Entrevista a Graça Morais


Série A caminhada do Medo VII | Pastel e carvão s papel 102 x 152 cm 2011



Pintura e desenho de Graça Morais cruzam-se na exposição “2011: A Caminhada do Medo”, que é inaugurada esta tarde na Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas, no Porto.

Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Alexandre, Graça Morais conta que as obras expostas resultam de um intenso trabalho motivado pelas notícias de crise que são transmitidas diariamente pelos órgãos de comunicação social.

Os desenhos e pinturas reflectem os sentimentos de angústia e preocupação da autora em relação ao presente e ao futuro da Europa e do mundo, contrastando com a anterior série de trabalhos que retratava a natureza de Trás-os-Montes.


Entrevista áudio, Antena 1, 20 0utubro 2011

Antonio Tabucchi: Fim do Mito · Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais


Fim do Mito
Breve Auto sobre um quadro de Graça Morais
Antonio Tabucchi

Série A Caminhada do Medo VIII | Pastel e carvão s/papel 102 x 152 cm 2011 
 Prémio de Artes casino da Póvoa’2011


HOMEM QUE PARTE – Não mais voltarei a carregar-te nos meus ombros, Pai, como há tantos e tantos anos, quando, destruída pelo inimigo, deixámos para trás a nossa cidade em chamas. Era longo o caminho que então percorri, lembras-te? Pesavas nos meus ombros com a leveza de uma pluma, consumido pelos anos e as penas. Disseste-me depois que parasse, querias o repouso eterno, eu continuei a caminho do Ocidente, porque é no Ocidente da Terra que existe a esperança de uma nova civilização, o Fado assim o quis. Nada trouxe comigo, levava para o Ocidente o nosso Oriente, o Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, o Oriente pomposo e fanático e quente, o Oriente onde – quem sabe? – Deus talvez exista realmente e mandando tudo... A tua candeia extinguira-se, e com ela o meu passado. Segui caminho levando o meu filho pela mão.

CORO – Apressa-te, o barco está prestes a zarpar, temos de levantar âncora, o tempo urge.

HOMEM QUE PARTE – Pai, tenho de partir, Ascânio já está a bordo.

CORO – Não saiba o teu filho que vais partir! Ignaro, dorme no chão ainda quente dos incêndios, não podemos levá-lo connosco: crianças, o Ocidente não as quer, aceita quando muito a força dos teus braços.

PAI (murmurando) – Por que não deu ninguém ouvidos a Cassandra?

CORO – Porque não há rebeldia contra o Fado, tentou-o Laocoonte, e os deuses enviaram duas serpentes marinhas que em seus anéis o estrangularam, e a seus filhos. Esses mesmos deuses que enviaram o cavalo com a barriga de fogo para destruir os nossos costumes e trazer-nos os seus, a que chamam democracia.

HOMEM QUE PARTE – A democracia deles são ruínas fumegantes, morte, desespero e cinzas, e de tudo isso hão-de sacar muito dinheiro, porque é negócio a guerra que fazem.

CORO – Vem, estulto homem pronto a partir, aproveita o nosso barco, não és nenhum herói, já não és um cidadão, nem sequer és um homem, és tão-só um migrante.

PAI – Tens de ir, Eneias.

CORO – Eneias foi seu nome em tempos, agora Anónimo é seu nome. Anónimo, tens acaso documentos que digam que és alguém?

HOMEM QUE PARTE – Pai, não voltarei a ver-te nunca mais?

PAI – Encontraste-me em tempos nos Campos Elísios, a Sibila conduziu-te ao reino do Hades. Com ela atravessaste o Estige e por três vezes abraçaste a minha sombra.

CORO – A Sibila morreu há muito, e o Hades fechou. Existe, sim, o fundo do Mediterrâneo onde apodrecem os cadáveres dos migrantes deserdados pela sorte.

PAI – E depois do terceiro abraço a minha sombra explicou-te a doutrina dos ciclos e dos renascimentos que rege o universo, e confortado com a minha explicação alcançaste a Itália, habitada por gente bárbara, e fundaste Roma, de cuja civilização nasceu a Europa.

