Exposição de Graça Morais






Hoje, ás 20 horas inaugura uma exposição de Graça Morais na Galeria da Ordem dos Médicos.

“Desejo através dos meus quadros ter consciência de quem sou, questionar a minha existência, afirmar a minha identidade construída através de sinais, símbolos, imagens, memórias de uma realidade que me liga ao universo.
Com a minha pintura quero construir um espaço diferente e único onde possa defender a minha personalidade nestes tempos de grande massificação. A reflexão que faço do mundo está toda nos quadros que pinto. O quadro é um território íntimo, de magia, onde a linha, a cor, o espaço e a luz aparecem carregadas de profunda espiritualidade”.

Extracto do diário de Graça Morais publicado no livro “Uma Geografia da Alma”
17 de Julho de 2000

Galeria da Ordem dos Médicos» Av. Almirante Gago Coutinho, 151 Tel. 21 842 71 00
















































































Diário escrito e pintado à sombra de uma perdiz


Por Ana Marques Gastão

No princípio há o pânico e depois um instinto absoluto de sobrevivência, de criar alguma ordem para lhe poder escapar. A ideia é de Louise Bourgeois, mas adequa-se ao processo de composição do diário de Graça Morais: singular, maduro, pungente, escrito-pintado num só dia, em Freixiel, Trás-os-Montes. A exposição inaugura-se hoje, na Galeria Ratton, às 22.00.

Este "jogo" impaciente de palavras e imagens, territórios próximos onde coabitam necessariamente tensões e paradoxos, revela momentos isolados, meditativos, fundados numa colecção de espaços e memórias ligados à infância, à terra, à infância da terra na sua pureza e decadência.

Nesta materialização do texto na pintura, encena-se não propriamente uma narratividade das imagens, mas uma tessitura de pensamentos, silêncios, interrogações, reeinvenções da nostalgia de um tempo que já não volta. Não é decisiva, nestes trabalhos, a caça de um efeito, mesmo tendo em conta a técnica apurada. Reconhece-se, porém, na impaciência da arte, a afirmação de um caminho sólido, coerente, diferenciado.

Os desenhos, exactamente 31 (a tinta da china e a sépia sobre papel) dizem, na sua expressividade intensa e não menos contida, de uma fractura íntima ("Só sinto e muito, a chuva, a tristeza, a música, a angústia de não saber nada. Só sei que preciso de desenhar e muito. À procura, sempre à procura!"), de um sentir estilhaçado, abrindo brechas num presente de insatisfações e desejos.

Graça escreve enquanto a mão avança no desenho, tranquila e vibrátil: "Regresso a Freixiel. Casa quente, acolhedora, mas uma ilha, enorme, fechada. Todos os dias me procuro numa solidão angustiante. Duvido do que faço. Sinto-me pendurada, não pertenço a nenhum lugar? Porque estou tão agarrada a este sítio?", questiona-se a pintora. Consciente do desenraizamento, pensa sobre o exílio do artista, a passagem do tempo, a incompletude do saber, a morte e o seu pressentimento, reencontrando-se na perdiz que pinta e confunde com os humanos. Tudo se extingue, afinal, e logo renasce na estranha metamorfose da vida.

O diário foi escrito no dia da trasladação de Lúcia, a escrita e o desenho rodeiam o acontecimento: "Na aldeia as pessoas resguardam-se debaixo do cabanal dos autocarros, gente sem risos, sérios, olhos fixos na estrada e no chão. Em casa, minha mãe ouve a 4.ª missa do dia. Em Fátima, Lúcia reúne milhares de pessoas. Tudo em directo, gente de fé, gente sem futuro, gente que acredita para viver e para morrer em paz."


Entre o caos desolador da cidade e o campo envelhecido, Graça Morais comenta: "Sinto que tudo se está a perder, vêem-se poucas pessoas, muitas mulheres, gente pensativa de olhar baixo", diz, relembrando as terras do Nordeste transmontano, as suas, pertencentes a um país que "nos tira energias e nos rói a carne e os ossos. Ficamos com pouco".


Dia muito intenso, o da feitura do diário, escrito e pintado na mudez da sombra e no "mistério de um viver intrigante". A pintora procura o outro lado de ver por dentro, desenha o que quase não pode ser dito e, como um cirurgião, num metódico exercício, disseca, num gesto rápido, a perdiz a perder sangue pelo bico; pinta uma mulher-bicho a guardar um rebanho de batatas greladas que "não servem para nada"; desenha duas figuras (a mãe e a empregada, modelos de há anos) a conversar sobre a terra como se nela se fundissem: "Já não são pessoas, mas pó", resquício de "um tempo outro sem televisão", salienta.


Lateja neste ciclo de desenhos uma certa desmesura harmoniosa e negra na apreensão da vacuidade do mundo, mas nele habitam também cintilações na claridade leve de um gosto pela vida. Este capta-se na incandescência da música (Mozart, Haydn...) e da criação indecifrável.

Táctil, o diário transforma a dor sem a reduzir a cinzas. Atormentado, frutifica numa tensão interiorizada, visceral, em comunhão com a natureza e, nessa organicidade, demonstra como a arte é reiniciadora, variando laboriosamente até atingir momentos em que estranheza e indizível se tocam. E assim a perdiz se transforma em filho nos braços de um homem, qual Pietà ou grito.





A Trança de Graça Morais


2005 Joana Morais©




Graça Morais Veneza


2000 Joana Morais©

Graça e Pedro


1991


Graça Morais e Mãe Alda


1991


Graça Morais e Filha Joana


1997


Graça Morais e Família



1996


Graça Morais na Culturgest


1996


Graça Morais e Pedro Caldeira Cabral


1995 Joana Morais©


Graça no Vieiro


1994


Graça Morais


1992

Graça Morais e Família


1991


As 3 Gerações


1991


Graça no Atelier


1991 Roberto Santandreu ©


Graça Morais no Atelier de S.Paulo


1989


Graça em Cabo Verde


Cabo-Verde, 1988


Graça Morais


1985


Graça Morais


1984


Graça Morais no Atelier


1981


Graça, o Pintor Jaime Silva e a filha Joana


1975


Vieiro


Vieiro



Graça na ESBAP, 1971

Graça na ESBAP, 1971

Graça na ESBAP, 1966

Bragança, 1964

Pai, Jaime Morais

Graça, com 9 anos de idade

Graça com 8 anos, em Moçambique com a mãe e o irmão Zeca

Graça com 7 anos de idade, a mãe Alda e os irmãos Zeca, Tina e Nuno

Graça Morais a desenhar, Sines 2005














Tags: graça Morais, slideshow, pintura