"O Rosto do Medo" é a mais recente exposição de Graça Morais





Extracto de As Horas Extraordinárias com Teresa Nicolau, 19 de Maio 2016.
A nova exposição da pintora está patente na Galeria Ratton, em Lisboa, até 29 Julho.
A pintora Graça Morais questiona o destino do planeta perante as imagens de caos e desumanidade.


Filmado a partir da Galeria Ratton, onde estão expostas as obras de Graça Morais, exposição intitulada o Rosto do Medo, até 29 de Julho
19 Maio 2016, RTP


O Rosto do Medo



Por Sílvia Souto Cunha

Pinturas, desenhos, trabalhos em azulejo, contaminados pela realidade que todos contemplamos diariamente em jornais e televisões, eis a produção recente de Graça Morais, agora apresentada numa galeria cúmplice.

Guerras, refugiados, incerteza, violências várias, uma espécie de realidade expressionista, por assim dizer, são os temas com que a pintora se confrontou, assumindo uma postura cívica de não virar a cara - que, adivinha-se, estende até à folha de papel.

Veja-se o perturbador desenho a tinta da china, datado já deste ano, em que uma mulher tapa um dos olhos mas continua a ver a violência exercida por uma figura masculina, manápula em torno de uma ave indefesa.

A exposição O Rosto do Medo apresenta-se como um quase- manifesto, “um apelo à força e energia do Homem perante todos os desafios”. A mensagem é passada através de sete desenhos de pequena dimensão,11 pinturas (alternando acrílico, pastel, tinta-da-china, e carvão sobre papel) e ainda um conjunto de azulejos.

Em suma, todos os media familiares à artista, que não tem abdicado de uma visão lúcida sobre o mundo, mesmo quando este é observado a partir de geografias domésticas ou desses corpos de mulheres-medeias ou mulheres- -meninas. Entre a identidade mais chã e a desumanização contemporânea, a artista renova, aqui, a sua militância.

in Visão Nº1211 (suplemento), de 19 de Maio a 25 de Maio de 2016 (Edição em papel)

Graça Morais: "Pinto com o coração na mão e na cabeça"


Graça Morais | Jorge Amaral/Global Imagens

Entrevista por Mariana Pereira

"O Rosto do Medo", que inaugura hoje na galeria Ratton, mostra as figuras dos nossos dias a caírem e a levantarem-se. A gente comum, os que a crise abalou, os refugiados, as mulheres maltratadas

Onde começa uma exposição como O Rosto do Medo? Com um desenho, uma ideia, uma fixação?

Comecei a fazer estes desenhos, os mais pequenos, no verão de 2015. Fi-los porque estava a precisar muito de os fazer. Foi uma altura em que eu estava a viver uma situação muito difícil, estava com pessoas muito perto de mim, familiares, muito doentes; e ao mesmo tempo via e lia todos os dias notícias sobre os refugiados. Houve um conjunto de situações que me angustiaram muito. Tive necessidade de as escrever, de as desenhar, e sobretudo de as pintar.

Encontrou uma afinidade maior entre estas situações tão díspares: acompanhar alguém doente, e ter de deixar tudo para trás?

Eu acho que o sofrimento pessoal torna-se num sofrimento universal quando estamos em sintonia com o que se passa à nossa volta. Estes não são desenhos ilustrativos, mas são imagens de rostos em sofrimento, de angústia, e alguns de verdadeiro medo. Quando estamos a viver situações muito dolorosas entendemos melhor a situação de outros seres humanos. Quando as coisas todas correm bem, às vezes tornamo-nos egoístas. Às vezes tendemos a tapar a cara e não ver.

Como naqueles seus dois quadros em que a mulher tapa metade da cara com a mão.

Quando nós temos consciência das situações, ainda só tapamos metade da cara. Quando estou em casa, a ver o telejornal, acontece-me estar a comer, parar e dizer: "Que horror, a que é que estou a assistir?" Mas tornamo-nos insensíveis e continuamos a comer. Essa imagem de tapar só meia cara é a imagem de ver com um olho e com o outro esquecer o que se está a ver.

No momento de pintar não há mãos a tapar?

Não. O momento de pintar é de grande lucidez e de grande relação com o mistério. Isto é o meu testemunho durante os últimos meses do ano passado, e deste ano. O país estava a viver uma austeridade terrível. Todos nós sofremos. O que eu sentia era que à minha volta havia uma tristeza colectiva. Neste momento, felizmente, acho que estamos a viver um período de maior optimismo, maior esperança.

Estes quadros parecem trazer ainda a violência que provoca o sofrimento ou o medo. É assim?

Sobretudo a violência naquelas figuras de mulheres. No ano passado, abríamos os jornais, as televisões, e houve um período trágico, muitas mulheres no nosso país foram maltratadas e assassinadas.

Há ali uma mulher de cabeça baixa, com asas.

Sim, que está a chorar. Os anjos também choram. Nós vivemos rodeados de pessoas que são anjos e outras que são verdadeiros diabos.

As mãos vermelhas num dos quadros são de vítima ou de agressor?

Aquelas mãos são mãos de uma vítima. Nem tudo aparece de forma consciente. Quando desenho ou pinto obedeço a uma necessidade muito forte, mas não sei explicar tudo o que faço.

Estas figuras vêm-lhe do que viu em Trás os Montes, ao crescer?

Estas três figuras que estão ali são mulheres do mundo rural. E são mulheres que, ao longo da minha vida - e agora começo a ter quase a idade delas -, viveram uma vida com uma grande resignação, mas também com um grande sofrimento. O modelo de virtude delas era a figura da Mater Dolorosa, a mãe de Jesus. São mulheres muito pacificadas, não revoltadas.

Via-as na rua e sabia o que se passava nas suas casas?

Vi-as na rua e na luta que elas faziam. A grande concentração dos sentimentos delas é em relação aos filhos, o prolongamento delas próprias, e pelos filhos elas fazem todos os sacrifícios.

Sendo mulher, como se está, por um lado, com um pé na vida e, por outro, na distância suficiente para representar tudo isso?

Acho que nós, as mulheres, porque somos mães, e sabemos gerar um ser humano, conseguimos estar profundamente ligadas ao universo através de um ser humano, que são os nossos filhos, mas também de outras pessoas que sentimos como se nos pertencessem. Nestas situações de grandes dramas, repare que quem vem muitas vezes para a frente revoltada e a falar é a mulher. As mulheres gritam, são corajosas, os homens são corajosos de outra maneira. Mas a mulher tem o coração junto da boca.

Pinta com o coração na boca?

Pinto com o coração na mão e na cabeça.

E então o que tem a dizer fica dito.

