a zarpar, temos de levantar âncora, o tempo urge.

HOMEM QUE PARTE – Pai, tenho de partir, Ascânio já está a bordo.

CORO – Não saiba o teu filho que vais partir! Ignaro, dorme no chão ainda quente dos incêndios, não podemos levá-lo connosco: crianças, o Ocidente não as quer, aceita quando muito a força dos teus braços.

PAI (murmurando) – Por que não deu ninguém ouvidos a Cassandra?

CORO – Porque não há rebeldia contra o Fado, tentou-o Laocoonte, e os deuses enviaram duas serpentes marinhas que em seus anéis o estrangularam, e a seus filhos. Esses mesmos deuses que enviaram o cavalo com a barriga de fogo para destruir os nossos costumes e trazer-nos os seus, a que chamam democracia.

HOMEM QUE PARTE – A democracia deles são ruínas fumegantes, morte, desespero e cinzas, e de tudo isso hão-de sacar muito dinheiro, porque é negócio a guerra que fazem.

CORO – Vem, estulto homem pronto a partir, aproveita o nosso barco, não és nenhum herói, já não és um cidadão, nem sequer és um homem, és tão-só um migrante.

PAI – Tens de ir, Eneias.

CORO – Eneias foi seu nome em tempos, agora Anónimo é seu nome. Anónimo, tens acaso documentos que digam que és alguém?

HOMEM QUE PARTE – Pai, não voltarei a ver-te nunca mais?

PAI – Encontraste-me em tempos nos Campos Elísios, a Sibila conduziu-te ao reino do Hades. Com ela atravessaste o Estige e por três vezes abraçaste a minha sombra.

CORO – A Sibila morreu há muito, e o Hades fechou. Existe, sim, o fundo do Mediterrâneo onde apodrecem os cadáveres dos migrantes deserdados pela sorte.

PAI – E depois do terceiro abraço a minha sombra explicou-te a doutrina dos ciclos e dos renascimentos que rege o universo, e confortado com a minha explicação alcançaste a Itália, habitada por gente bárbara, e fundaste Roma, de cuja civilização nasceu a Europa.

CORO – Velho, nada ficou por fundar. Hoje, a Europa que nasceu da cidade fundada por teu filho já não quer intrusos, ferozmente coalizada, tem uma frota costeira que vigia os desembarques, afunda embarcações tão miseráveis como as nossas; essas criaturas outrora bárbaras enriqueceram, uns mais, outros menos, porque os pobres fazem falta aos ricos, e sem os pobres nunca os ricos seriam ricos. Mas os ricos que aí ordenam não querem gente mais pobre do que os seus pobres, para que a sua riqueza não se desvalorize e não se perturbe o equilíbrio entre os ricos e os pobres que sustenta a sua sociedade. Apressa-te a subir, pobre migrante, a passagem que te oferecemos, por nossa conta e risco, custa-te apenas dois mil dinheiros, na moeda actual exactamente o mesmo que um habitante itálico pagava para apanhar o vapor para as Américas, um habitante das Germânias para fugir para a Argentina, um lusitano para dar o salto. E hoje, quando cada um deles se encontra bem defendido nas fronteiras de um espaço comum, é difícil forçar as portas de Schengen. Eles desembarcaram na Lua e os astros não opuseram resistência. Mas é proibido desembarcar nas margens da Fortaleza de Schengen.

HOMEM QUE PARTE – E o nosso Mito, Pai?

PAI – Não sei.

CORO – Em tempos, o Mito era o nada que é tudo. Hoje, é apenas o nada. Partamos.


Isto diziam, sem o dizerem, as figuras de um quadro de uma pintora portuguesa numa luminosa tarde do Verão de 2011, em Lisboa, numa casa antiga da Costa do Castelo. Ao contemplá-lo, ouvi as suas vozes e, tal como as ouvi, agora as transformo em escrita, sem nada acrescentar.

                                                                                                                                 Antonio Tabucchi
                                                             [in Catálogo da Exposição Graça Morais · 2011: A Caminhada do Medo]


Tradução do texto "FINE DEL MITO · Piccolo intermezzo su un quadro di Graça Morais" por Gaëtan Martins de Oliveira