Obras concebidas entre 1983 e 2007 constituem a mostra "Desenhos do mar e da terra", para ver em Gondomar
AGOSTINHO SANTOS
São desenhos que transformam em protagonistas mulheres de Trás-os-Montes e os homens do mar de Sines. Graça Morais mostra assim "Desenhos do mar e da terra", no Lugar do Desenho, em Gondomar.
É uma exposição que integra desenhos concebidos entre 1983 e 2007. Mas a pintora confidenciou ao JN que "Desenhos do mar e da terra" tem uma leitura muito especial, muito íntima, afectiva mesmo, porque se realiza no Lugar do Desenho/Fundação Júlio Resende, instituição cujo patrono foi o seu primeiro mestre ainda quando Graça, com 20 anos era aluna na Escola de Belas-Artes do Porto.
Trata-se de uma mostra que se realiza com dois anos de atraso e que se concretiza por solicitação do próprio Júlio Resende, por isso, "houve o cuidado de fazer coincidir com o aniversário do mestre", explica Graça Morais. "Desenhos do mar e da terra" assinala também o regresso da pintora ao Porto e consequentemente o reencontro com a Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP) e com a figura mítica de Resende que durante vários anos representou a referida escola.
Graça Morais admite que a presente exposição seja também uma espécie de homenagem ao seu mestre, ao primeiro mestre, de quem, aliás, acrescenta "é admiradora e por quem tenho grande consideração. Mestre Resende foi sempre uma pessoa de enorme delicadeza e manteve atitudes de uma grande integridade, sendo naturalmente um lutador pela implementação da arte".
Integrando cerca de 40 desenhos sobre tela, lona e papel, as obras foram concebidas, de acordo com Graça Morais, num ambiente de grande recolhimento, "de muito silêncio, de uma absoluta atenção às pessoas, aos objectos e a diversas formas da Natureza."
A pintora diz mesmo que "é com grande satisfação que junto pedaços de um grande puzzle que venho a construir com teimosia e dedicação ao longo de muitos anos. Ainda bem que posso vê-los neste espaço, o Lugar do Desenho, um sítio cheio de significado e de enorme importância onde podemos ver, estudar e admirar a obra do mestre Júlio Resende".
No texto inserido no catálogo que acompanha a exposição, Resende escreve que "quando se anuncia uma exposição de Graça Morais, nunca se trata de mais uma exposição. É precisamente o caso presente. A artista cultiva o confronto com uma naturalidade surpreendente. Imparável na busca da verdade mais verdadeira, é no panorama da arte portuguesa um caso paradigmático de robusta determinação em avançar sem cedência a um mundo desacreditado pela manipulação de objectivos nem sempre compreensíveis".
Resende explica que "o desenho é sempre um sinal da verdade resultado de complexas forças do instinto para um significado de linguagem."
Jornal de Noticias
Este espaço pretende dar a conhecer a artista plástica Graça Morais por meio da pintura, de pequenos excertos de filmes, entrevistas. Aqui estará presente um expressivo número de obras de um dos maiores nomes da pintura portuguesa actual.
Portugueses nos confins da Rússia por Guilherme d'Oliveira Martins
Expedição. Começou em Cracóvia, e passou por Moscovo e Sampetersburgo, a embaixada cultural ?Os Portugueses ao Encontro da sua História', promovida pelo Centro Nacional de Cultura. O presidente da instituição, Guilherme d'Oliveira Martins, conta aos leitores do DN como foi a experiência
O jovem Damião de Góis, em missão diplomática no tempo de D. João III, em 1523, não se apercebeu, por certo, da extraordinária revolução que estava a operar-se na cidade de Cracóvia, capital do reino polaco, com a hipótese de Copérnico sobre o movimento da terra. Cracóvia é uma cidade acolhedora, com pessoas afáveis e hospitaleiras. Aqui começou este ano a embaixada cultural do Centro Nacional de Cultura "Os Portugueses ao Encontro da sua História". Um grande amigo, Jacek Wosniakowski, companheiro do cardeal Woytila, primeiro Presidente da Câmara depois de 1989, ensinou-me a ter uma especial ternura pela cidade. Não pude vê-lo, mas estive na "sua" Villa Decius, com Danuta Glondys, recordando os seus ensinamentos.
A cidade plana aconselha as caminhadas. Depois de descermos do Castelo de Wawel, encontramo-nos na Rua dos Cónegos. Pela tarde os turistas acotovelam-se e têm de se afastar à passagem das carruagens puxadas a cavalos. Passamos pela igreja jesuítica de S. Pedro e S. Paulo, por Santo André, e chegamos a Rynek Glówny, a maior praça europeia com o velho mercado de panos ao centro e a Basílica de Maria Santíssima (Mariacki), construída pelos burgueses da cidade, com duas torres, onde de hora a hora soa um toque de clarim. Se a Catedral em Wawel invoca a monarquia, a Basílica proclama a importância do burgo e dos seus comerciantes: nartex barroco, vitrais do século XIV, intervenções de estilo Sacro Império, decoração arte nova. Os estilos misturam-se, mas todas as atenções vão para a extraordinária obra de Veit Stoss, o maior retábulo gótico existente na Europa, realizado entre 1477 e 1489, em madeira de carvalho e tília - que representa a Dormição, a Assunção e a Coroação de Maria. As cinco máquinas retabulares constituem o fulcro dos altares-mores. E o movimento dos apóstolos parece dever-se à visão simultânea que têm de vários tempos, o dos céus e o da terra, ao modo de Santo Agostinho.