Sim. Não sei explicar por que é que chego a uma altura e digo: Não consigo fazer mais e já fiz o melhor que pude. Parece que é um anjo que me pega na mão e diz: Agora já chega, já acabaste. Quando estou a pintar estou sempre a interrogar-me sobre o que estou a fazer. Há um momento em que a interrogação tem respostas certas.

Está em paz com esta mostra?

Estou. Quando nós fazemos, em consciência, as coisas bem feitas, ou somos úteis, ou fazemos o melhor que podemos, isso dá uma paz muito grande. Tento mostrar que não sou cúmplice em relação a certas situações, que estou atenta. Ao mesmo tempo, é uma necessidade profunda.


in Diário de Notícias, 19 de Maio de 2016

Graça Morais O Rosto do Medo na Galeria Ratton



Graça Morais
O Rosto do Medo
Azulejo, Pintura e Desenho sobre Papel

Foto Miguel Silva 2016


No momento em que se questiona o destino do planeta perante as imagens de caos e desumanidade que nos chegam todos os dias, a exposição da pintora Graça Morais, O Rosto do Medo, é um apelo à força e energia do Homem perante todos os desafios.

Ao longo da sua carreira, Graça Morais tem-nos surpreendido com o profundo equilíbrio entre a expressão das suas raízes, que cultiva com uma dimensão poética encantatória, e a lucidez da sua visão universal que assume com a consciência de uma responsabilidade ética sem concessões.

E em ambos os pólos nucleares da sua temática, é bem patente a autenticidade e a força emotiva manifestadas em cada obra, qualquer que seja o suporte e a dimensão, na composição, no desenho, na pintura, e até na ”narração” implícita que está presente em cada figura ou simples.

Graça Morais prossegue assim, através da pintura e do desenho, o seu diálogo com a Humanidade, apelando à consciência do tempo histórico que atravessamos e dos riscos que nos ameaçam.

A nossa permanente colaboração com a pintora Graça Morais, tem contribuído para um notável enriquecimento da Arte Pública, com os seus painéis em azulejo situados um pouco por todo o país, e fora de Portugal numa das principais estações de metro de Moscovo, em lugares públicos frequentados pelas populações que com eles convivem diariamente.

(...) É o medo que se instala e é mais forte do que a capacidade de resistir. A violência nunca é legítima, mas deixa-nos sem possibilidade de resposta. Podemos muito pouco. Os focos de guerra multiplicam-se. E se há ameaças, há refugiados e há egoísmos. Como poderemos responder? Como poderemos resistir? Isoladamente somos impotentes. E a Arte não tem resposta porque a humanidade ainda não a encontrou. Mas há inquietação. E a indiferença gera a angústia. Há rostos de medo que não podem deixar de ser vistos e os artistas não os podem esquecer. (...) ( G.O.M. )

A colaboração do Dr. Guilherme d’Oliveira Martins nesta publicação sobre a exposição, que apresenta um conjunto de obras recentes, entre o desenho, a pintura e a presença do azulejo, transmitindo-nos uma visão própria sobre o conjunto das obras e a sua oportunidade, tem um significado muito especial que queremos sublinhar e agradecer.

Ana Viegas e Tiago Montepegado
Galeria Ratton

Inauguração dia 19 de Maio, às 19 horas até às 22 horas




Rua Academia das Ciências 2 C, 1200-004 Lisboa
galeriaratton.blogspot.com
Tel. 21 364 09 48
Mapa no Google https://goo.gl/maps/xT56EbnDtD92


Graça Morais foi distinguida com o ‘Prémio Obra de Vida’ SOS Azulejo 2015


Graça Morais foi distinguida com o ‘Prémio Obra de Vida’ SOS Azulejo 2015


O Museu de Polícia Judiciária anunciou ontem que o júri dos ‘Prémios SOS Azulejo 2015’, presidido pelo professor Vítor Serrão, seleccionou no passado dia 13 de Abril os galardoados deste ano, tendo sido atribuídos 6 Prémios e 10 Menções Honrosas.

O ‘Prémio Obra de Vida’ será atribuído a Graça Morais, que receberá o galardão das mãos de Manuel Cargaleiro, vencedor do ano passado nesta categoria.

A cerimónia de entrega dos ‘Prémios SOS Azulejo 2015’ realizar-se-á no Palácio Marquês da Fronteira, no próximo dia 24 de Maio.

As Entidades Parceiras do Projecto ‘SOS Azulejo’ instituíram Prémios de Protecção e Valorização do Património Azulejar português (e/ou de origem/tradição portuguesa) designados ‘Prémios ‘SOS Azulejo’’, cuja atribuição é anual.



Graça Morais "O Rosto do Medo" na Galeria Ratton
Prémio "Obra de Vida 2015" SOS Azulejo





(...) A nossa permanente colaboração com a pintora Graça Morais, tem contribuído para um notável enriquecimento da Arte Pública, com os seus painéis em azulejo situados um pouco por todo o país, e fora de Portugal numa das principais estações de metro de Moscovo, em lugares públicos frequentados pelas populações que com eles convivem diariamente.

O reconhecimento deste trabalho com a atribuição do prémio ‘Obra de Vida’ dos prémios SOS Azulejo 2015 à pintora Graça Morais, constitui mais um incentivo para continuarmos a contribuir para o enriquecimento do nosso património azulejar.

Ana Viegas e Tiago Montepegado


Mais informação
http://www.sosazulejo.com/?p=2640
https://www.facebook.com/projectososazulejo/
https://www.facebook.com/GaleriaRatton/


Graça Morais Na Cabeça de uma Mulher está a História de uma Aldeia





Graça Morais – Na Cabeça de uma Mulher está a História de uma Aldeia
2000, cor, 32m, Portugal
Realização Joana Morais

Graça Morais - Ritos e Mitos


Graça Morais
Ritos e Mitos
Quarenta anos depois 1974 / 2014



Rostos e gestos, tramas narrativas de sacralidade e morte, cenas de trabalho e rituais, acusam as marcas de uma obra que, não obstante a variação de estratégias formais e criativas que mobiliza, não abdica do real como referência, que aqui é feito de terra e de mistérios ancestrais e tem profunda ligação à memória e aos afectos.

Transfigurado ou metamorfoseado através da distorção e da sobreposição de linhas e formas, capazes de desencadear distintos níveis de leitura, cada obra é metáfora pictórica não só do encontro com o Trás-os-Montes de Graça Morais, mas da interpretação e da inquietante reflexão que, a partir deste território antigo em iminente desagregação, a artista faz do mundo.

