POR OUTRO LADO com GRAÇA MORAIS na :2



POR OUTRO LADO na :2 Hoje ás 23:30 com GRAÇA MORAIS

Nasceu na Terra Quente transmontana e, sem saber muito bem porquê, desde criança declarou que queria ser pintora. Estudou pintura na Escola de Belas Artes do Porto mas foi na observação dos trabalhos repetidamente visitados nos museus, pelo mundo fora, que encontrou as maiores aprendizagens. As mulheres ocupam um lugar central na sua obra onde a crueza, quase a crueldade, não cedem lugar a efeitos decorativos nem a falsas bondades. Depois de ter pintado as mulheres de Cabo Verde, deteve-se no olhar azul dos homens do mar de Sines e regressou, como sempre, ao atelier na Costa do Castelo, em Lisboa, onde se isola num ambiente de silêncio.



Com as entrevistas do programa "Por Outro Lado", a jornalista Ana Sousa Dias

pretende dar a conhecer personalidades ligadas a mundos tão diferentes como as artes plásticas, a política, a ciência, o trabalho humanitário ou o desporto. O nome do programa resulta da tentativa de revelar aspectos menos públicos das figuras que já são conhecidas, mas também de levar à televisão pessoas que não surgem habitualmente na comunicação social. Ao longo dos 50 minutos do programa, a conversa acompanha o percurso do entrevistado e detém-se em aspectos particulares da sua actividade - ou das diferentes actividades que desenvolve - sempre de uma perspectiva jornalística, mas sem depender de critérios de actualidade. O registo intimista, potenciado por um cenário sóbrio e por um jogo de espelhos que mantém sempre em cena o entrevistado e a entrevistadora, não se confunde com o desrespeito pela intimidade ou a privacidade.




    Exposição de Graça Morais






    Hoje, ás 20 horas inaugura uma exposição de Graça Morais na Galeria da Ordem dos Médicos.

    “Desejo através dos meus quadros ter consciência de quem sou, questionar a minha existência, afirmar a minha identidade construída através de sinais, símbolos, imagens, memórias de uma realidade que me liga ao universo.
    Com a minha pintura quero construir um espaço diferente e único onde possa defender a minha personalidade nestes tempos de grande massificação. A reflexão que faço do mundo está toda nos quadros que pinto. O quadro é um território íntimo, de magia, onde a linha, a cor, o espaço e a luz aparecem carregadas de profunda espiritualidade”.

    Extracto do diário de Graça Morais publicado no livro “Uma Geografia da Alma”
    17 de Julho de 2000

    Galeria da Ordem dos Médicos» Av. Almirante Gago Coutinho, 151 Tel. 21 842 71 00
















































































    Diário escrito e pintado à sombra de uma perdiz


    Por Ana Marques Gastão

    No princípio há o pânico e depois um instinto absoluto de sobrevivência, de criar alguma ordem para lhe poder escapar. A ideia é de Louise Bourgeois, mas adequa-se ao processo de composição do diário de Graça Morais: singular, maduro, pungente, escrito-pintado num só dia, em Freixiel, Trás-os-Montes. A exposição inaugura-se hoje, na Galeria Ratton, às 22.00.

    Este "jogo" impaciente de palavras e imagens, territórios próximos onde coabitam necessariamente tensões e paradoxos, revela momentos isolados, meditativos, fundados numa colecção de espaços e memórias ligados à infância, à terra, à infância da terra na sua pureza e decadência.

    Nesta materialização do texto na pintura, encena-se não propriamente uma narratividade das imagens, mas uma tessitura de pensamentos, silêncios, interrogações, reeinvenções da nostalgia de um tempo que já não volta. Não é decisiva, nestes trabalhos, a caça de um efeito, mesmo tendo em conta a técnica apurada. Reconhece-se, porém, na impaciência da arte, a afirmação de um caminho sólido, coerente, diferenciado.

    Os desenhos, exactamente 31 (a tinta da china e a sépia sobre papel) dizem, na sua expressividade intensa e não menos contida, de uma fractura íntima ("Só sinto e muito, a chuva, a tristeza, a música, a angústia de não saber nada. Só sei que preciso de desenhar e muito. À procura, sempre à procura!"), de um sentir estilhaçado, abrindo brechas num presente de insatisfações e desejos.

    Graça escreve enquanto a mão avança no desenho, tranquila e vibrátil: "Regresso a Freixiel. Casa quente, acolhedora, mas uma ilha, enorme, fechada. Todos os dias me procuro numa solidão angustiante. Duvido do que faço. Sinto-me pendurada, não pertenço a nenhum lugar? Porque estou tão agarrada a este sítio?", questiona-se a pintora. Consciente do desenraizamento, pensa sobre o exílio do artista, a passagem do tempo, a incompletude do saber, a morte e o seu pressentimento, reencontrando-se na perdiz que pinta e confunde com os humanos. Tudo se extingue, afinal, e logo renasce na estranha metamorfose da vida.

    O diário foi escrito no dia da trasladação de Lúcia, a escrita e o desenho rodeiam o acontecimento: "Na aldeia as pessoas resguardam-se debaixo do cabanal dos autocarros, gente sem risos, sérios, olhos fixos na estrada e no chão. Em casa, minha mãe ouve a 4.ª missa do dia. Em Fátima, Lúcia reúne milhares de pessoas. Tudo em directo, gente de fé, gente sem futuro, gente que acredita para viver e para morrer em paz."


    Entre o caos desolador da cidade e o campo envelhecido, Graça Morais comenta: "Sinto que tudo se está a perder, vêem-se poucas pessoas, muitas mulheres, gente pensativa de olhar baixo", diz, relembrando as terras do Nordeste transmontano, as suas, pertencentes a um país que "nos tira energias e nos rói a carne e os ossos. Ficamos com pouco".


    Dia muito intenso, o da feitura do diário, escrito e pintado na mudez da sombra e no "mistério de um viver intrigante". A pintora procura o outro lado de ver por dentro, desenha o que quase não pode ser dito e, como um cirurgião, num metódico exercício, disseca, num gesto rápido, a perdiz a perder sangue pelo bico; pinta uma mulher-bicho a guardar um rebanho de batatas greladas que "não servem para nada"; desenha duas figuras (a mãe e a empregada, modelos de há anos) a conversar sobre a terra como se nela se fundissem: "Já não são pessoas, mas pó", resquício de "um tempo outro sem televisão", salienta.


    Lateja neste ciclo de desenhos uma certa desmesura harmoniosa e negra na apreensão da vacuidade do mundo, mas nele habitam também cintilações na claridade leve de um gosto pela vida. Este capta-se na incandescência da música (Mozart, Haydn...) e da criação indecifrável.

    Táctil, o diário transforma a dor sem a reduzir a cinzas. Atormentado, frutifica numa tensão interiorizada, visceral, em comunhão com a natureza e, nessa organicidade, demonstra como a arte é reiniciadora, variando laboriosamente até atingir momentos em que estranheza e indizível se tocam. E assim a perdiz se transforma em filho nos braços de um homem, qual Pietà ou grito.