CORO – Velho, nada ficou por fundar. Hoje, a Europa que nasceu da cidade fundada por teu filho já não quer intrusos, ferozmente coalizada, tem uma frota costeira que vigia os desembarques, afunda embarcações tão miseráveis como as nossas; essas criaturas outrora bárbaras enriqueceram, uns mais, outros menos, porque os pobres fazem falta aos ricos, e sem os pobres nunca os ricos seriam ricos. Mas os ricos que aí ordenam não querem gente mais pobre do que os seus pobres, para que a sua riqueza não se desvalorize e não se perturbe o equilíbrio entre os ricos e os pobres que sustenta a sua sociedade. Apressa-te a subir, pobre migrante, a passagem que te oferecemos, por nossa conta e risco, custa-te apenas dois mil dinheiros, na moeda actual exactamente o mesmo que um habitante itálico pagava para apanhar o vapor para as Américas, um habitante das Germânias para fugir para a Argentina, um lusitano para dar o salto. E hoje, quando cada um deles se encontra bem defendido nas fronteiras de um espaço comum, é difícil forçar as portas de Schengen. Eles desembarcaram na Lua e os astros não opuseram resistência. Mas é proibido desembarcar nas margens da Fortaleza de Schengen.

HOMEM QUE PARTE – E o nosso Mito, Pai?

PAI – Não sei.

CORO – Em tempos, o Mito era o nada que é tudo. Hoje, é apenas o nada. Partamos.


Isto diziam, sem o dizerem, as figuras de um quadro de uma pintora portuguesa numa luminosa tarde do Verão de 2011, em Lisboa, numa casa antiga da Costa do Castelo. Ao contemplá-lo, ouvi as suas vozes e, tal como as ouvi, agora as transformo em escrita, sem nada acrescentar.

                                                                                                                                 Antonio Tabucchi
                                                             [in Catálogo da Exposição Graça Morais · 2011: A Caminhada do Medo]


Tradução do texto "FINE DEL MITO · Piccolo intermezzo su un quadro di Graça Morais" por Gaëtan Martins de Oliveira


Graça Morais · 2011: A Caminhada do Medo


Graça Morais
2011: A Caminhada do Medo
desenho e pintura
20 de Outubro a 20 de Novembro

Série A Caminhada do Medo X | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

Série A Caminhada do Medo IX | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