Em permanente reinvenção e revisitação de temas e abordagens, a obra de Graça Morais tem vindo a desenvolver-se, ao longo destes quarenta anos, a partir de uma linguagem muito própria, assente em múltiplas derivações e em sucessivas deambulações criativas, que se sobrepõem, combinam ou interrompem e fazem dela uma obra à parte, inconfundível, no contexto da arte contemporânea portuguesa.

A sua prática pictórica não está no registo do pitoresco ou na captação sob ponto de vista etnográfico para memória futura, está antes na exploração de um imaginário e no modo como explana, com grande sinceridade pictórica, o que observa e lhe subtrai a redutora referência naturalista.

A escala cronológica da exposição que agora se apresenta na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, é ampla, reunindo, no domínio do desenho, actividade dorsal do seu processo criativo, uma selecção de trabalhos emblemáticos de séries como, Marias, Metamorfoses, Procissão ou Desenhos de Abril, permitindo, de algum modo, o reencontro com uma grande variação de temas e estilísticas já tratados por Graça Morais.

Patente até 31 de Janeiro de 2015, de Terça a Domingo, das 10h às 17h30.

Comissário: Jorge da Costa
Produção: Sociedade Martins Sarmento
Centro de Arte Contemporânea Graça Morais


Sociedade Martins Sarmento
Rua Paio Galvão
4814-509 Guimarães
Tel: + 351 253 415969
Fax: + 351 253 519413

Horário de abertura ao público:
Terça a sexta-feira: 9:30/12:00 e 14:00/17:00
Sábado: 9:30/12:00 e 14:00/17:00
Domingo: 10:00/12:00 e 14:00/17:00
Encerra à segunda-feira



La Magia de la Caza



Inauguración de la exposición 5 de Julio a las 21:30 horas en el Centro de Arte Contemporáneo Graça Morais, en Bragança

Graça Morais – Passeio a água d’Alte, 2010. Acrílico sobre lienzo, 73 x 100 cm. Colección del artista.

La Magia de la Caza de Graça Morais
Pintura y Dibujo
5 de Julio de 2014 a 25 de Enero de 2015

En este territorio maravilloso mi gran libertad se manifiesta a través del acto de crear.
Pinto el reino de la metamorfosis donde las perdices, las liebres, los perros, las mujeres y los hombres se funden entre sí con la terra y con las plantas.
Estas pinturas y dibujos pertenecen al orden y al caso de los ciclos de la naturaleza; viven de la lucha y la reconciliación del Animal con el Hombre.
                                                Graça Morais

Como personajes de un drama antiguo, presa y cazador consustancian un conjunto de trabajos realizados por Graça Morais entre 1978 y 1979, en Paris, un inquietante análisis en torno a la estructura de la sociedad tradicional transmontana.

En una aparente visión poética de la vida en el campo, marcada por la exuberancia de la paleta cromática con la que satura los lienzos, Graça Morais introduce, a partir de la temática de la caza, preguntas sobre la legitimidad de un universo pautado por la ambivalencia entre la condición del hombre y la mujer, indiciada por la sutiles juegos de poder y sumisión, de amor y muerte, y nos conduce a mundos paradójicos e inesperados.

Además de lo que es un mero juego de caza y del cazador, a la vez mágico y cruel, el conjunto de trabajos es entendido como una metáfora de deseo y de poder sobre la mujer y cada lienzo tiene implícito la denuncia “de una agresividad viril” o la “brutalidad machista”, que la presencia de objetos como el arma de caza intensifican.

Generalmente muerta, la perdiz, al igual que la liebre, es, así, dentro de su sistema plural de signos, una “especie de Leitmotiv en tantas obras – es una imagen de diferentes significados y de diferentes equivalencias femeninas; ella es víctima del juego del macho, presa de su placer y de una violencia de deseo.”1

Al conjunto de trabajos, presentados a finales de la década de los 70, en el Centro Cultural portugués de la Fundación Calouste Gulbenkian, en Paris, se añade ahora, pasados cuarenta años, una importante serie de trabajos inéditos, realizados en 2010. En un intento de reanudar vínculos con un tema ya tratado, es, en ausencia de la figura del cazador, lo femenino lo que domina cada lienzo o dibujo, bien sea en forma de mujer, liebre o perdiz.

Comisario: Jorge da Costa
Producción: Centro de Arte Contemporáneo Graça Morais
Ayuntamiento de Bragança

1 AZEVEDO, Fernando de – Graça Moraias – Ainda o Mito e a Graça. Coloquio Artes.
Lisboa: Fundación Calouste Gulbenkian, nº 72, (marzo de 1987), págs. 19-25




Centro de Arte Contemporáneo Graça Morais
Calle Abilio Beça, 105
5300-011 Bragança
Tel: (351) 273 302 410
centro.arte@cm-bragança.pt

A Magia da Caça



Inaguração da Exposição

A Magia da Caça de Graça Morais
Pintura e Desenho
5 de Julho às 21h 30

Graça Morais – Passeio a água d’Alte, 2010. Acrílico sobre tela, 73 x 100cm. Colecção da Artista


Neste território maravilhoso a minha grande liberdade manifesta-se no
acto de criar.
Pinto o reino das metamorfoses onde as perdizes, as lebres, os cães, as
mulheres e os homens se fundem entre eles com a terra e com as plantas.
Estas pinturas e desenhos pertencem à ordem e ao caos dos ciclos da
natureza; vivem da luta e da reconciliação do Animal com o Homem.

                                                                                      Graça Morais


Como personagens de um drama antigo, presa e caçador consubstanciam num conjunto de trabalhos realizados por Graça Morais, entre 1978 e 1979, em Paris, uma inquietante análise reflexiva em torno da organização da sociedade tradicional transmontana.

Numa aparente visão poética da vida no campo, marcada pela exuberância da paleta cromática com que satura as telas, Graça Morais introduz, a partir da temática da caça, questões sobre a legitimidade de um universo pautado pela ambivalência entre a condição do homem e da mulher, indiciada pelos subtis jogos de poder e submissão, de amor e morte, e nos conduz a mundos paradoxais e inesperados.

Mais do que um mero jogo de caça e do caçador, simultaneamente mágico e cruel, o conjunto de trabalhos é entendido como uma metáfora do desejo e do poder sobre a mulher e cada tela tem implícita a denúncia “duma agressividade viril” ou de um “brutalismo machista”, que a presença de objectos como a arma de caça intensificam.