O cosmopolitismo de Cracóvia é marcante. Objectos e memórias associam-se. O astrolábio árabe de 1054; a Biblioteca do Collegium Maius; a referência de Justus Decius, secretário do rei Segismundo e amigo de Desidério Erasmo e de Martinho Lutero; os ensinamentos do rabino Mojzesz Isserles (Remuh); o mecenato dos Czartoryski (a quem se deve o Museu de Arte, onde vimos a Dama do Arminho de Leonardo e "Paisagem com samaritano" de Rembrandt); a poesia de Adam Mickiewicz; as sinagogas do bairro judeu de Kazimierz de raízes antiquíssimas (desde o século X e depois do século XV com a chegada dos sefarditas peninsulares), a presença bem próxima do papa João Paulo II - tudo isso pudemos recordar, calcorreando as ruas da cidade e gozando as margens verdes do Vístula.
Chegados a Moscovo
Entrados no Hotel Metropol, ingressamos num mundo outro. O Metropol foi um dos estabelecimentos que albergaram, após a revolução, numa cidade já esquecida de ter sido capital, o Governo bolchevique de Lenine. A criação do burgo deveu-se no século XII à iniciativa de Yuri Dolgoruki, filho do grão-duque de Kiev, Vladimir Monomarkh, e as fortificações do Kremlin na colina de Borovitskii datam do século XVI. O calor do Sul da Polónia cedeu lugar a um tempo instável nesses primeiros dias de Setembro. Depois de uma refeição acolhedora, na monumental sala de jantar do hotel, passeámos nas imediações da Praça Vermelha e em frente ao Teatro Bolshoi.
Render da guarda
Junto ao túmulo do soldado desconhecido, o sol espreita timidamente, entre as nuvens. O Kremlin de Moscovo é o símbolo do império e está associado a Ivan, o Terrível (1530-1585), que a guia, cuidadosamente, designa como temível, como mandam as boas regras. Ao visitarmos a Catedral das Coroações ou da Dormição da Virgem, deparamos com o esplendor da arte russa tradicional. Grupos de visitantes de todo o mundo cruzam-se. Ícones representam mais de cem santos. Sentimos a força da Terceira Roma, que sucede a Roma e a Constantinopla, como projecto eterno, como a Terceira Idade de Joaquim de Flora. O iconostase (que nos separa do altar) apresenta cinco níveis - o do Antigo Testamento, com Patriarcas e Profetas; o dos Apóstolos; o da Paixão de Cristo; o da Deesis (em torno da glorificação do Cristo Pantocrator e da Virgem Hodegetria, que indica a via libertadora ao apontar para Seu Filho); e, por fim, o dos ícones locais. As três catedrais do Kremlin de Moscovo representam, no papel que tiveram ao longo dos tempos, a sucessão dos ritos da vida: a da Anunciação como local dos casamentos e baptizados da família imperial, a da Dormição da Virgem para as coroações e a de S. Miguel Arcanjo para o rito da morte.
Graça Morais realizou os painéis de azulejos de uma das entradas da estação do metro de Bielorusskaya, uma das mais importantes e emblemáticas da rede que foi concebida em termos monumentais, num estilo neo-clássico e realista. Rostos de gente comum, de uma beleza e de uma simplicidade tocantes, contrastam com as representações dos operários e dos camponeses, dos soldados e dos marinheiros e as estátuas épicas. Há um apelo à humanidade de uma cidade diferente, de pessoas concretas. Se somos transportados na mítica estação, numa viagem histórica, à cidade de Estaline, com a obra da pintora portuguesa, tomamos contacto com a modernidade e o cosmopolitismo. Depois de homenagearmos Graça Morais, dedicámo--nos à Galeria Tretyakova, onde podemos usufruir da arte russa desde o século XII ao século passado. A colecção é um deslumbramento, sinal de uma cultura riquíssima. António Quadros em Uma Visita à Rússia - Impressões e Reflexões (Lisboa, 1969) afirma recordar "as multidões sorumbáticas e caladas ( ). Recordo os sonhos, as aspirações, as exaltações, as euforias e a animação dialéctica dos livros de Gogol, Dostoievsky, Tolstoi ou Tchekov. Total desfasagem. No entanto, o povo russo sabe recolher-se nostalgicamente na sua ducha (a alma individual), faz sentir o seu espírito religioso nas tão belas melodias folclóricas que continua a cantar". À distância, o ensaísta soube captar o essencial de uma sociedade apta a renascer. A pujança artística, a criação literária e filosófica, a capacidade de olhar o que é realmente importante são evidentes, como vimos no Museu Pushkin, pela clarividência dos grandes coleccionadores de há um século (Shchukin e Morozov, que apoiaram as novas tendências da melhor arte europeia, até Matisse e Picasso). Ao sair de Moscovo, passamos pela casa de Morozov - surpreendente homenagem ao Portugal romântico e revivalista do neo-manuelino e de Monserrate Levamos a recordação duma cidade movimentada, que nestes dias era o centro das notícias do mundo, pela crise da Geórgia e pela afirmação do Governo russo. Mas isso não impediu que o embaixador Manuel Marcelo Curto, apesar das preocupações, pudesse apoiar-nos com grande simpatia e hospitalidade. Lembrámos Jaime Batalha Reis, amigo de Antero, que nos representou na corte imperial e perante o governo revolucionário de 1917. E não esquecemos Jaime Magalhães de Lima, que visitou o seu mestre Tolstoi, relatando em Cidades e Paisagens (Porto, 1889) esse encontro memorável.