Série A Caminhada do Medo V | Pastel e carvão s/papel 150 x 111 cm 2011

5. A ARTISTA EXILADA
Laura Castro1

Desengane-se aquele que lê o título como alusão a um exílio neo-romântico, refúgio campestre, fuga da cidade ao encontro da ruralidade poética e da autenticidade rústica porque não é isso que está em causa nem tão pouco o meio rural tem, na obra de Graça Morais, estas conotações. Se convoca a ancestralidade de certas práticas, fá-lo no confronto com a dureza e a austeridade do campo e, no núcleo de obras produzido na viragem do século, diante das transformações movidas por comunidades emigradas que não são imunes ao progresso.
Graça Morais vive, portanto, a sua condição de exilada no meio urbano. O desterro na cidade pode ser, hoje, mais silencioso do que o reduto aldeão onde, particularmente no Verão, a presença dos veraneantes intensifica o ruído, deixando a cidade mais calma. Mas desiluda-se também quem espera ver a temática urbana directamente vertida para o seu trabalho.
Desde há vários anos que a actividade de Graça Morais se divide pelos dois ateliers que mantém em Trás-os-Montes e em Lisboa e, apesar das dificuldades que essa repartição acarreta, em geral, há sempre trabalho iniciado num e noutro espaço. Por vezes, trabalho contrastante entre um registo mais delicado, em torno das temáticas florais e das ramagens primaveris, e um registo mais dramático e exigente dominado pela dimensão humana. Nem sempre os dois lugares de criação espelham dois circuitos paralelos, mas pode ser que tal confronto aconteça. Deste modo, a coesão temática e formal de cada série produzida pode corresponder a esta circunstância conjuntural, tal como responde a outras relacionadas com uma estação do ano, uma estadia particular, um acontecimento localizado e datado.
A série produzida em 2011, na altura em que este livro se encontrava em preparação, foi realizada no atelier de Lisboa e manifesta com total clareza a quantidade e a intensidade das imagens que permanentemente nos rodeiam e assaltam. Todos conhecemos o que é estar sob o impacto da avalanche de imagens de reportagem jornalística que invadem todos os meios de comunicação social e as novas plataformas de divulgação, internet, telemóveis, generalizadas através de um jornalismo popular que capta e difunde no mesmo momento.
Foi sob o efeito das fotografias publicadas em jornais e em revistas que os desenhos foram realizados. O uso dos recortes de jornais que ainda hoje subsiste vem da infância e da juventude, vem da tradição popular de forrar prateleiras com jornais decorativamente recortados, em padrões geométricos básicos, e do hábito de os ler nessa circunstância. Os bicos talhados na extremidade do papel de jornal inscrevem-se delicadamente nos desenhos de figura dos anos iniciais da sua carreira. O gosto pela utilização dos jornais manter-se-ia, não apenas nesse registo ornamental, mas como fonte insubstituível de imagens e como uma das vias de levar o quotidiano à pintura.
É ainda a temática da peregrinação que se vislumbra nestes trabalhos, mas agora trata-se das romagens de personagens condicionadas por acontecimentos históricos, os mais diversos.
Estas podem ser as peregrinações associadas aos dramas humanos das acostagens nocturnas no sul de Itália, dos africanos sedentos de um lugar na Europa, das lutas religiosas e tribais dispersas pela África e pela Ásia, das revoltas nos países árabes, dos massacres fanáticos disseminados um pouco por todo o mundo, dos conflitos urbanos mal identificados.
Este não é um mundo de abundância nem um mundo marcado pelo ritmo das estações, é um mundo que vive debaixo de um Inverno frio ou de um Verão árido que semeia carcaças de animais mortos e uma desolação traída por céus tempestuosos. Não é um mundo de abrigos domésticos, mas de vida desamparada no exterior onde todos estão expostos, desprotegidos, mal cobertos pelas mantas informes das organizações de assistência.
No seu exílio urbano a artista trata o êxodo humano nas suas múltiplas facetas. O desterro cumpre-se na cidade, a cidade é o seu atelier e o seu atelier é o mundo.
É inegável a dimensão política deste ciclo, componente que, ao contrário do que já se afirmou, nunca esteve ausente do trabalho de Graça Morais. Não num sentido panfletário ou contestatário, não num teor propagandista, mas na adesão a temas como a interioridade e o isolamento, a morte anunciada das aldeias, a solidão e a velhice no meio rural, a condição da mulher. Os acontecimentos históricos também não ficaram fora do seu horizonte artístico. De 1975 conhece-se a série de desenhos 25 de Abril, realizados com tinta-da-china e colagem, onde reproduções de fotografias, recortes de jornal e desenho se sobrepõem numa linguagem que muito fica a dever à intensidade comunicacional daquele período.
Estas peças vêm no seguimento do trabalho de Sines, de 2005, e de todas as séries das metamorfoses, da primeira década do século, mas a figuração envereda por outro caminho com aspectos tributários do ar do tempo. Os registos antropológicos do meio rural e os arquivos da memória dão lugar a figuras conturbadas do mundo contemporâneo, de paragens próximas e distantes. E, do ponto de vista do processo, há quase uma aproximação ao universo directo dos graffiti, dos gritos que ficam nos muros das cidades sem os cobrir completamente. A grande tela que mantém um carácter inacabado, com pouco desenho, é provavelmente o melhor exemplo. O desenho com duas personagens em fuga remete para o mesmo ambiente. A questão tinha sido já apontada por Eduardo Lourenço, noutro contexto: “Essa pintura, que mais parece relevar do graffiti ou da arte do fresco pela sua independência em relação ao suporte, como se pousasse apenas nele […]”2
Mas nem todos os trabalhos se orientam nesta direcção: há aqueles a que as cores quentes, o ar de tormenta, o preenchimento de toda a superfície conferem uma densidade e um peso que nos sobrecarregam. Há uma atmosfera espessa e sangrenta, um ar encorpado e táctil, envolvente, asfixiante, uma iluminação estranha de mau presságio.
Outros trabalhos prolongam o regime de transparências que a pintora tão bem domina, mas estes são em menor número.
Evidencia-se também uma linha de horizonte. Não é, no entanto, a habitual e essencial linha da paisagem que une o céu e a terra, é a linha que os separa e é nela que se encontram os peregrinos. Também se divisa o skyline de cidades nocturnas com personagens que se deslocam, apenas orientadas pela iluminação pública de postes com que a artista sinaliza a sua passagem, a sua fuga precipitada. (Interessante é recuar até uma obra de 1996 – Delmina – para percebermos como os modelos circulam de uma fase para outra: aí, o perfil de montanha, em fundo, recebia já personagens em gestos de trabalho).
As peças de menor dimensão, as colagens, dão a chave para os grandes desenhos e o modo como são compostos. Aí se percebe a importância do registo fotográfico, dos apontamentos escritos em folhas de diário e a sua recuperação posterior. Intervencionados e retrabalhados, esses materiais primários transformam-se mediante a pressão de novas circunstâncias: rostos de uma fotografia são cobertos por acrílico; personagens são modificadas mediante a adição de elementos animais; figuras fotografadas são refeitas em desenho; imagens são trancadas e bloqueadas sob uma mancha; papéis com fotografias coladas recebem escorrências de tinta-da-china e pingos de acrílico. Não são apenas reconfigurados os elementos compositivos pré-existentes, são os significados que sofrem uma reconstrução, predispondo-se a novas utilizações e interpretações.
É no espaço do desenho que se oferece a personagens heterogéneas e a factos desencontrados um plano de convivência, que não exactamente de convergência. Uma das estratégias plásticas que permite realizar a insólita conexão, é a mancha que, como uma auréola, rodeia grupos de personagens, estabelece uma situação específica mas mantém a transparência que a relaciona com os restantes protagonistas.
Quem povoa estas obras?
Deslocados de guerra, asilados políticos, nómadas famintos, perseguidos por questões religiosas, emigrantes clandestinos, uma legião de seres que vagueia perdida e sem outro destino que não o campo de refugiados improvisado.