Geralmente morta, a perdiz, como a lebre, é, assim, dentro do seu sistema plural de signos, uma “espécie de Leitmotiv em tantas obras – é uma imagem de diferentes significações e de diferentes equivalências femininas; ela é vítima do jogo do macho, presa do seu prazer e de uma violência de desejo.”1

Ao conjunto de trabalhos, apresentados em finais da década de 1970, no Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, associa-se agora, passados quarenta anos, uma significativa série de trabalhos inéditos, realizados em 2010. Numa tentativa de reatar vínculos com o tema já antes tratado, é, na ausência da figura do caçador, o feminino que domina em cada tela ou desenho, seja em forma de mulher, lebre ou perdiz.

Comissário: Jorge da Costa
Produção: Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Câmara Municipal de Bragança

1 AZEVEDO, Fernando de – Graça Morais – Ainda o Mito e a Graça. Colóquio Artes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 72, (Março de 1987), pp. 19-25.



CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA GRAÇA MORAIS
Rua Abílio Beça, nº 150
5300 – 011 Bragança - Portugal
Tel: (351) 273 302 410
centro.arte@cm-braganca.pt
www.cm-braganca.pt


Graça Morais recebe Grande Prémio da Academia de Belas Artes




Entrevista com Helena Esteves, Antena 1, 15 de Outubro 2013

por Helena Esteves/Sandra Henriques

Graça Morais recebe esta terça-feira o Grande Prémio da Academia Nacional de Belas Artes, uma distinção que foi atribuída por unanimidade e serve para destacar toda uma vida dedicada à criação artística. A pintora sublinha que tem dedicado a sua obra ao mundo que está em agitação e aproveita para criticar as políticas do Governo que atacam os mais velhos.

“É uma vergonha que se está a fazer às pessoas mais velhas, porque os mais velhos são os mais indefesos. As pessoas a partir de uma certa idade não podem procurar trabalho em lado nenhum e o que está a acontecer é tão absurdo e dramático que parece um grande pesadelo”, afirma Graça Morais.

A artista de 65 anos destaca a importância de receber o Grande Prémio da Academia Nacional de Belas Artes, que já distinguiu entre outros os pintores Júlio Pomar, Júlio Resende e Maria Keil.

“Vivemos tempos tão difíceis em que o artista é ignorado pela indiferença de poderes, que o deveriam apoiar e valorizar, e existir uma Academia Nacional de Belas Artes constituída por pessoas extraordinárias que está atenta às obras dos artistas intelectuais neste país é uma resposta luminosa a um mundo tão cheio de sombras”.

“Da terra ao mar”, uma antologia de trabalhos da pintora natural de Vieiro, Trás-os-Montes, pode ser vista até ao final de novembro no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança.

RTP, 15 de Outubro 2013


Graça Morais - Uma Antologia • Da Terra ao Mar - Pintura e Desenho, 1970/2013


A inauguração da exposição Uma Antologia - Da Terra ao Mar - Pintura e Desenho, 1970/2013, de Graça Morais, acontece no próximo dia 30 de Junho, pelas 16h00, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, dia em que comemora o seu 5º aniversário.

Às 18h00 debate sobre a obra de Graça Morais com a participação de Raquel Henriques da Silva e Jorge da Costa, com a presença da artista.



Graça Morais - Uma Antologia • Da Terra ao Mar - Pintura e Desenho, 1970/2013

Alicerçada numa gramática pictórica única e inconfundível, a prática artística de Graça Morais tem evoluído, ao logo das últimas quatro décadas, em ciclos sucessivos e bem demarcados, que não só configuram a proficiência das diversas fases que compõem a sua obra, como legitimam a coerência do seu todo.

Com inequívoca expressão no contexto da arte contemporânea portuguesa a partir da década de 1980, Graça Morais desenvolveu, à margem de princípios doutrinários dominantes ou movimentos artísticos transitórios, uma linguagem muito própria, assente em múltiplas derivações formais e em sucessivas deambulações criativas, que, não raras vezes, se sobrepõem, interrompem ou combinam, “como se fossem ou pudessem ser estados de uma obra que não se aceita a si mesma, nunca como um encerramento”.

Na comemoração dos seus cinco anos de existência, o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais apresenta, pela primeira vez, em todos os espaços expositivos, reunindo, numa cronologia abrangente e exaustiva, a maior mostra antológica da artista, demarcada entre os trabalhos realizados em 1970, enquanto finalista da Escola Superior de Belas Artes do Porto, e uma intervenção efémera nas paredes de uma das salas, criada especificamente para esta ocasião.

A par de um conjunto significativo de obras que nunca tinham sido expostas até ao momento, capazes de surpreender mesmo aqueles que julgam conhecer bem o trabalho de Graça Morais, integram esta antologia obras emblemáticas de séries como “O Rosto e os Frutos”, “Os Cães”, “Cabo Verde”, “As Escolhidas”, “Geografias do Sagrado”, “Deusas da Montanha”, “Olhos Azuis do Mar” ou “Sombras do Medo”.

Comissário: Jorge da Costa
Produção: Centro de Arte Contemporânea Graça Morais; Câmara Municipal de Bragança


30 de Junho a 30 de Novembro
Centro de Arte Contemporânea Graça Morais
Rua Abílio Beça, 105
5300 – 011 Bragança
Tel. (351) 273 302 410
centro.arte@cm-braganca.pt
Horário: Terça a Domingo 10h00 / 18h30

Graça Morais distinguida com Prémio Aquisição-Pintura pela Academia Nacional de Belas Artes



A pintora Graça Morais foi distinguida com o Prémio Aquisição-Pintura 2013, atribuído pela Academia Nacional de Belas Artes, em Lisboa, revelou esta terça-feira à agência Lusa o presidente da entidade.

De acordo com António Valdemar, a artista obteve a "unanimidade do júri", presidido pelo dirigente e ainda composto pelo vice-presidente, António Marques Miguel, o secretário, João Duarte, e ainda pelos académicos Pedro Canavarro, António Inverno, Fernando Guedes e Laranjeira Santos.

Instituído pela Academia Nacional de Belas Artes em 1983, distinguiu na pintura, entre outras personalidades, Júlio Pomar, Maria Keil, Luís Filipe de Abreu, Sá Nogueira, Alice Jorge, Júlio Resende.

O prémio é atribuído anualmente com rotatividade pela pintura, escultura e arquitectura.

A Academia adquire uma obra ao artista premiado para o acervo da entidade, que ascende actualmente a cerca de trezentas peças, estimou António Valdemar.

Graça Morais, 65 anos, nasceu em Vieiro, Trás-os-Montes, e estudou pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, e começou a expor o seu trabalho a partir dos anos 1970.

Além da pintura, fez peças para cenografia e azulejo, arte pública, tapeçarias, e a sua obra está representada em colecções públicas e privadas em Portugal e no Estrangeiro.

Foi agraciada em 1997 com o grau Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo Presidente da República Jorge Sampaio.