Rumamos a Sampetersburgo
É uma cidade espectacular. Foi construída por Pedro, o Grande, com um duplo objectivo: aproximar o povo russo da Europa e do cosmopolitismo e impressionar como capital de um império de tipo novo. O centro histórico, as margens do Neva, os canais, os monumentos, os palácios, a Nevski Prospect, o Ermitage, o forte de S. Pedro e S. Paulo, a flecha do Almirantado, a cúpula de Santo Isaac, o fantástico Museu Russo, no Palácio Mika-hilovski, a Catedral do Sangue Derramado - tudo nos acolhe com magnanimidade. E no rasto da presença portuguesa, andámos sempre com o precioso livro de Rómulo de Carvalho Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (Sá da Costa, 1979) nas mãos, fonte inesgotável de informações. Começámos por lembrar António Manuel Luís Vieira, amigo de Pedro, o Grande, que este conheceu em Londres e que foi general-ajudante às ordens e chefe da Polícia de Sampetersburgo. No entanto, o conde Vieira caiu em desgraça depois da morte do czar, tendo sido deportado para a Sibéria, onde faleceu. A grande referência é, porém, António Ribeiro Sanches, que esteve durante dezasseis anos na corte (até 1747) com funções médicas muito relevantes e com influência decisiva nos domínios científico e educativo. Quando Catarina II subiu ao trono, já Sanches estava em Paris, a czarina atribuiu-lhe uma tença de mil rublos e designou-o seu conselheiro, tendo-lhe solicitado pareceres fundamentais nos domínios educativo e científico. No teatro do Ermitage, recordámos Luísa Todi que aí cantou para Catarina II de 1784 e 1788, que, encantada, a presenteou com uma fabulosa colecção de jóias que viria a perder-se no desastre da Ponte das Barcas (1809). E temos de referir ainda Juliana Luísa de Oyenhausen (1782-1864), filha da marquesa de Alorna, que casou em 1828 com Grigory Stroganov e viveu no mais célebre dos palácios da Avenida Nevski.
Um dia inteiro no Ermitage, o Palácio de Inverno, é pouco, mas é uma experiência única. É a obra-prima do arquitecto Rastrelli. Aqui está o fundamental da arte europeia: Leonardo, Rafael, Caravaggio, Belotto, Velásquez, a maior colecção de Rembrandt, que inclui O Filho Pródigo, até Cezanne, Picasso e Matisse. Uma colecção fantástica de artes decorativas, jóias, artefactos, antiguidades, tudo Mas ver Sampetersburgo, sentir a sua grandeza mítica, é visitar ainda, como fizemos, o Palácio de Verão de Catarina, o Palácio de Pedro (Peterhof) e o Palácio de Paulo (Paulovsk), que prolongam em registos diversos a ambiência de um setecentismo fulgurante, barroco, neo-clássico. E quando fomos a Novgorod, cidade do século X, uma das matrizes da cultura russa, com a catedral bizantina de Santa Sofia, sentimos confronto, contraste e ligação entre o Oriente e o Ocidente.
Diário de Notícias
O jovem Damião de Góis, em missão diplomática no tempo de D. João III, em 1523, não se apercebeu, por certo, da extraordinária revolução que estava a operar-se na cidade de Cracóvia, capital do reino polaco, com a hipótese de Copérnico sobre o movimento da terra. Cracóvia é uma cidade acolhedora, com pessoas afáveis e hospitaleiras. Aqui começou este ano a embaixada cultural do Centro Nacional de Cultura "Os Portugueses ao Encontro da sua História". Um grande amigo, Jacek Wosniakowski, companheiro do cardeal Woytila, primeiro Presidente da Câmara depois de 1989, ensinou-me a ter uma especial ternura pela cidade. Não pude vê-lo, mas estive na "sua" Villa Decius, com Danuta Glondys, recordando os seus ensinamentos.