É como num romance, ainda não sei bem o que as personagens vão fazer.
Posso deixar-me levar…
                                                                                                                                            Graça Morais

E aqui estão, primeiro, as criaturas do presente, recém-chegadas à sua obra: criaturas que deambulam ou avançam em fila, inseguras, reduzidas a vultos, a espectros, descarnadas pela condição de refugiados; soldados bem equipados de botas e capacetes, escudos e máscaras, armados; detidos; outros em pose de inspecção – suspeitos, radioactivos? É a comunidade internacional que faz e desfaz as catástrofes humanitárias – carrascos e vítimas; jornalistas e observadores (?); voluntários e agentes não-governamentais.
Aqui estão também as criaturas vindas do passado: figuras femininas de máscaras brancas com olhos fechados; ou de olhar atento e sobressaltado; mães auxiliadoras no rito da Pietà; um anjo; cabeças híbridas; e os cães vagabundos, rafeiros em pose de alerta ou de orelhas baixas e o olhar que nos fita, à espera.
Pensar que as personagens que chegam do passado poderiam ser um sinal reconfortante na perturbação geral é uma suposição que não se confirma, uma vez que o seu reino também é o da inquietação.
Na linguagem de Graça Morais, a visão do mundo não descarta a visão da sua obra, passado e presente confrontam-se, referentes de diversa natureza cruzam-se numa trama complexa.
Este é bem o nosso mundo, feito de realidades afastadas que nos chegam em simultâneo, numa sincronia enganadora. Valores e princípios têm, no seio dos conflitos que interessaram a artista, uma validade sempre provisória e contingente, ao sabor de circunstâncias políticas e de negociações de conveniência. As identidades são sempre transitórias – hoje num papel, amanhã no campo oposto; hoje como algoz, amanhã como mártir; hoje como personagem anónima, amanhã como figura da comunicação global. Não haveria melhor recurso artístico do que este mosaico de tempos e espaços em que se organizam os desenhos, para o demonstrar.
A artista permanece fiel ao mundo e fiel ao seu mundo.