Na escultura já foram galardoados pela Academia, os artistas Barata Feyo, Martins Correia, Laranjeira Santos, João Duarte, António Vidigal, Lagoa Henriques, e João Fragoso, e na arquitectura Nuno Teotónio Pereira, Duarte Castelo Branco, Jorge Segurado, Manuel Vicente, Gonçalo Byrne e Frederico George.

No final de Abril, a Academia atribuiu o Prémio José de Figueiredo 2013 a duas obras da área da investigação e de crítica: “Ourivesaria Portuguesa de Aparato - séculos XV e XVI”, da autoria de Nuno Vassalo e Silva, e também “Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio – História de um espaço urbano”, com coordenação de Miguel Figueira de Faria.

Este mês, a Academia de Belas Artes vai atribuir ainda o Prémio Gustavo Cordeiro Ramos de Pintura 2013.

Lusa, 7 de Maio de 2013


Últimos dias da exposição "Os Desastres da Guerra"


Série A Caminhada do Medo II, 2011, Carvão e pastel sobre papel, 111 x 150 cm


Últimos dias da exposição Os Desastres da Guerra de Graça Morais na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva. A exposição tem sido visitada por milhares de pessoas.

Momento musical às 15 horas com Pedro Caldeira Cabral seguido de uma conversa informal com a pintora Graça Morais no Domingo dia 14 de Abril, dia de fecho da exposição.


Programa do Momento Musical O Labirinto da Guitarra de Pedro Caldeira Cabral em PDF


Recortes de Imprensa - Os Deasatres da Guerra


Vídeos

Graça Morais entrevistada por Alberta Marques Fernandes
RTP Notícias emitido a 31 de Janeiro 2013
Vídeo indisponível

'Desastres da Guerra' - Graça Morais pinta o sobressalto cívico
LusoPress TV publicado a 1 de Fevereiro 2013


Graça Morais expõe "Os Desastres da Guerra" no Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva
SIC Notícias emitido a 1 de Fevereiro 2013


Graça Morais entrevistada por Ana Lourenço sobre a exposição Os Desastres da Guerra
SIC Notícias Edição da Noite emitido a 1 de Fevereiro 2013


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais
Reportagem de Rui Lagartinho na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva
RTP Artes (extracto) emitido a 9 de Fevereiro 2013


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais
Euronews, rendez-vous, emitido a partir de 26 de Março
Vídeo indisponível

Imprensa

Graça Morais mostra “Desastres de Guerra” por Agostinho Santos
Jornal de Notícias publicado a 29 de Janeiro 2013, pág. 42


Homens, bestas e demónios - Crítica de Arte por Miguel Matos
Time Out Lisboa publicado a 14 de Fevereiro 2013


Graça Morais Uma pintura que grita e acusa Entrevista por Maria Leonor Nunes
A Luz das trevas - Crítica de Arte por Maria João Figueiredo

Jornal de Letras, Artes e Ideias publicado a 6 de Março 2013, págs. 16 a 20

PDF 1, PDF 2, PDF 3, PDF 4, PDF 5

Celebrar o Medo - Crítica de Arte por José Luís Porfírio
Revista Actual Expresso publicado a 9 de Março 2013


Graça Morais reúne a sua pintura de guerra por Lina Santos
Diário de Notícias publicado a 9 de Março 2013, pág. 38


Rádio

Crise retratada na exposição da pintora Graça Morais
Graça Morais entrevistada por Helena Esteves

Antena 1 (excerto) emitido 31 de Janeiro 2013


Spot Publicitário - Graça Morais 'Os Desastres da Guerra'
Antena 1/Antena 2 - media partnership com a Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva
em breve



Graça Morais Os Desastres da Guerra - Debates


A exposição estará patente até 14 de Abril de 2013



Debates

Que Guerra é esta?
9 Março 2013

15h00 visita guiada pela artista

16h00 debate com
Guilherme de Oliveira Martins
João Pinharanda
Paulo Moura
Raquel Henriques da Silva


E depois da Guerra?
6 Abril 2013

15h00 visita guiada pela artista

16h00 debate com
Adelino Gomes
José Manuel dos Santos
José Tolentino Mendonça
Luísa Soares de Oliveira
Viriato Soromenho Marques





PDF aqui

Fundação Arpad Szenes-Vieira Da Silva
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'Graça Morais: a Arte e o Presente' por João Pinharanda


A Idade do Medo Carvão e Pastel sob Tela 208x178cm 2011


Livrai-nos Senhor, da Fome da Peste e da Guerra
(oração medieval)


Pedimos à Arte a eternidade possível: o prolongamento, até aos limites do tempo humano, da memória de cada indivíduo, de cada geração ou de cada civilização. No entanto, a eternidade não se alcança construindo uma cena imóvel, alcança-se pela repetição do efémero, enfrentando o tempo passado e não negando o tempo presente. Cada tempo tem o seu tempo e é ele que resiste para memória futura.

O trabalho de Graça Morais trata do Tempo e do Lugar. Ela construiu a sua imagem investigando memórias e transformando realidades: a do Portugal rural que mudava e perdia o seu tempo e o seu lugar no Mundo. Através dela vimos Trás-os-Montes agarrando-se à longura do céu, à dureza do ar, à antiguidade da voz, à violência de uma beleza esquecida.

As duas séries que agora se apresentam, embora encadeando-se nalguns outros momentos anteriores, surgem claramente como sobressalto cívico. Graça Morais reage, já não apenas a um presente que perde o seu passado mas a um presente que perde também o seu futuro. As longas e intensas cenas rurais de Graça Morais olhavam um mundo que lentamente se desagregava, eram uma acção de conservação, uma homenagem. Agora, são uma denúncia, um alerta. O tempo, aqui, é imediato e o espaço também – e ambos desabam vertiginosos sobre nós.

E, no entanto, cada uma das imagens que ela nos atira, retoma, repete, cita rostos, gestos, cenas que ao longo da história da Arte tantos outros artistas retomaram, repetiram, citaram transformando o quotidiano em alguma coisa capaz de durar para além do instante de um grito – transformando-o em imagens, em símbolos. A crueza do desenho e a aspereza da cor, a ausência dos fundos e o peso das figuras são características e recursos: os riscos que se sobrepõem entre si, as cores que se desencontram dos limites do desenho, os fundos que permanecem nus à espera de mais sangue ou de algum azul sem nuvens.

Há uma reinventada tradição expressionista na obra de Graça Morais que não encontra nunca tal grau de exasperação na pintura portuguesa que a precede; também não se encontra tal exasperação na literatura ou na música portuguesas. Porque procuramos o céu, se tem cores violentas? Porque erguemos um corpo, se é para ser crucificado? Porque se exibe a carne para um sexo ritualizado? Onde nos conduzem os caretos mascarados, cornudos, demoníacos? Ou as facas de matança e as lâminas das sacholas?