A cidade plana aconselha as caminhadas. Depois de descermos do Castelo de Wawel, encontramo-nos na Rua dos Cónegos. Pela tarde os turistas acotovelam-se e têm de se afastar à passagem das carruagens puxadas a cavalos. Passamos pela igreja jesuítica de S. Pedro e S. Paulo, por Santo André, e chegamos a Rynek Glówny, a maior praça europeia com o velho mercado de panos ao centro e a Basílica de Maria Santíssima (Mariacki), construída pelos burgueses da cidade, com duas torres, onde de hora a hora soa um toque de clarim. Se a Catedral em Wawel invoca a monarquia, a Basílica proclama a importância do burgo e dos seus comerciantes: nartex barroco, vitrais do século XIV, intervenções de estilo Sacro Império, decoração arte nova. Os estilos misturam-se, mas todas as atenções vão para a extraordinária obra de Veit Stoss, o maior retábulo gótico existente na Europa, realizado entre 1477 e 1489, em madeira de carvalho e tília - que representa a Dormição, a Assunção e a Coroação de Maria. As cinco máquinas retabulares constituem o fulcro dos altares-mores. E o movimento dos apóstolos parece dever-se à visão simultânea que têm de vários tempos, o dos céus e o da terra, ao modo de Santo Agostinho.
O cosmopolitismo de Cracóvia é marcante. Objectos e memórias associam-se. O astrolábio árabe de 1054; a Biblioteca do Collegium Maius; a referência de Justus Decius, secretário do rei Segismundo e amigo de Desidério Erasmo e de Martinho Lutero; os ensinamentos do rabino Mojzesz Isserles (Remuh); o mecenato dos Czartoryski (a quem se deve o Museu de Arte, onde vimos a Dama do Arminho de Leonardo e "Paisagem com samaritano" de Rembrandt); a poesia de Adam Mickiewicz; as sinagogas do bairro judeu de Kazimierz de raízes antiquíssimas (desde o século X e depois do século XV com a chegada dos sefarditas peninsulares), a presença bem próxima do papa João Paulo II - tudo isso pudemos recordar, calcorreando as ruas da cidade e gozando as margens verdes do Vístula.
Chegados a Moscovo
Entrados no Hotel Metropol, ingressamos num mundo outro. O Metropol foi um dos estabelecimentos que albergaram, após a revolução, numa cidade já esquecida de ter sido capital, o Governo bolchevique de Lenine. A criação do burgo deveu-se no século XII à iniciativa de Yuri Dolgoruki, filho do grão-duque de Kiev, Vladimir Monomarkh, e as fortificações do Kremlin na colina de Borovitskii datam do século XVI. O calor do Sul da Polónia cedeu lugar a um tempo instável nesses primeiros dias de Setembro. Depois de uma refeição acolhedora, na monumental sala de jantar do hotel, passeámos nas imediações da Praça Vermelha e em frente ao Teatro Bolshoi.
Render da guarda
Junto ao túmulo do soldado desconhecido, o sol espreita timidamente, entre as nuvens. O Kremlin de Moscovo é o símbolo do império e está associado a Ivan, o Terrível (1530-1585), que a guia, cuidadosamente, designa como temível, como mandam as boas regras. Ao visitarmos a Catedral das Coroações ou da Dormição da Virgem, deparamos com o esplendor da arte russa tradicional. Grupos de visitantes de todo o mundo cruzam-se. Ícones representam mais de cem santos. Sentimos a força da Terceira Roma, que sucede a Roma e a Constantinopla, como projecto eterno, como a Terceira Idade de Joaquim de Flora. O iconostase (que nos separa do altar) apresenta cinco níveis - o do Antigo Testamento, com Patriarcas e Profetas; o dos Apóstolos; o da Paixão de Cristo; o da Deesis (em torno da glorificação do Cristo Pantocrator e da Virgem Hodegetria, que indica a via libertadora ao apontar para Seu Filho); e, por fim, o dos ícones locais. As três catedrais do Kremlin de Moscovo representam, no papel que tiveram ao longo dos tempos, a sucessão dos ritos da vida: a da Anunciação como local dos casamentos e baptizados da família imperial, a da Dormição da Virgem para as coroações e a de S. Miguel Arcanjo para o rito da morte.