Notas
1 Docente na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto e membro do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologias das Artes (CITAR) desta Escola.
2Eduardo Lourenço – In Pintura Portuguesa 1988. 10 de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Apud Graça Morais. Lisboa: Soctip, 1992.

O presente texto é parte do livro Graça Morais. Ordem e Desordem do Mundo, em preparação e do catálogo da exposição 2011: A Caminhada do Medo.



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Terra Quente - Terra Fria · Desenho e pintura 1978 /2002



GRAÇA MORAIS
TERRA QUENTE - TERRA FRIA
Desenho e pintura 1978 /2002
30 de setembro de 2011 a 8 de janeiro de 2012


Todo o ecletismo de referentes, persistentemente reivindicados na produção artística de Graça Morais, de que vem resultando uma pungente e singular iconografia, tem apensa a pertença de lugar.
Transfigurado ou metamorfoseado através da distorção e da sobreposição das formas, capazes de desencadear distintos níveis de leitura ou, não raras vezes, inscrito pelas linhas mínimas do desenho, o universo telúrico e antigo que representa e com o qual vem estabelecendo um diálogo pronunciado e aberto é, como a vontade de o perpetuar, eixo axial do seu trabalho.
Rostos e gestos, objetos e animais, rituais de inverno e cenas de trabalho, tramas narrativas de sacralidade e de morte acusam as marcas de uma obra que, não obstante a variação de estratégias formais e até dos inesperados processos materiais que mobiliza, não abdica do real como referência, que aqui é feito de terra e de mistérios ancestrais, e tem profunda ligação à memória e aos afetos.
A escala cronológica da exposição é ampla, reunindo obras de 1978, da emblemática série “O Rosto e os Frutos”, aos primeiros anos do século XXI, permitindo nas sucessivas inflexões, especialmente no domínio do desenho, o encontro com uma grande variação de temas e estilísticas já tratados por Graça Morais.
Da obra chega-nos, inteira, a imagem da região transmontana, mas distanciada da redutora visão folclorista. A essência está lá: os rituais, as tropelias dos caretos, a solenidade e a bruteza da matança do porco ou a imolação do cordeiro na Páscoa, a dureza das segadas, a caça, as festividades religiosas, o tempo quente das cerejas ou das neblinas invernais, os utensílios de trabalho, as mulheres, a passagem das estações e dos dias, mas chega até nós filtrada pela visão pessoalizada da artista e pela subjetividade das interrogações que é capaz de convocar a partir das inesperadas associações e figurações que nelas adita.
A condição da sua prática pictórica não está, por isso, tanto no registo do pitoresco ou na captação sob ponto de vista etnográfico para memória futura, está antes na exploração de um universo e de um imaginário e no modo como explana, com grande sinceridade pictórica, o que observa, do mesmo modo que lhe subtrai a redutora referência naturalista.
Como os temas, também a escolha dos suportes nunca foi secundário em Graça Morais, ao procurar neles uma plasticidade profícua, capaz até de redefinir a própria obra. Os materiais não funcionam apenas como meros ou ocasionais suportes para as imagens que sobre eles projeta, antes explora continuamente outras texturas, como as grandes lonas de serapilheira, apetrechos de trabalho utilizados em tempos idos na colheita da azeitona, cujas marcas do uso são ainda visíveis e inteiramente assumidas pela composição. Na série “Jorge”, assim titulada pela importância excecional que aí é dada à figura masculina, sobressai o domínio do traço a carvão. O campo semântico é dominado pelas expressões e gestos desajeitados de uma figura que suspende pelas patas uma ave, uma cena que se repete em três lonas com algumas variações, como os desenhos detalhados de ancestrais instrumentos de trabalho com os quais, aparentemente, não parece existir qualquer relação.
É precisamente o modo como formaliza este universo que sai reforçada a singularidade do trabalho de Graça Morais, único “a impor uma linguagem de persistente descoberta e uma figuração que se distingue de qualquer outra pelo que alcança em identidade”, como chegou a referir Fernando de Azevedo.
Terra Quente - Terra Fria convoca, assim, na sua essência, a um encontro com o Trás-os-Montes de Graça Morais, onde cada obra é metáfora pictórica da interpretação e, simultaneamente, da reflexão que, a partir deste território antigo em iminente desagregação, a artista faz do mundo.