Talvez essa exasperação – vista na pintura europeia do Norte ou em arcaísmos europeus e não-europeus mas que Graça usa como coisa nossa – liberte uma memória antiga. Memória recalcada que aflora nas expressões populares das festas pagãs (nos Carnavais transmontanos, por exemplo), em momentos exactos da vida rural quotidiana (quando se mata um animal ou um homem, quando uma mulher é violentada, quando se ateia o fogo e arde um palheiro). Memória que a cultura dominante (primeiro católica, depois urbana) se esforça por adormecer ou escamotear sob a capa da inevitabilidade do trabalho, da necessidade da paciência, da santificação da dor, da pacificação social, da civilidade dos costumes.

Onde nos levam os corpos dobrados sobre a terra, semeando, esperando e arrancando os frutos, dobrados sobre o colo, tecendo ou debulhando, dobrados sobre os joelhos, rezando ou penando? Penso que nos transportam directamente às imagens que a artista agora trabalha: aos indignados da miséria urbana, aos que têm fome e aos que têm raiva, aos sacrificados das pequenas guerras que proliferam como doenças endémicas, às cenas sacrificiais e às cenas de piedade em que cada homem e cada mulher repete os gestos de todos os homens e mulheres de todas as cidades cercadas, queimadas, destruídas: Babilónia, Tróia, Persépolis, Cartago, Estalinegrado, Berlim, Hiroshima, Sarajevo, Bagdade, ... São gestos de morte e gestos de amor: cada um de nós, assassino; cada um de nós, figura de uma piéta.

Graça Morais usa fotografias da imprensa como fonte. Mas podia usar imagens de obras de Picasso ou Manet, Delacoix ou Goya, David ou Velasquez, Caravaggio ou Miguel Ângelo, Van Eyk ou Ucello, a escultura do Gaulês moribundo ou do Gálata suicida, podia repetir a perda de Euridíce por Orpheu, a dor de Aquiles por Patrócolo, o salvamento de Anquises por Eneias, o golpe de espada de Judite sobre o pescoço de Holofernes, o terno abraço de Isabel e Maria, o peso de Cristo nos braços estremados de sua Mãe... – porque as mais certeiras dessas fotos de imprensa são as que coincidem com os estereótipos de dor e sacrifício, de violência e compaixão definidos nas imagens literárias e teatrais, orais e visuais da cultura ocidental desde a sua formação.

Qualquer imagem integra a História e constrói a sua própria história. Graça Morais altera escalas, espaços, gestos, posições, direcções, muda protagonistas. Faz tudo para alcançar uma verdade sua que deseja venha a ser universalmente reconhecida. Mas como sempre, são as construções ficcionadas que melhor nos trazem ao coração do real. Entre O 3 de Maio de 1808 em Madrid de Goya e a Guernica de Picasso olhemos a Execução do Imperador Maximilano, que Manet pintou em 1869 a partir de testemunhos directos. Se compararmos fotos e relatos escritos que o artista consultou com a obra que realizou, veremos alterados todos os elementos da composição e quase irreconhecíveis os laços entre o facto documentado e o facto-pintura. No entanto, é essa pintura que nos traz mais perto da realidade, é essa pintura que eterniza o episódio como mais um exemplo da coreografia do poder e da queda, da morte e do sacrifício, é essa pintura que nos permite transcender o pessoal, o político, até o histórico, para integrar “o que aconteceu” (o facto isolado) no arco de sentidos profundos da tragédia humana.

O discurso de Graça Morais coincide com a História. Mas usando as imagens dos perigos, dos medos e das sombras que cobrem os caminhos, nos entram em casa e nos assaltam nas ruas de todas as cidades do mundo, ela isola e destaca elementos, compõe situações novas de modo a sentir-se mais próxima de uma verdade transhistórica. Se conhecermos a dureza dessa verdade profunda expulsaremos as sombras e venceremos os medos dos nossos dias de chumbo: é essa a vontade da pintora com a sua pintura.

Lisboa, 31 de Dezembro de 2012

João Pinharanda [in Texto do catálogo 'Graça Morais - Os Desastres da Guerra']


'O Tempo dos Assassinos' por José Manuel dos Santos


Série A Caminhada do Medo III 2011 Carvão e pastel sobre papel 111 x 150 cm

Somos nós que nos reconhecemos nelas ou são elas que se reconhecem em nós? Na resposta a esta pergunta, marcamos o nosso lugar no mundo. Estas obras dizem o nosso nome, usam a nossa língua, olham-nos no nosso olhar. Arrastam-nos no seu movimento e na sua paragem: fugimos na sua fuga, paralisamos no seu medo, sofremos no seu sofrimento. Delas se pode falar de “terror” e de “piedade”- e era disso que Aristóteles falava quando falava da tragédia.

Vinda de um mundo que é (ou parece) um mundo sem tempo (o mundo eterno da terra, das suas lentidões e dos seus regressos), a obra de Graça Morais, com o ciclo que aqui se apresenta, cai abruptamente no tempo mais imediato para lhe dar um rosto ( “Tu pintura es el lenzo de Verónica / de ese Cristo sin rostro / que es el tempo”, Octavio Paz).

Todos os tempos se julgaram a viver sobre o abismo”, lembra Walter Benjamim. Mas isso não impede que, sob alguns tempos, o abismo seja mais abismo ( “abyssus abyssum invocat”): embora o ovo da serpente esteja às vezes onde não pareça estar, o tempo dos comboios que paravam em Auschwitz não é o tempo em que a imperatriz Sissi atravessava a terra escoltada pelos seus fantasmas.

Os cães de caça brincam ainda no pátio, mas a presa não lhes escapará, por muito que corra já pelas florestas”, informa-nos Kafka e as palavras geladas que usa para nos informar apontam para nós. Estes desenhos a pastel e a carvão de Graça Morais (desenhos pintados e pinturas desenhadas) fazem-se a partir das imagens que todos os dias, nas páginas dos jornais e nos écrans das televisões, nos passam pela frente, sem que as consigamos parar ou fazer recuar. Mas, nestes desenhos, a pintora dá ao sensacionalismo um simbolismo, à superficialidade uma fundura, à banalização uma gravidade, ao efémero uma perenidade. E dá uma atenção à indiferença, uma proximidade à distância, uma recusa à aceitação, um juízo de valor ao juízo da realidade.