Graça Morais realizou os painéis de azulejos de uma das entradas da estação do metro de Bielorusskaya, uma das mais importantes e emblemáticas da rede que foi concebida em termos monumentais, num estilo neo-clássico e realista. Rostos de gente comum, de uma beleza e de uma simplicidade tocantes, contrastam com as representações dos operários e dos camponeses, dos soldados e dos marinheiros e as estátuas épicas. Há um apelo à humanidade de uma cidade diferente, de pessoas concretas. Se somos transportados na mítica estação, numa viagem histórica, à cidade de Estaline, com a obra da pintora portuguesa, tomamos contacto com a modernidade e o cosmopolitismo. Depois de homenagearmos Graça Morais, dedicámo--nos à Galeria Tretyakova, onde podemos usufruir da arte russa desde o século XII ao século passado. A colecção é um deslumbramento, sinal de uma cultura riquíssima. António Quadros em Uma Visita à Rússia - Impressões e Reflexões (Lisboa, 1969) afirma recordar "as multidões sorumbáticas e caladas ( ). Recordo os sonhos, as aspirações, as exaltações, as euforias e a animação dialéctica dos livros de Gogol, Dostoievsky, Tolstoi ou Tchekov. Total desfasagem. No entanto, o povo russo sabe recolher-se nostalgicamente na sua ducha (a alma individual), faz sentir o seu espírito religioso nas tão belas melodias folclóricas que continua a cantar". À distância, o ensaísta soube captar o essencial de uma sociedade apta a renascer. A pujança artística, a criação literária e filosófica, a capacidade de olhar o que é realmente importante são evidentes, como vimos no Museu Pushkin, pela clarividência dos grandes coleccionadores de há um século (Shchukin e Morozov, que apoiaram as novas tendências da melhor arte europeia, até Matisse e Picasso). Ao sair de Moscovo, passamos pela casa de Morozov - surpreendente homenagem ao Portugal romântico e revivalista do neo-manuelino e de Monserrate Levamos a recordação duma cidade movimentada, que nestes dias era o centro das notícias do mundo, pela crise da Geórgia e pela afirmação do Governo russo. Mas isso não impediu que o embaixador Manuel Marcelo Curto, apesar das preocupações, pudesse apoiar-nos com grande simpatia e hospitalidade. Lembrámos Jaime Batalha Reis, amigo de Antero, que nos representou na corte imperial e perante o governo revolucionário de 1917. E não esquecemos Jaime Magalhães de Lima, que visitou o seu mestre Tolstoi, relatando em Cidades e Paisagens (Porto, 1889) esse encontro memorável.
Rumamos a Sampetersburgo
É uma cidade espectacular. Foi construída por Pedro, o Grande, com um duplo objectivo: aproximar o povo russo da Europa e do cosmopolitismo e impressionar como capital de um império de tipo novo. O centro histórico, as margens do Neva, os canais, os monumentos, os palácios, a Nevski Prospect, o Ermitage, o forte de S. Pedro e S. Paulo, a flecha do Almirantado, a cúpula de Santo Isaac, o fantástico Museu Russo, no Palácio Mika-hilovski, a Catedral do Sangue Derramado - tudo nos acolhe com magnanimidade. E no rasto da presença portuguesa, andámos sempre com o precioso livro de Rómulo de Carvalho Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII (Sá da Costa, 1979) nas mãos, fonte inesgotável de informações. Começámos por lembrar António Manuel Luís Vieira, amigo de Pedro, o Grande, que este conheceu em Londres e que foi general-ajudante às ordens e chefe da Polícia de Sampetersburgo. No entanto, o conde Vieira caiu em desgraça depois da morte do czar, tendo sido deportado para a Sibéria, onde faleceu. A grande referência é, porém, António Ribeiro Sanches, que esteve durante dezasseis anos na corte (até 1747) com funções médicas muito relevantes e com influência decisiva nos domínios científico e educativo. Quando Catarina II subiu ao trono, já Sanches estava em Paris, a czarina atribuiu-lhe uma tença de mil rublos e designou-o seu conselheiro, tendo-lhe solicitado pareceres fundamentais nos domínios educativo e científico. No teatro do Ermitage, recordámos Luísa Todi que aí cantou para Catarina II de 1784 e 1788, que, encantada, a presenteou com uma fabulosa colecção de jóias que viria a perder-se no desastre da Ponte das Barcas (1809). E temos de referir ainda Juliana Luísa de Oyenhausen (1782-1864), filha da marquesa de Alorna, que casou em 1828 com Grigory Stroganov e viveu no mais célebre dos palácios da Avenida Nevski.
Um dia inteiro no Ermitage, o Palácio de Inverno, é pouco, mas é uma experiência única. É a obra-prima do arquitecto Rastrelli. Aqui está o fundamental da arte europeia: Leonardo, Rafael, Caravaggio, Belotto, Velásquez, a maior colecção de Rembrandt, que inclui O Filho Pródigo, até Cezanne, Picasso e Matisse. Uma colecção fantástica de artes decorativas, jóias, artefactos, antiguidades, tudo Mas ver Sampetersburgo, sentir a sua grandeza mítica, é visitar ainda, como fizemos, o Palácio de Verão de Catarina, o Palácio de Pedro (Peterhof) e o Palácio de Paulo (Paulovsk), que prolongam em registos diversos a ambiência de um setecentismo fulgurante, barroco, neo-clássico. E quando fomos a Novgorod, cidade do século X, uma das matrizes da cultura russa, com a catedral bizantina de Santa Sofia, sentimos confronto, contraste e ligação entre o Oriente e o Ocidente.