                                                                                                                         Jorge da Costa



Comissariado: Jorge da Costa (director do CACGM)
Produção: Centro de Arte Contemporânea Graça Morais / Câmara Municipal de Bragança



Centro de Arte Contemporânea Graça Morais                                        Tel: (351) 273 302 410
Rua Abílio Beça, 105                                                                              Fax: (351) 273 202 416
5300 – 011 Bragança                                                                              centro.arte@cm-braganca.pt
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Terra Quente – Terra Fria é um percurso a Trás-os-Montes através da obra de Graça Morais. Um percurso que vive do seu olhar, das suas memórias, da forma como tacteia as pessoas, paisagens, sensações e lhes dá corpo através do seu traço e da sua pintura.

Com um elenco de actores e bailarinos procura-se que este projecto seja um mergulho ao interior dos temas abordados por Graça Morais e que nos transportem ao pulsar da vida, dos rituais e das paisagens transmontanas.

Teatro Municipal de Bragança 30 de Setembro e 1 de Outubro
Auditório ACE Teatro do Bolhão 11 a 23 de Outubro ( de Quinta a Sábado 21:30 e Domingos ás 16:00
Teatro de Vila Real dia 28 de Outubro


Peça de dança contemporânea criada pela coreógrafa Joana Providência a partir da obra de Graça Morais

Mais informação em Teatro do Bolhão



Recortes de imprensa (online):

Uma viagem a Trás-os-Montes através de Graça Morais, Diário de Notícias, 30 de Setembro 2011

“Terra Quente Terra Fria” a nova exposição de Graça Morais, welcome nordeste.pt, 3 Outubro 2011

Viagem a Trás-os-Montes através de Graça Morais, Tribuna do Douro, 3 Outubro 2011

Vídeo Reportagem via Local Visão, 2 Outubro 2011


Artista plástica Graça Morais vence prémio Casino da Póvoa


A artista plástica Graça Morais venceu a edição deste ano do Prémio de Artes Casino da Póvoa com o quadro "Série 2011: A Caminhada do Medo, 2011", informou o casino, através de comunicado.

Além de atribuir um prémio monetário no valor de 30 mil euros, o casino vai adquirir a obra premiada e publicar uma monografia sobre a artista.

Este galardão visa "distinguir e homenagear a obra de uma mulher que, ao longo do tempo, construiu uma carreira que a consagra como uma das maiores pintoras contemporâneas", justificou o casino, no comunicado.

Graça Morais, "cujo universo cruza a herança do mundo rural, assume a condição da mulher e da natureza na intuição ligada aos sentimentos e às emoções", sendo que na obra da artista, "as mulheres são a terra, a razão e a origem do mundo", lê-se ainda no documento.

O júri deste prémio foi constituído por Dionísio Pereira Vinagre, Vasco Esteves Fraga e Amândio Secca, sendo que a distinção vai ser entregue no dia 17 de dezembro, numa cerimónia que terá lugar às 21:00 horas.

A obra adquirida agora a Graça Morais passa a integrar a coleção de arte do Casino da Póvoa.

Graça Morais nasceu em 1948, em Vieiro, Trás-os-Montes.

Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, expôs, pela primeira vez, no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

Em 1975 funda o grupo puzzle e, entre 1976 e 1978, vive em Paris como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

in RTP/Lusa,4 Outubro 2011