Este é o tempo dos ASSASSINOS”, anuncia Rimbaud. Este é esse tempo tornado nosso. Subitamente, como num verão passado ou num inverno futuro, tudo se atirou a nós como os cães de caça desse judeu de Praga que não conseguia ver uma luz na sua treva. A este movimento que nos empurra para o abismo, para a catástrofe, para o desastre, para o deserto chamamos “crise”. Eu chamei-lhe um dia “a guerra de todos contra todos”. Nesta guerra, a lei é-nos imposta pelo exército do crédito e da dívida - e é uma lei marcial, um big brother bélico, um campo de extermínio planetário. A esta lei tudo foi submetido: o político, o social, o cultural, o humano. Sob o seu poder, cada casa tem uma forca, cada empresa é um teatro de guerra, cada pessoa é um alvo a abater.

A história da pintura tem muitos “desastres da guerra”. Os de Goya, assim mesmo chamados, fazem-se de crueldade e caos. O de Vieira da Silva ( “Le Désastre ou la Guerre”) traz consigo as lanças de Paolo Uccello. Os de Manet são as várias versões de “A Execução do Imperador Maximiliano” e nelas há a memória do “Tres de Mayo”, de Goya, e dos instantâneos fotográficos do fuzilamento. Os de Picasso são a “Guernica”( com os seus muitos estudos e esboços) e tudo nela é morte, noite e gume ( Não, a pintura não se fez para decorar casas. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo”, disse o pintor). O de Anselm Kiefer é o da “Todesfuge” e traz-nos Paul Celan: “Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer / Bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite/ Bebemos e bebemos/ Cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados/(…) Açula os seus mastins contra nós oferece-nos um túmulo no ar/ Brinca com as serpentes e sonha - a morte é um mestre da Alemanha”.

Este ciclo de Graça Morais, feito de duas séries, tem esta ascendência, esta genealogia, esta linhagem. As suas armas dão-lhe uma heráldica de alerta e de protesto. À crueldade do mundo ela opõe a crueldade da imagem dele – no seu expressionismo trágico há aviso e repulsa.
A pintora conta que, muito nova e como tantos outros, estava em Paris a ver pintura. Ia aos museus e perguntava o que fazer com aquelas imagens que não lhe abandonavam os olhos. Um dia, foi ao cinema onde se estreara “A Árvore dos Tamancos” e esse filme deu-lhe resposta à sua pergunta. Decidiu trocar a cidade de todos os futuros pela terra de todos os passados – a sua, Trás-os-Montes. Nessa hora altiva, Graça tornou-se o que era e aprendeu o que já sabia: na terra que nos dá os frutos que alimentam, vivem também os vermes que destroem. Ela sabe que o humano e o inumano se misturam, mas que é preciso reconhece-los, distingui-los, separá-los, nomeá-los. É a esse processo químico, uma espécie de electrólise do espírito, que podemos chamar moral.

Este ciclo que agora se apresenta é, na obra longa e contínua de Graça, a marcação nítida de uma metamorfose. A arte, que é a vida das formas, dá aqui forma ao medo do mundo. O que une todas as fases (digo “fases” no sentido em que se diz “fases da lua”) da obra de Graça Morais é aquilo a que Alberto Moravia, falando do autor de “Accattone” e do “Evangelho Segundo S. Mateus” afirma: “ Pasolini escreveu que a piedade morrera. Ele entendia a piedade no sentido da relação religiosa com o real, isto é, o contrário da impiedade que ele via triunfar no hedonismo de massa.” Se, da sua madrugada ao seu entardecer, atravessarmos a obra de Graça Morais, vemos que o sentimento sagrado do real é o seu santo e a sua senha.

Neste ciclo, ao mostrar desastres, destruições, destituições, destroços, vitórias, dominações, euforias, dores, a pintora faz uma teologia-antropologia do nosso tempo (nesta série o tema da Pietà é insistido). Aqui, o esgar do atleta que vence está próximo do esgar do prisioneiro que é derrotado. Aqui, há mortos, vivos, assassinos, assassinados, fugitivos, refugiados, perseguidos, perseguidores, carrascos, vítimas, culpados, inocentes, mães, filhos, anjos, demónios. Aqui, há violência, crueldade, exaltação, pânico, perseguição, fuga, terror, sofrimento, piedade. Aqui, há a miséria do mundo, a violência da vida, a máscara da morte. Aqui, há bichos que são homens e homens que são bichos. Aqui, estão todos, mas não valem todos o mesmo.

Agora, estou a caminho do atelier de Graça Morais, na Costa do Castelo. Vou acompanhado de um amigo. Ele é transmontano como ela e eles falam disso como os iniciados falam da sua iniciação e do seu templo. Continuam a falar e eu oiço-os, suspenso da minha exclusão. Depois, a artista começa a mostrar-nos a sua arte. Vemos fotografias de jornais e vemos as obras que ela fez a partir daí (“imitação” no sentido aristotélico, citação icónica e plágio metafísico, digo eu). De repente, o atelier é o mundo. Subitamente, o atelier é o medo. Ela fala e mostra. Mostra e fala. Fala da mãe como origem, fonte, terra, memória. Fala da vida e destes dias que a negam. Fala e aponta para um desenho: aí um homem leva ao colo outro homem. Então, diz: “Nesta crise, todos trazemos alguém ao colo: um desempregado, um desalojado, um faminto, um doente, um deprimido, um abandonado.

Numa das suas parábolas mais terríveis, Franz Kafka conta que os leopardos entraram no templo e beberam o conteúdo dos vasos sagrados. Essa profanação repetiu-se com regularidade e método, tornando-se previsível. Acabou por pertencer ao ritual e passou a fazer parte da cerimónia.

Estamos num tempo entre estes dois tempos: o tempo da surpresa - medo do horror e o tempo da sua aceitação - normalização. Neste tempo entre esses dois tempos, a nossa responsabilidade é evitar a aceitação do inaceitável e a profanação do sagrado. O nosso dever é impedir a banalidade do mal (Hannah Arendt). Sophia de Mello Breyner, que Graça tanto admira, afirma: “Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres». Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa. // O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.

Estas obras de Graça Morais são o sinal de uma responsabilidade e de um dever. São feitas de alerta e de alarme. Mas, nesse alerta e nesse alarme, acende-se a possibilidade de que Kafka não tenha inteiramente razão quando afirma: “Existe esperança, esperança infinita, mas não para nós”. Porque, como diz Walter Benjamin, “é àqueles que não têm esperança que a esperança deve ser dada”.