Diário de Notícias
Na Rota Do Sagrado - Entrevista Graça Morais
Por Ana Marques Gastão
Graça Morais. Oito telas a óleo e 23 desenhos (dois de grande formato) e colagens integram a exposição de inéditos que Graça Morais inaugura, hoje, às 18.30, na Galeria DN, em Lisboa. A mostra ficará patente até 8 de Novembro, seguindo depois para a Galeria JN no Porto
A terra esteve sempre presente na sua obra. É como se ela se tivesse tornado nestes trabalhos hiper- - real e mais angustiada...
Talvez porque a morte se dê a ver de uma forma mais densa. Pinto em grande inquietação. Quanto mais envelheço, mais tenho a sensação de que a terra nos dá a vida e a morte. O tempo é limitado. Tenho vindo a isolar-me, sobretudo em Trás-os-Montes, desde que fiz 60 anos. Vivemos num planeta pequeno, invadido pela globalização, onde somos obrigados a ter uma imensa força, insuficiente para a nossa tão grande fragilidade. A fragilidade assusta, mete medo. Sentimo-la na solidão, na doença, nos cataclismos ambientais, numa ética que deixou de o ser e que coloca novas questões à Humanidade e, por sua vez, à arte.
É como se nestas imagens a terra suportasse um peso imenso?
O Céu é pesado, ameaçador. Represento-o assim, muito realista, num quadro onde se vêem uma batata em putrefacção que é o tempo, a passagem dos dias, a vida que se degrada. Ao lado, visualiza-se uma criança de cera - das promessas religiosas -, um açucareiro, que era da minha avó paterna, e um homem fardado, figura ameaçadora sem nome. Estes quadros são fragmentários e resultam de um grande isolamento. Gostaria que a minha pintura revelasse ideias, sensações da minha experiência do mundo.
Talvez por isso, surja a colagem em alguns destes quadros?
Sim, vou combinando fragmentos que têm a ver com a representação do rosto, da máscara, dos elementos vegetais e de figuras que são o resultado de imagens de catástrofes que recupero das primeiras páginas dos jornais. Pergunto-me porquê estas e não outras, uma vez que são iguais em todo mundo? Será da globalização, mas são aquelas que querem que vejamos.
Prosseguiu, de um modo mais denso, o diálogo entre sagrado e profano já presente na sua obra?
Mais do que qualquer outra anterior, esta pintura é religiosa. De alguma forma, contém a minha verdade interior e, nesse sentido, dir-se-ia intimista. Parte do meu mundo, de figuras que me são familiares como a minha mãe, e nela as cores tornam-se ideias, símbolos. Em Agosto, estive na Rússia, em Moscovo, em São Petersburgo, e na Polónia, em Cracóvia, a convite de Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. Nessa viagem - em que vi a minha participação em painéis de azulejo na estação Bielorússia do Metro de Moscovo - compreendi o significado dos meus quadros quando entrei nas igrejas ortodoxas e ouvi os cânticos.
Mas é algo que não encontra nas igrejas católicas romanas?
Para aliciar os jovens, na minha opinião, banalizaram-se muito os rituais. Nas igrejas ortodoxas que visitei, sobretudo, em São Petersburgo, encontrei uma outra solenidade, uma outra interioridade. Digamos que comecei este caminho há muito, mas estou numa fase de maior meditação. Foi um encontro com os meus quadros.
Está a falar também de Deus?
Não necessariamente. Ou melhor, estou a falar de uma dimensão que nos ultrapassa enquanto seres humanos; de um sentimento muito especial, imensamente profundo. Algo que sinto no meio do corpo e que fica em sintonia com a totalidade do universo, com o divino. Encontrei Deus numa igreja ortodoxa na Rússia, mas não em Fátima, onde estive quando um irmão meu teve um cancro e quis lá ir. A missa foi interrompida de uma forma brutal, o padre não tinha espírito religioso, as pessoas falavam alto e o lado mercantil chocou-me. Sinto, por outro lado, que os artistas têm um mundo espiritual que a Igreja negligenciou no século XX, o que a empobreceu. Sou crente, mas sinto-me desintegrada.
Vemos, nestes quadros, a escrita diarística a fundir-se com a pintura em diálogo com a sua mãe...
Sem pretensões literárias, vou escrevendo apontamentos, notas, desabafos, explosões sobre o quotidiano, alegrias, tristezas, e insiro-os na pintura. A palavra pode ser mais importante do que a imagem. Também ela é imagem. Este Verão, em Trás-os-Montes - onde estive a fazer estes quadros -, visitava todos os dias a minha mãe ao fim da tarde. A essa hora, há uma linha indefinida entre os céus e as montanhas e luz torna-se mágica. Enquanto caminhava, ia ganhando consciência de que aquela era uma viagem em direcção do sagrado.