Lisboa, Janeiro de 2013

José Manuel dos Santos [in Texto do catálogo 'Graça Morais - Os Desastres da Guerra']


'Os Desastres da Guerra' de Graça Morais na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva


Os Desastres da Guerra, pintura e desenho de Graça Morais
31 de Janeiro · 14 de Abril de 2013


Série Sombras do Medo 2012 Pastel e carvão sobre papel 111,3 x 75,8cm

 Série Sombras do Medo 2012 Pastel e Carvão sobre papel 111,3 x 75,8 cm

Sombras do Medo

Pinturas nas quais homens e mulheres se transmutam em animais.
Animais que ganham a força dos heróis.
Anjos que carregam nos seus braço seres que são resgatados do Inferno e dos desastres das guerras e das doenças.
Piètas que revelam a natureza humana numa recusa em aceitar a fatalidade da maldade sem rosto que ensombra a Terra.
Estas pinturas e desenhos são o meu grito de alerta e revolta perante um mundo que apreendo através dos jornais, das televisões e dos media e que também sinto no olhar das pessoas com quem me cruzo no meu quotidiano, numa cumplicidade de olhares, cheios de dignidade mas também de muito sofrimento.


 Série A caminhada do Medo VII 2011 Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm

A Caminhada do Medo

Fuga do Caos e do Abismo.
São milhões de seres humanos que migram em busca de um futuro melhor. Fugidos de guerras, de genocídios, do terrorismo, de catástrofes naturais, lutando numa cruzada contra a fome, a doença, as injustiças sociais e as perseguições políticas.
É através destas pinturas que faço uma reflexão profunda sobre a resistência de mulheres e homens que procuram o seu lugar na Terra, lugar no qual recusam a fatalidade do Medo e a indignidade do Mal.


Graça Morais

· · ·

(...) O trabalho de Graça Morais trata do Tempo e do Lugar. Ela construiu a sua imagem investigando memórias e transformando realidades: a do Portugal rural que mudava e perdia o seu tempo e o seu lugar no Mundo. Através dela vimos Trás-os-Montes agarrando-se à longura do céu, à dureza do ar, à antiguidade da voz, à violência de uma beleza esquecida.

As duas séries que agora se apresentam, (…), surgem claramente como sobressalto cívico. Graça Morais reage, já não apenas a um presente que perde o seu passado mas a um presente que perde também o seu futuro. As longas e intensas cenas rurais de Graça Morais olhavam um mundo que lentamente se desagregava, eram uma acção de conservação, uma homenagem. Agora, são uma denúncia, um alerta. O tempo, aqui, é imediato e o espaço também – e ambos desabam vertiginosos sobre nós.
 E, no entanto, cada uma das imagens que ela nos atira, retoma, repete, cita rostos, gestos, cenas que ao longo da história da Arte tantos outros artistas retomaram, repetiram, citaram transformando o quotidiano em alguma coisa capaz de durar para além do instante de um grito – transformando-o em imagens, em símbolos. (...)

Há uma reinventada tradição expressionista na obra de Graça Morais que não encontra nunca tal grau de exasperação na pintura portuguesa que a precede; também não se encontra tal exasperação na literatura ou na música portuguesas. Porque procuramos o céu, se tem cores violentas? Porque erguemos um corpo, se é para ser cruxificado? Porque se exibe a carne para um sexo ritualizado? Onde nos conduzem os caretos mascarados, cornudos, demoníacos? Ou as facas de matança e as lâminas das sacholas?
(...)

Onde nos levam os corpos dobrados sobre a terra, semeando, esperando e arrancando os frutos, dobrados sobre o colo, tecendo ou debulhando, dobrados sobre os joelhos, rezando ou penando? Penso que nos transportam directamente às imagens que a artista agora trabalha: aos indignados da miséria urbana, aos que têm fome e aos que têm raiva, aos sacrificados das pequenas guerras que proliferam como doenças endémicas, às cenas sacrificiais e às cenas de piedade em que cada homem e cada mulher repete os gestos de todos os homens e mulheres de todas as cidades cercadas, queimadas, destruídas: Babilónia, Tróia, Persépolis, Cartago, Estalinegrado, Berlim, Hiroshima, Sarajevo, Bagdade, ... São gestos de morte e gestos de amor: cada um de nós, assassino; cada um de nós, figura de uma piéta.

Graça Morais usa fotografias da imprensa como fonte. (…) [Mas] Graça Morais altera escalas, espaços, gestos, posições, direcções, muda protagonistas. Faz tudo para alcançar uma verdade sua que deseja venha a ser universalmente reconhecida. [E, como sempre, são as construções ficcionadas que melhor nos trazem ao coração do real. Vejamos os casos de O 3 de Maio de 1808 em Madrid de Goya, da Guernica de Picasso ou da Execução do Imperador Maximilano, que Manet pintou em 1869. São essas pinturas que nos permitem] transcender o pessoal, o político, até o histórico, para integrar “o que aconteceu” (o facto isolado) no arco de sentidos profundos da tragédia humana.”

João Pinharanda (Excertos do texto 'Graça Morais: a Arte e o Presente' do catálogo)



Os Desastres da Guerra, pintura e desenho de Graça Morais, inaugura o ciclo de exposições temporárias do ano de 2013, na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva. Comissariada por João Pinharanda, a exposição tem o apoio mecenático da Fundação EDP. A exposição inaugura no dia 31 de Janeiro de 2013 pelas 18h30 e vai estar patente ao público até 14 de Abril de 2013.

Press release
Convite
The Disasters of War, paintings and drawings by Graça Morais, at the Arpad Szenes-Vieira da Silva Foundation (English booklet)



Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva | Praça das Amoreiras, 56/58 1250-020 Lisboa | Tel.( 351) 21 388 00 44/53 | Email. fasvs@fasvs.pt
Horário: De Quarta a Domingo, das 10h00 às 18h00. Encerra Segunda, Terça-feira
e feriados.


'Sombras do Medo' - Pinturas e Desenhos de Graça Morais


Sombras do Medo

Pinturas e Desenhos de Graça Morais | Galeria Gomes Alves

Inauguração dia 21 de Setembro às 22 horas

Série “Sombras do Medo” 2012, Sépia e grafite sobre papel, 29,5 x 42 cm

Inauguração da exposição 'Sombras do Medo' de pinturas e desenhos inéditos de Graça Morais na Galeria Gomes Alves no dia 21 de Setembro, pelas 22 horas com a presença da artista. A exposição estará patente ao público até dia 7 de Novembro de 2012.

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm

Série “Sombras do Medo” 2012, Pastel e Carvão sobre papel, 111,3 x 75,8 cm



Galeria Gomes Alves
Rua Gravador Molarinho, 4820-142 Guimarães, Portugal
Horário: Terça a Sábado, 10h30 às 13h00 e 15h30 às 19h30
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