A Terra é mãe. E a sua mãe...
...é o símbolo da Terra. Da terra vimos e para a terra vamos. Por isso quando chegava a Vieiro, o que fazíamos era ir ver a horta. A minha mãe, a Maria e eu ficávamos a observar o crescimento das plantas, dos tomates, das abóboras... Talvez por ter vivido essa experiência, eu ache que todas as escolas primárias e lares da terceira idade deveriam ter hortas e jardins. As pessoas do povo estão nesses espaços à espera de morrer e dizem: "Estou à espera que Ela venha." Ela é a morte. Se estivessem mais próximas da natureza, compreenderiam o quanto podem ajudar a que ela se renove.
Têm uma relação maternal com a Terra essas mulheres?
Ainda que por vezes não tenham consciência disso, a relação com o semear e o colher é de um grande amor. Para mim, nesses momentos, o universo ganha sentido. A paisagem que deixei para trás, aquele mistério culmina no encontro com a minha mãe. Tão simples e tão profundo, não é? Por isso, em mais do que um quadro nesta exposição, ponho as mulheres a segredarem. Elas são sábias, contam segredos, sussurram, e eu cubro-as de flores coloridas. Foram curandeiras ao longo dos tempos, parteiras, conhecem bem a terra, possuem a sabedoria das plantas...
Pintou um rosto de mulher envolto numa couve. Parece uma flor!
É mais um embrião de flor. Estou sempre a observar couves no campo, têm formas incríveis, Hei-de fazer uma série só de couves (risos). São pujantes, sobretudo as grandes. Descobri imensas coisas nestes meus passeios de Verão. Ao entardecer, era inquietante ouvir o vento a bater nas canas de milho. Às vezes, assustava-me. Pressentia presenças humanas ou espíritos. Como se natureza ganhasse dimensão humana. Tenho o atelier cheio delas agora; o meu irmão Cristiano traz-mas. Estão abertas, desesperadas, tortas. O que me interessa não é pintá-las no lugar onde estão, mas transformá-las. Não gosto de as retirar do seu meio-ambiente que é harmonioso. Reintegro-as na minha realidade. Represento-as de outra forma, por vezes incompreensível.
A metamorfose marca a sua obra que transforma os seres humanos em pássaros, flores... Uma sabedoria que vem dos antigos?
A metamorfose é a transformação que o tempo dá à matéria.
Palavras como fecundidade e fertilidade, vida e morte, queda e renascimento atravessam a exposição?
Há sempre uma luz, ainda que esta pintura seja sentida, triste, densa.
Diário de Notícias
Graça Morais. Oito telas a óleo e 23 desenhos (dois de grande formato) e colagens integram a exposição de inéditos que Graça Morais inaugura, hoje, às 18.30, na Galeria DN, em Lisboa. A mostra ficará patente até 8 de Novembro, seguindo depois para a Galeria JN no Porto
A terra esteve sempre presente na sua obra. É como se ela se tivesse tornado nestes trabalhos hiper- - real e mais angustiada...
Talvez porque a morte se dê a ver de uma forma mais densa. Pinto em grande inquietação. Quanto mais envelheço, mais tenho a sensação de que a terra nos dá a vida e a morte. O tempo é limitado. Tenho vindo a isolar-me, sobretudo em Trás-os-Montes, desde que fiz 60 anos. Vivemos num planeta pequeno, invadido pela globalização, onde somos obrigados a ter uma imensa força, insuficiente para a nossa tão grande fragilidade. A fragilidade assusta, mete medo. Sentimo-la na solidão, na doença, nos cataclismos ambientais, numa ética que deixou de o ser e que coloca novas questões à Humanidade e, por sua vez, à arte.
É como se nestas imagens a terra suportasse um peso imenso?
O Céu é pesado, ameaçador. Represento-o assim, muito realista, num quadro onde se vêem uma batata em putrefacção que é o tempo, a passagem dos dias, a vida que se degrada. Ao lado, visualiza-se uma criança de cera - das promessas religiosas -, um açucareiro, que era da minha avó paterna, e um homem fardado, figura ameaçadora sem nome. Estes quadros são fragmentários e resultam de um grande isolamento. Gostaria que a minha pintura revelasse ideias, sensações da minha experiência do mundo.
Talvez por isso, surja a colagem em alguns destes quadros?
Sim, vou combinando fragmentos que têm a ver com a representação do rosto, da máscara, dos elementos vegetais e de figuras que são o resultado de imagens de catástrofes que recupero das primeiras páginas dos jornais. Pergunto-me porquê estas e não outras, uma vez que são iguais em todo mundo? Será da globalização, mas são aquelas que querem que vejamos.
Prosseguiu, de um modo mais denso, o diálogo entre sagrado e profano já presente na sua obra?
Mais do que qualquer outra anterior, esta pintura é religiosa. De alguma forma, contém a minha verdade interior e, nesse sentido, dir-se-ia intimista. Parte do meu mundo, de figuras que me são familiares como a minha mãe, e nela as cores tornam-se ideias, símbolos. Em Agosto, estive na Rússia, em Moscovo, em São Petersburgo, e na Polónia, em Cracóvia, a convite de Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura. Nessa viagem - em que vi a minha participação em painéis de azulejo na estação Bielorússia do Metro de Moscovo - compreendi o significado dos meus quadros quando entrei nas igrejas ortodoxas e ouvi os cânticos.
Mas é algo que não encontra nas igrejas católicas romanas?
Para aliciar os jovens, na minha opinião, banalizaram-se muito os rituais. Nas igrejas ortodoxas que visitei, sobretudo, em São Petersburgo, encontrei uma outra solenidade, uma outra interioridade. Digamos que comecei este caminho há muito, mas estou numa fase de maior meditação. Foi um encontro com os meus quadros.
Está a falar também de Deus?
Não necessariamente. Ou melhor, estou a falar de uma dimensão que nos ultrapassa enquanto seres humanos; de um sentimento muito especial, imensamente profundo. Algo que sinto no meio do corpo e que fica em sintonia com a totalidade do universo, com o divino. Encontrei Deus numa igreja ortodoxa na Rússia, mas não em Fátima, onde estive quando um irmão meu teve um cancro e quis lá ir. A missa foi interrompida de uma forma brutal, o padre não tinha espírito religioso, as pessoas falavam alto e o lado mercantil chocou-me. Sinto, por outro lado, que os artistas têm um mundo espiritual que a Igreja negligenciou no século XX, o que a empobreceu. Sou crente, mas sinto-me desintegrada.
Vemos, nestes quadros, a escrita diarística a fundir-se com a pintura em diálogo com a sua mãe...
Sem pretensões literárias, vou escrevendo apontamentos, notas, desabafos, explosões sobre o quotidiano, alegrias, tristezas, e insiro-os na pintura. A palavra pode ser mais importante do que a imagem. Também ela é imagem. Este Verão, em Trás-os-Montes - onde estive a fazer estes quadros -, visitava todos os dias a minha mãe ao fim da tarde. A essa hora, há uma linha indefinida entre os céus e as montanhas e luz torna-se mágica. Enquanto caminhava, ia ganhando consciência de que aquela era uma viagem em direcção do sagrado.
A Terra é mãe. E a sua mãe...
...é o símbolo da Terra. Da terra vimos e para a terra vamos. Por isso quando chegava a Vieiro, o que fazíamos era ir ver a horta. A minha mãe, a Maria e eu ficávamos a observar o crescimento das plantas, dos tomates, das abóboras... Talvez por ter vivido essa experiência, eu ache que todas as escolas primárias e lares da terceira idade deveriam ter hortas e jardins. As pessoas do povo estão nesses espaços à espera de morrer e dizem: "Estou à espera que Ela venha." Ela é a morte. Se estivessem mais próximas da natureza, compreenderiam o quanto podem ajudar a que ela se renove.
Têm uma relação maternal com a Terra essas mulheres?
Ainda que por vezes não tenham consciência disso, a relação com o semear e o colher é de um grande amor. Para mim, nesses momentos, o universo ganha sentido. A paisagem que deixei para trás, aquele mistério culmina no encontro com a minha mãe. Tão simples e tão profundo, não é? Por isso, em mais do que um quadro nesta exposição, ponho as mulheres a segredarem. Elas são sábias, contam segredos, sussurram, e eu cubro-as de flores coloridas. Foram curandeiras ao longo dos tempos, parteiras, conhecem bem a terra, possuem a sabedoria das plantas...
Pintou um rosto de mulher envolto numa couve. Parece uma flor!
É mais um embrião de flor. Estou sempre a observar couves no campo, têm formas incríveis, Hei-de fazer uma série só de couves (risos). São pujantes, sobretudo as grandes. Descobri imensas coisas nestes meus passeios de Verão. Ao entardecer, era inquietante ouvir o vento a bater nas canas de milho. Às vezes, assustava-me. Pressentia presenças humanas ou espíritos. Como se natureza ganhasse dimensão humana. Tenho o atelier cheio delas agora; o meu irmão Cristiano traz-mas. Estão abertas, desesperadas, tortas. O que me interessa não é pintá-las no lugar onde estão, mas transformá-las. Não gosto de as retirar do seu meio-ambiente que é harmonioso. Reintegro-as na minha realidade. Represento-as de outra forma, por vezes incompreensível.
A metamorfose marca a sua obra que transforma os seres humanos em pássaros, flores... Uma sabedoria que vem dos antigos?
A metamorfose é a transformação que o tempo dá à matéria.
Palavras como fecundidade e fertilidade, vida e morte, queda e renascimento atravessam a exposição?
Há sempre uma luz, ainda que esta pintura seja sentida, triste, densa.
Diário de Notícias
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